domingo, Junho 13, 2010

Subsídio para o Tratado do cante

No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
O nome dos poetas populares
(...)
Poema de Padre António Vieira.
Maria Bethânia dá voz e alma (CD Pirata, faixa 12).
Que deveria estar na boca do povo.

Registo de memória
Longe vão os tempos da minha infância. Recordo-os com muita saudade. Tive uma infância rica! Foram-me dadas possibilidades e ocasiões de leitura e de grande entendimento sobre tudo o que me rodeava. Soube ler! Na minha terra «Montoito» havia tudo e de quase tudo para a minha evolução. Registo com agrado esta paixão pelo cante que me alimenta desde então. De tal maneira o cante está entranhado que ainda hoje não consigo despegar na tentativa de saber ainda mais sobre tão nobre forma de ser e querer.

Quando eu oiço o bem cantar
Paro e tiro o meu chapéu
Não se me dava morrer
Se houvesse cante no céu.1

Recordo aqueles tempos em que nas tabernas, palco privilegiado de tantas modas: umas de passatempo e outras de amarfanhamento; algumas de festa mas ainda outras de tristezas. Mas era encantador ver grupos de jovens, mais ou menos da mesma idade, que depois de um copo, um petisco, uma boa moda, saíam em grupo, circulavam pelas ruas e onde morava uma namorada de alguém do grupo, paravam, faziam um círculo e então o ponto (pretendente) começava com uma cantiga quase sempre dirigida à pretendida e logo surgia a moda levantada pelo alto a dar entrada ao coro dos restantes elementos. Era assim na minha meninice. E eu registei esses momentos que sempre me acompanharam.

Quando a mocidade passa
À minha porta cantando
Venho me assumar à porta
Volto para trás chorando.2

Era ainda nas tabernas que os homens alentejanos se uniam, depois de um dia de trabalho; de um dia de festa; de um dia em que o capataz não o contou para a jornada de trabalho; e até por outros motivos de compensação para alegrias e desgraças que a todos ocorrem, certos das suas fraquezas e forças, onde atrás de um copo de vinho e de um petisco surgia uma cantiga e a moda que então andava na moda; depois outra cantiga... a mesma moda.3

Venha o copo, venha a pinga
Venha mais meia canada
Eu sem o copo não bebo
Sem a pinga não sou nada.4

No campo era a labuta. E que labuta! Os homens tinham que se levantar muito cedo para que ao nascer do sol estivessem prontos para enregar a trabalhar: a lavoura..., a sementeira..., naqueles dias de invernia onde parecia que o céu vinha abaixo, lá iam os homens sujeitos à inclemência do tempo e das necessidades. Ainda hoje rememoro a saída das parelhas, com toda a ocharia da lavoura, sob um intenso nevoeiro, vento e chuva e lá iam para as terras de barro da herdade da Casa Alta. Logo à saída do monte, não se via nada, só se ouviam as esquilas dos cabrestos dos animais. Era para o pão nosso de cada dia.

LAVOURA (Almocreve)5

Ponto: A vida dum almocreve
É uma vida arriscada
Ao descer duma ladeira
Ao cerrar duma carrada
Ao cerrar duma carrada
Alto: Lembra-me os tempos passados
Tudo se vai acabando
Coro: Os bois puxando o arado
O almocreve cantando
O almocreve cantando
Alto: O almocreve cantando
Cultivando lindos prados
Coro: Quando vejo alguém lavrando
Lembra-me os tempos passados
Lembra-me os tempos passados
Ponto Às vezes lá no meu monte
Faço vazas de ganhão
Lavro com dois bois vermelhos
Que fazem tremer o chão
Que fazem tremer o chão
Alto: Lembra-me os tempos passados
...

Depois vinha a monda e era vê- las, as mulheres que saíam de casa, ao grito da manajeira, que no início de cada rua da vila, as ia chamando para a monda, numa herdade a uns quilómetros de distância. Sinto ainda nos meus ouvidos aquele chamamento cantado que engrenava no processo de início da jornada.6
A ceifa. Grandes ranchos de homens e mulheres. Grandes searas. Sol abrasador. Mas... era uma alegria! Lá no fundo das minhas memórias7 ainda vislumbro aquela chegada à vila, de um rancho que tinha acabado a ceifa na herdade da Mencoca, “que estímulo orientava aquela gente para aquele transbordar de alegria?” Ainda vinham a alguns quilómetros da vila e já se ouviam a cantar. Foi muito envolvente.

VERÃO8

Ponto: Verão, a brasa dourada e celeste
Esvaiu do Sol agreste
Dourando mais as espigas
Ceifeiros corpos curvados
Ceifando e atando molhos
E benção loira da vida
Alto: Meu Alentejo
Coro: Enquanto isto se processa
O Sol ferido e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada
O suor rasga a camisa
Homem queimado mais fica
A vida é feita de brasa
Ponto: O suor caustica os corpos
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor
O seu cantar é dolente
É certo que é boa gente
É verdade e tem mais sol
Alto: Meu Alentejo
Coro: ...
Notas:
1 - Hoje posso... podemos ter presente o que esta quadra (cantiga) quer dizer. Este sentimento está entranhado no alentejano como fazendo parte do ser Ser.
2 - Hoje posso comungar deste sentimento com o envolvimento e a carga emotiva que esta quadra (cantiga) contém.
3 - Deixo aqui o registo de três tabernas, entre outras, da minha terra (Montoito) que existiam na minha infância: a do Zé Bagulho; a do Ti Feliz; a do Zé Palheta. Era nestas taberna que mais ouvia cantar.
4 - Não sei a origem desta quadra (cantiga). Julgo que não é do Alentejo. Mas vem a contendo.
5Esta moda foi feita por Estêvão “Olhicos” da Amareleja. É popular.
6 - Deixo aqui a minha homenagem à minha mãe, manajeira, que recordo com muita saudade. Bem Haja!
7 - Em finais da década de 50.
8 - Moda feita por Manuel Conde de S. Pedro do Corval para o Grupo Coral da casa do Povo de Reguengos de Monsaraz.

A ceifa, de António Galvão

Do campo retenho ainda com grande intensidade o cheiro da terra, a rotina da volta do gado, o enleio do cantar dos pássaros... Tudo isto ainda me traz cativo. Ser pastor, num tempo de interiorização, no bom uso das suas faculdades com o sentido de liberdade e de sã convivência com a natureza, com a cumplicidade dos animais que guarda, com a ajuda do seu cão macaco, do ajuda, dá forçosamente muita capacidade criativa. É com este embevecimento que se fizeram grandes modas ao pastor. Bem Hajam os seus criadores!

A PLANÍCIE ALENTEJANA1

Ponto: No alvor da madrugada
Sai o gado p'ra pastagem
Num silêncio tão profundo
Lembra-me assim a vida selvagem
Alto: Na planície alentejana
Coro: Oiço os chocalhos do gado
O assobio do pastor
E o latir dos cão macaco
Alto: Debaixo do Sol escaldante
Coro: Vão pastando nos montados
Na planície alentejana
Oiço o balir e os seus chocalhos
Ponto: Desde o começo do mundo
Desbravando a natureza
O homem guarda o seu gado
Cheio de amor carinho e beleza
Alto: Na planície alentejana
Coro: ...

Nota:
1 - Moda feita por Manuel Martins do Grupo Coral e Musical "Diversos do Alentejo" de Pinhal dos Frades.

Cabana do pastor
Registo ainda como um facto marcante na minha caminhada, na UCP Estrela Negra de Sousel, aquela adiafa no final da apanha da azeitona do ano de 1976, com um grande desfile pelas ruas de Sousel, onde as saias cantadas à cooperativa e ao povo alentejano marcaram toda aquela gente muito profundamente. Bem Hajam!

Chega a hora de romper com esta vida. O sentido de arranjar mais proventos, o dar outro padrão de vida aos filhos, não conseguíveis na sua terra, fez com que os seus melhores partissem. Mas nunca houve separação nem afastamento. Sempre se arranjaram motivos para se estar perto do seu Alentejo. Esta ligação foi sempre feita através do Cante.

QUANDO EU CHEGUEI AO BARREIRO1

Vou-me embora para Lisboa
Porque a vida cá é má
À busca de coisa boa
Pergunto não encontro cá
Quando eu montei no comboio
Que assoprava pela linha
Às vezes penso comigo e digo
Não sei que sorte é a minha
Quando cheguei ao Barreiro
No barco que atravessa o Tejo
Chora por mim que eu choro por ti
Já deixei o Alentejo
Nota:
1 - Esta moda parece-me ter sido feita na zona de Odemira. Não tenho a certeza.

Estação da Funcheira
Corais Alentejanos

Da paixão chegou a necessidade de saber mais sobre o cante. As primeiras tentativas foram muito desanimadoras. Não tínhamos ideia nenhuma do que iríamos encontrar. De Encontro em Encontro foi sendo recolhida a informação para o livro Corais Alentejanos, editado em 1997. Não é uma obra completa, nem exaustiva, mas que marca profundamente o pensar sobre o cante, isso marca. Fica-se finalmente a saber quem somos! É uma obra para consulta com informação de grande utilidade.

Dizia o Prof. Manuel Joaquim Delgado1: “Ai dos académicos se não fossem os curiosos”. Pode ser que a partir daqui haja mais humildade e se criem os laços oportunos para a justaposição do Nosso Cante!
1- Grande estudioso “curioso”. Autor de Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo.

Foram inventariados 104 grupos:
61 em Beja: 45 masculinos; dois mistos; seis femininos; sete infantis; um instrumental.
12 em Évora: nove masculinos; um misto; dois instrumentais.
6 em Setúbal: três masculinos; um feminino; dois instrumentais.
25 na diáspora (Lisboa/Setúbal): 22 masculinos; três instrumentais.
O lançamento do livro foi feito na Biblioteca Bento de Jesus Caraça, na Moita em Outubro de 1997, durante a iniciativa “Viver Alentejo”.
De todo o material recolhido para este trabalho: cassetes audio, discos de vinil e Cd's com canções tradicionais alentejanas e com registos e entrevistas; documentação e livros, estão depositados na Biblioteca Municipal da Moita, Polo da Baixa da Banheira, onde será digitalizado e divulgado, podendo assim ser consultado por qualquer interessado.
Grupos Corais existentes em 1997 na Diáspora (Lisboa/Setúbal) 1
in: Corais Alentejanos2
Almada: * Grupo Coral "Amigos do Alentejo" - Clube Recreativo do Feijó
Amadora: * Grupo Coral Alentejano da Soc. Fil. Recreio Artístico da Amadora
* Grupo Coral Alentejano da Brandôa
* Grupo Coral "Os Alentejanos da Damaia"
Barreiro: * Grupo Coral Alentejano "Os Amigos do Barreiro"
* Grupo Coral Alentejano "Unidos do Lavradio"
Cascais: * Grupo Coral "Estrelas do Guadiana"
As. Cultural e Recreativa dos Alentejanos Residentes em Tires
* Grupo Coral Alentejano do Bairro Além das Vinhas
Clube Desportivo e Recreativo "Os Vinhais"
Loures: * Grupo Coral da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos
* Grupo Coral e Instrumental "Ecos do Alentejo"
Moita: * Grupo Coral União Alentejana da Baixa da Banheira
Soc. Recreativa e Cultural União Alentejana da Baixa da Banheira
Oeiras: * Grupo Coral Alentejano da Acad. Recreativa de Linda-a-Velha
* Grupo Coral Instrumental "Norte Sul"
Palmela: * Grupo Coral "Ausentes do Alentejo"
Seixal: * Grupo Coral Alentejano dos Serviços Sociais das Autarquias do Concelho de Seixal
* Grupo Coral "Eco do Alentejo" - Casa do Povo de Corroios
* Grupo Coral Alentejano "Lírio Roxo" - Soc. Musical 5 de Outubro
* Grupo Coral "Operário Alentejano"
Centro Cultural e Desportivo das Paivas
* Grupo Coral e Musical Diversos do Alentejo de Pinhal dos Frades
Centro de Solidariedade Social de Pinhal dos Frades
Sesimbra: * Grupo Coral "Voz do Alentejo" da Quinta do Conde
Setubal: * Grupo Coral os "Os Unidos do Alentejo"
Coop. de Hab. e Const. Ec. Bem-Vinda Liberdade, CRL - Faralhão
* Grupo Coral do Clube de Futebol "Os Sadinos"
Sintra: * Grupo Coral Alentejano "Os Populares do Cacém"
* Grupo Coral da AFAPS "As Andorinhas"
Vila Franca de Xira: * Grupo Coral "Unidos do Baixo Alentejo"
Notas:
1 - Antes de 1996/97 já tinham ficado pelo caminho os Grupos da Abrunheira; Venda Nova; Cerromaior; Camarate e Carnaxide. Entretanto dos inventariados em 1997 acabaram os grupos do Bairro Além das Vinhas; As Andorinhas; Os Sadinos; Os Unidos do Alentejo; Ac. de Linda-a-Velha; e Ecos do Alentejo. Mesmo assim e depois de 1997 foram criados os Grupos: Cantadeiras da Alma Alentejana; 1º. de Maio do Bairro Alentejano; e Amigos do Independente de Setúbal.
2- Consultar no sítio da Internet: Canto do Cante in www.joraga.net

Congresso do Cante Alentejano

Realizado em Beja em Novembro de 1997, este congresso organizado pela Casa do Alentejo, ocorreu numa altura terrível e penosa para o Povo alentejano. Mas realizou-se! Como prova disso e para que conste, foi feito um livro que se chama: Que modas? Que modos? - 1º. Congresso do Cante – Actas -, editado pela Faialentejo, em 2005. Foi lançado na ilha do Pico e em Évora.
RESUMO DAS CONCLUSÕES:
Podemos sintetizar em seis pontos as grandes conclusões deste Congresso:
1. O incentivo à investigação da génese, ainda desconhecida, em certa medida, do cante alentejano, havendo quem sustente a sua origem gregoriana, eclesiástica ou cristã e quem advogue a sua origem arábica ou islâmica.
2. O desenvolvimento de esforços no sentido da constituição de um organismo que seja depositário da memória da idiossincrasia do cante alentejano - um arquivo audiovisual do Alentejo. Neste deverão figurar as gravações sonoras (comerciais ou de campo); os registos visuais dos grupos de cante entoando as melodias, narrando estórias da vida, etc.; os livros e diverso material iconográfico; os trajes; os objectos de artesanato, de trabalho, mineiro, rural, etc.; a colaboração com as Universidades ou outras escolas, onde leccionem especialistas do cante, poderá e deverá existir. Poderá este arquivo estar incluído num futuro Instituto Alentejano da Cultura e Desenvolvimento.
3. A inserção da teoria e da prática do cante alentejano nos programas escolares, havendo quem sustente essa incorporação nas escolas de ensino público e quem defenda a criação de escolas de cante independentes do poder do Estado.1
4. A preservação da etnomusicologia alentejana como um todo (o cante, o despique, o baldão a viola campaniça), nesta matéria as opiniões dividem-se, os mais fixistas sustentam que os espectáculos de cante se devem realizar com o traje a rigor tradicional; outros evolucionistas advogam que o cante deve manter a sua genuinidade musical, mas as letras das canções e os trajes podem evoluir e ser adaptados a este final do século XX e a inclusão no cante da voz feminina.2
5. A vinculação das autarquias em todos os concelhos alentejanos, na defesa e propagação do cante. As câmaras municipais deverão dar apoio logístico (transporte, sedes para grupos corais, imprensa, etc.) e financeiro aos grupos e escolas de cante, sem que estas caiam no domínio da política partidária.
6. A formação de uma federação de folclore alentejana - a Federação de Grupos Corais Alentejanos que poderá ser a força motriz da formação do arquivo audiovisual do cante alentejano e dos próximos Congressos do cante alentejano.3

Beja, 9 de Novembro de 1997
Notas:
1 - Está a ser posta em prática nos concelho de Almodôvar, Castro Verde e Vidigueira.
2 - A prática assumida nos concelhos de Almodôvar, Odemira e Castro Verde leva-nos a crer que o futuro da viola campaniça e do cante ao baldão está assegurado. O cante no feminino tem ganho posições em todo o Alentejo com a criação de muitos grupos só com vozes femininas.
3 - A Associação A Moda é o resultado desta conclusão.


Senhor Alentejo



“Ao Vitor Paquete
Da verticalidade do “sonho” ao horizonte das realidades, Vitor Paquete sempre acreditou nas Razões do seu Povo, na sua História e na sua Cultura.
Por elas lutou uma vida inteira, sofrido, esperançado.
(...)
Hoje, memória constante das Coisas, lembro-me de vivências, de acontecimentos, de estórias felizes, cativantes, dramáticas ou irónicas, em que a personalidade do Paquete contagiava pela erudição, pelo empenho exaustivo, da sua grande alma Alentejana.
Hoje, compadre dos quatro costados, (...)”

António Galvão
Pintor de arte
Lembrando Vitor Paquete

Hoje, que nos chegam recados de alma alentejana
Hoje, que nos viram do avesso as modas
Hoje, que se levou ao cante a fórmula da sobrevivência
Será oportuno malhar na eira dos justos
E crer que é possível amedrontar o silêncio
Dos que se instituem no poder inocente
E procurar no Povo do Teu Alentejo
A justiça de te fazer valer

(...) de um camponês do Baixo-Alentejo (...):
«Ajudem-me que eu não posso
Cantar a moda sozinho
A moda está muito alta
E o meu cantar é baixinho.»

in: Jornal de Notícias, Suplemento Literário, pág. 5, de 4 de Agosto de 1957.
Tratado do Cante
(Uma pequena entrevista, como introdução justificativa, para este imenso e meritório trabalho a que JFP decidiu abalançar-se... e já leva mais de uma dezena de anos...)

“Gostava de lhe fazer umas perguntas:
- Qual a sua profissão?
- Porque se dedica ao estudo do cante?
- Quanto ao Congresso do Cante, como se processou a sua organização e de que modo foi o Sr. o comissário?
(...)
Cumprimentos,
J Moniz”

...
Caro amigo,
Sobretudo sou alentejano, amante da sua Pátria e dos seus valores. Nasci em Montoito filho de um pastor e de uma mondadeira, com boas vozes e paixão pelo cante que mo incutiram. A profissão pouco conta para isto.
Motivos vários me fazem correr atrás do cante: a paixão, o eterno sabor, o mais que evidente Alentejo (terra forte e esmagadora). Tudo isto: porque não posso, nem quero, contornar as minhas raízes. Então o melhor é respeitá-lo, amá-lo e praticá-lo. Procurarei sempre fazê-lo da melhor maneira que sei.
Daí até ao Congresso foi um passo. Feito o inventário dos Grupos existentes, que deu um livro: "Corais Alentejanos", logo o convite para comissariar o Congresso. Atenção que a Organização foi da Casa do Alentejo de Lisboa.
Estarei sempre ao dispor para as Boas causas e o Cante é uma Boa causa.
Bem Haja!
José Francisco

E foi aqui que ficou marcado o traço de união para este trabalho que esperamos ter pronto no final deste ano de 2010. Assim os poderes instituídos e sobretudo os elementos dos Grupos se motivem para que o resultado se torne num bom Tratado sobre o cante alentejano.
Não tem sido fácil o relacionamento com as instituições. Da parte da Direcção Regional da Cultura do Alentejo acabamos de receber uma informação: “de momento não podemos apoiar este trabalho”. Das autarquias tem aparecido algum interesse, mas muito comedido. Em contrapartida temos recebido todo o apoio e disponibilidade dos elementos dos Grupos Corais.
Para este trabalho preparámo-nos para recolher os elementos necessários que respondam e dêem significado a:
– O Ser Alentejano
– A Motivação Alentejana
– A Vestimenta
– As terras do Cante
– O Cante
– As Cantigas
– As Modas
– Os Ranchos/Grupos
– Os Mestres
– Os Cantadores
– Os Pontos/Solistas
– Os Altos (Falsete)
– O Coral
- Os Registos Fonográficos
– A História do Cante
– O Cante na actualidade
– O Futuro do Cante
- A Bibliografia

Para nós, o Ser, com nomes e tudo o que dê resposta à criatividade, faz toda a diferença. E é da diferença que nos valemos: diferença de Ser Povo e não mais que isso.
ALENTEJO, ALENTEJO

Ponto: Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo
A terra paga-me em vida
Eu pago à terra em morrendo
Alto: Eu pago à terra em morrendo
Coro: Eu sou devedor à terra
Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo
Alto: Alentejo, Alentejo
Coro: Terra sagrada do pão
Eu hei-de ir ao Alentejo
‘inda que seja no verão
Alto: Ver searas a loirar
Coro: Nessa imensa solidão
Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão
O Cante
Situação geográfica
É indiscutível que no Baixo Alentejo, na área geográfica que vai da Serra de Portel a Norte até ao início do Algarve a Sul, e da fronteira da Espanha a Leste até ao mar a Oeste, há uma forma de cantar em polifonia específica a que se chama cante.

Das origens
De onde vem este mavioso canto que nos toca no mais íntimo do ser? Que ondas magnéticas e que sentir misterioso e profundo fizeram chegar até nós e perdurar esta forma de cantar?
Nunca se saberá ao certo a origem do cante. Paulo Lima17 fez uma síntese das tendências conhecidas: origem autóctone, baseada em cantos litúrgicos pré-romanos; berbere, do tempo em que os árabes estiveram no sul; do cantochão. E ainda do Norte do país, de Entre Douro e Minho, trazido no tempo da Reconquista; ou restos de cantos eslavos ou de ópera italiana do século XVIII. Interessante a hipótese, tal como se sabe do canto polifónico da Córsega, de ter sido trazido por franciscanos mendicantes que o utilizariam para difundir o cristianismo no Sul. Assim sendo, o cante do Baixo Alentejo todo ele teria tido origem no canto religioso, o que não choca mesmo nada, na medida em que há um considerável número de canções sobre a natureza, de acordo com o modelo franciscano, baseado no homem de Assis que tratava por irmãos tanto o sol como o lobo. E agora interrogo-me eu, toda a música não terá origem na religiosidade? Religiosidade, entenda-se, no seu sentido etimológico de ligação ou religação. Quando alguém canta não é para ser ouvido por outrem? A música não nos une e eleva a todos?

Das mutações
Perdendo-se a origem do cante, não restam dúvidas de que houve ao longo dos tempos factores que o forjaram, limando-o, introduzindo-lhe algumas alterações, de acordo com as mudanças da comunidade que o praticou e que o fizeram chegar aos nossos dias da forma como o ouvimos. Aponta-se como uma das hipóteses as influências de frades residentes em conventos do Alentejo como o da Serra de Ossa e o de Serpa. Deviam ser frades conhecedores de música e que poderão ter tido um papel importante na fixação do cante. Na verdade, surpreende a quantidade de cânticos religiosos ainda hoje vivos na tradição alentejana. Exemplo disso são os espectáculos de Cânticos ao Menino pela altura do Natal e pelos Reis. Outras influências são conhecidas como a origem da postura actual dos grupos de braços dados numa mesma cadência que data da década de trinta do século passado.
As transformações socioculturais provocadas pelas alterações socio-económicas fruto da saída de soldados para os Açores durante a Segunda Guerra Mundial, para a guerra colonial na década de sessenta e das migrações para as zonas de Lisboa e Setúbal (avalia-se em 30% os que para estas zonas saíram entre 1950 e 1970) e mesmo para o estrangeiro, e ainda as modificações que o 25 de Abril de 1974 veio introduzir, também são marcos a ter em conta.
Verifica-se atualmente uma tendência de aligeirar a moda nos grupos de cante que se formaram na zona industrial de Lisboa e Setúbal e as canções alentejanas que se cantam por todo o lado são cantadas em ritmos mais rápidos. A poética, se bem que continue com os grandes temas tradicionais (a natureza: árvores, flores, rios e ribeiras, por vezes como metáforas do amor, da solidão, do sofrimento... nomes de terras e pessoas...), adquiriu novos temas como hinos dos grupos e cantares às terras de adopção.

Da paixão
Não há dúvida nenhuma que a maioria das pessoas que cantam nos Grupos Corais alentejanos são verdadeiramente apaixonadas pelo Cante e isso é difícil explicar por palavras. O Cante é a sua cultura, está-lhes no sangue e, principalmente quem vivenciou o cante como forma natural fazendo parte do trabalho, hoje sente vontade de lhe dar continuidade e isso agora só ou quase só em espectáculo e gravação.
O que terá levado já este ano a Liga dos Amigos da Mina de S. Domingos a gravar em quatro Cd's cerca de 200 canções? Desejo de continuidade e paixão?!...
E não serão as paixões a guiar o mundo?

Mer e Al-Zéi
2010, Maio














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