sábado, dezembro 30, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

“Confissões sobre a música


Homero sobre o cantor:

Todos os mortais sobre a Terra tratam os cantores
Com atenção e consideração. Até a Musa
Lhes ensina altas canções e os protege.
Porque, qual é aquele a quem até o estrangeiro,
Cujo povo não o conhecendo nem à sua arte,
Acolhe com honra? É o cantor, o profeta
Esclarecido, que nos encanta com os seus hinos.
Este é o convidado sempre bem recebido
Por todos os homens em todas as nações do Mundo.
(…)”


In: NÓS E A MÚSICA de Friedrich Herzfeld.-Tradução, prefácio e notas do Prof. Luiz de Freitas Branco. Edição Livros do Brasil. S/D. de 272 págs. Colecção Vida e Cultura. Pág. 261

domingo, dezembro 10, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

Noite de Natal

“Os três soldados entraram de roldão, gritando. A rapariga pulos na cadeira. Estava quase a cair de sono. Tinha os olhos fechados e a cabeça pendia-lhe sobre a criança adormecida, enrolada no xaile esburacado. De sumida, a luz do candeeiro a petróleo deixava a noite afogar a taberna, quando eles entraram e foram cambaleando, esbarrar contra o balcão.
(…)
- Que maneira de entrar, raios os partam!
(…)
Ao soerguer o busto franzino, a rapariga sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
Acorda. Maria, acorda,
Acorda, Mariazinha…
- Cantavam dois soldados que se haviam afastado do balcão.
(…)
- Hoje é noite de festa, não te zangues. A gente tem andado para aí a beber e a cantar, caramba!...
(…)
Agarrando-se ao rebordo do balcão, o soldado afastou o tronco. De súbito, com o olhar vago, como se todos os pensamentos o tivessem levado para muito longe, cantou vagarosamente:
         Quem sáão os três cavaleiros
         Que fazem sombra no mar?
(…)
Lá fora ouviam-se ranchos que passavam cantando. Eram as loas ao Deus Menino, na noite de Natal. O povo cantava pelas vielas, pelas ruas, pelos largos. Depois, calava-se, à espera da esmola, sob o céu frio, onde as estrelas tremiam, distantes. Os grupos de soldados conheciam-se mesmo sem os ver, bastava ouvi-los. Cantavam coisas diferentes. Esqueciam o Deus Menino e a sua voz falava de saudade da família. Nesse momento, uma toada entrava na taberna, chorava de queixa em qualquer rua, vinha crescendo, unida:
Oh, Beja, terrível Beja,
Terra da minha desgraça…
Em volta da mesa, os soldados emudeceram. A mão do Luís Palmito, que levava o copo à boca, parou, desceu, bateu no tampo negro.
Eram três horas da tarde,
Quando cá assentei praça…
Luís Palmito ergueu-se:
- Camaradas!...
Olhou para os dois soldados. Mas estes tinham as cabeças tombadas, só se lhes via o boné.
(…)
A custo, a rapariga ia fechando a porta. A canção vinha por vielas e esquinas dos lados das Portas de Moura. Vinha como um pranto, a loa ao Deus Menino:
O Menino está de neve,
A chorar e a tremer…
A porta da taberna fechou-se de todo, ouvia-se a tranca de ferro roçar pela madeira.
(…)”



In: “O fogo e as cinzas”, de Manuel da Fonseca. Capa de Armando Alves. Editorial Caminho (9ª. edição). 1981. “Noite de Natal”. Pág.s: 65/78.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

Cantigas de louvor ao pão no forno

Deus te acrescente
Dentro do forno,
Fora do forno,
Tu a crescer,
Nós a comer,
Assim Nosso Senhor pode fazer!”

Do Povo
I
PADRE NOSSO, Padre-nosso,
Filho da Virgem Maria,
Deus te salve, Padre-nosso,
Mais o pão de mcada dia.

II
C anta, canta, minha boca,
Meu braço, vá, ligeireza!
Quem no seu trabalho canta
É duas vezes que reza.

III
Dentro do forno, o pão scisma:
«Que bom calor, santo nome!»
Diz-lhe o lume: «Olha se o guardas
P´ra aquecer os que têm fome.»

IV
O trigo nasceu da terra,
Deu-lhe o sol a criação,
Foi a chuva ao baptizado,
Oh! Que santa geração!

V
Ó pão da terra sagrada,
Tanto acrescentes que sobres
Pra dar a quem bate à porta,
Pra repartir com os pobres!

(Monforte de Além-Tejo – 911)



In:  “O livro do silêncio: seguido dos Poemas do coração e da terra”,  de João de Lebre e Lima. Editado por A. M. Teixeira - Liv. Clássica 1913. 154 p.s 22 cm. Pag.s 121/122.

João Maria da Silva Lebre e Lima  (Porto1889 —México1959), mais conhecido por João de Lebre e Lima, foi um poeta e publicista ligado ao modernismo português, colaborador de diversos periódicos. Utilizou o pseudónimo João do Rio. Licenciado em direito e diplomata, dedicou-se à literatura, sendo um dos editores e fundadores do periódico Dionysos : revista mensal de philosophia, sciencia e arte.

segunda-feira, novembro 27, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO:



"Minha mãe amassa o nada
De tanta hora vazia –
Come a gente, perturbada,
Pão nosso de cada dia."

de António Simões.

terça-feira, novembro 21, 2017

TRATADO DO CANTE - Modas e cantigas

O MEU MONTINHO



Quando o homem esta sozinho
No seu monte
Bem no meio da natureza
Escutando a agua a correr na fonte
É dono de uma riqueza

Ai que saudades que eu tenho
De outrora
Quando a vida me obrigou
A deixar o meu montinho a ir embora
O meu coração chorou

REFRÃO:
Já não ouço os passarinhos
Já não me sento á lareira
Já não bebo os meus copinhos
Já não vou domingo a feira
Só não perco o meu cantar
Porque ta dentro de mim
Não me o conseguem tirar
O meu montinho é que sim


Apaguei o candeeiro
Fechei a porta
Disse adeus ao cão pastor
Pus a manta ao ombro e fui pela estrada torta
Procurar vida melhor

Já corri o mundo inteiro
A trabalhar
Para ganhar o m eu pão
Esqueço sempre quando mudo de lugar
Só meu montinho é que não.

sábado, novembro 18, 2017

TRATADO DO CANTE - I Congresso do Cante:

Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE



- Boa tarde! Quero saudar a mesa. Quero saudar o Secretariado deste Congresso, especialmente ao Zé Pereira por este trabalho que ele tem desenvolvido até hoje e espero que ele o consiga acabar em bem. Vai-me ser muito difícil explanar aquilo que eu penso sobre o cante alentejano e o tema que está aí proposto “Modas e Modos” porque parece que se tem falado aqui de tanta coisa que eu já não sei o que hei-de dizer. Modas e Modos se calhar não se falou aqui, não? E queria, o nosso amigo Joaquim Soares, agora quando estivemos a comer cantámos ali aquelas duas modas, cantámos bem, uma maravilha! Então por que é que não cantamos as outras? Porque não queremos ou porque não podemos? Porque não podemos porque cada terra com seu uso, cada terra com seu fuso e aí é que está o problema, o grande problema do cante alentejano é esse. Telefonaram-me na quinta-feira e nem queria tão pouco vir aqui ao Congresso só queria vir amanhã, não tenho vida de facto vida para isso nem saúde. Mas como a pessoa que me fez o telefonema tenho grande estima e admiração, resolvi vir e resolvi fazer aqui um apanhado de algumas memórias que me vieram à memória. E então pus-me aqui a relembrar modas e cheguei à conclusão que apanhei o total de 86 salvo erro, que podem ser cantadas por qualquer grupo, em todo o lado. Até 86 peçam lá o número de uma moda! - Catorze! - “Linda jovem era pastora”. Quer que comece? Pronto. Por é que se fazem desfiles, já foi hoje aqui focado isto, e aparecem três e quatro e cinco e seis grupos a cantar o mesmo estilo, a diferença é só talvez na letra e às vezes nem na letra? “Modas e Modos”! Eu estou no grupo coral “Os Amigos do Barreiro” há vinte e dois anos. Ao fim de um ano de lá estar, por ironia do destino, vá lá, passei a ser o mestre, o chefe do grupo. Passei por muita coisa. Mas orgulho-me de ter passado por elas porque já tinha vindo de uma escola desde os onze anos e de maneira que essa escola continuou no grupo coral “Os Amigos do Barreiro”. Mas há coisas que nos marcam. E neste caso do cante alentejano o primeiro concurso, e não se falou disto aqui hoje, não se falou dos concursos de cante alentejano, parece que toda a gente tem medo de falar disso. O primeiro concurso de cantares alentejanos que se realizaram aqui em Beja em 1986, o grupo coral “Os Amigos do Barreiro” foi convidado pela entidade organizadora que foi a Associação do Património de Beja, é assim que se diz. Mandaram-nos todos os documentos como mandaram para todos os grupos, a ficha de inscrição, tudo. Respondemos, mandámos a ficha de inscrição, tudo. E quando chegámos cá para fazermos parte do concurso, estávamos em último lugar e extraconcurso. E qual foi o motivo por que estávamos extra concurso? Porque não éramos considerados alentejanos. Está aqui gente na sala que sabe disto. Como é que isto pode ser? O caso foi posto, batemos o pé, o caso foi posto, e nós fizemos parte do concurso. No ano de 1987 fomos convidados pela mesma organização, o segundo concurso depois do 25 de Abril, que fomos convidados extra concurso. Não viemos porque entendemos que o Alentejo não é só o Distrito de Beja. E os alentejanos que estão fora do Alentejo também têm o direito de cantar. E a prove disso é que naquilo que se chamou a zona industrial de Lisboa e Setúbal que hoje se chama pomposamente a área metropolitana de Lisboa, não é por acaso que teve lá 32 ou 33 grupos. Hoje em dia ainda existem 25 ou 26 não sei bem quantos são, e contribuíram muito para que aqui nesta terra e nestes arredores os grupos sobrevivessem e tivessem mais força. Isto é verdade, tem que aceitar isto como uma verdade. Mas como disse, em 1987 fomos convidados extra concurso e não viemos, dissemos não, o Alentejo não se cingia só ao Distrito de Beja, antes pelo contrário, ao norte também se cantava que é o caso que o Capitão Frasco há bocado aqui focou. Em Reguengos de Monsaraz também há um grupo coral alentejano. Também é Alentejo ou então fazemos o mesmo da rádio Renascença quando diz o boletim meteorológico, “no Porto está tantos graus, chove em Coimbra não sei quantos, depois passa para Évora ou para Faro” o Alentejo que é uma terça parte de Portugal não faz parte desta história. Esses gajos ainda a gente admite, agora os alentejanos...
- Fomos convidados em igualdade de circunstâncias em 1989 (?) por causa desta história que apareceu o Delegado do Grupo Coral “Os Mineiros de Aljustrel” a levantar esse problema que nós não éramos alentejanos, não sei se, o Dr. José Francisco é capaz de se lembrar disto, ficámos atrás dos “Carapinhas”, ficámos em vigésimo quinto lugar e se não cair nenhuma nódoa no nosso fato por causa disso, continuámos. Depois passou a haver os concursos em Castro Verde, fomos a Castro Verde, a gente não lhe interessa, ficarmos em primeiro, em segundo, em terceiro, em quarto, em quinto, a gente quer é cantar. Eu não sou religioso mas se for preciso vou cantar à igreja, já tenho ido, cantamos, vamos cantar lá ao Barreiro, ao Barreiro, não é? Até já cantámos na Igreja do Rosário “o Passarinho”. Portanto, “Modas e Modos”. Há no cante alentejano, ou querem fazer, o rio Guadiana dividir o cante. Canta-se de uma maneira na margem direita e canta-se de outra maneira na margem esquerda. Para mim, canta-se na margem esquerda aquilo que as pessoas da margem esquerda querem cantar e canta-se na margem direita aquilo que as pessoas da margem direita querem cantar. Porque as pessoas da margem esquerda cantam também aquilo que se canta na margem direita se quiserem e as pessoas da margem esquerda cantam também aquilo que se canta na margem direita. Pronto e vice-versa. Isto já foi demonstrado por mim e pelo grupo coral (desculpem lá) Isto já foi demonstrado por mim numa destas palestras que se fizeram aliás. Não é difícil cantar-se, qualquer grupo aqui da margem esquerda ou da margem direita cantar como se canta na margem direita ou na margem esquerdas. Não é difícil. A gente no Barreiro, portanto, o Barreiro não tem tradição de cante alentejano senão os alentejanos que lá vivem, tanto no Barreiro como noutras áreas como no Lavradio, como na Baixa da Banheira, e canta-se aquilo que se canta na margem esquerda ou na margem direita. Pode haver uma diferença na música porque não foi bem entendida ou não foi ouvida ou, nestes grupos principalmente na área de Lisboa, acontece que há sempre um elemento que ou é do concelho de Serpa ou é do concelho de Mértola ou é do concelho de Moura, do concelho de Cuba, ou do concelho da Vidigueira. Portanto, determinada moda que é cantada num sítio desses, essa pessoa dá sempre uma achega, portanto essa moda é cantada assim, e a gente cantamos, cantamos, cantamos o “lírio roxo” como se canta mais ou menos aqui na margem esquerda e que é muito bem cantado, embora o final que aparece no “lírio roxo” para mim me diga (ou modifica?) pouco, “chiro-biro-biro para t’amar meu bem” não sei onde é que vão buscar essa frase “chiro-biro-biro”, pronto, mas cantam, não interessa, cantam, mas o “chiro-biro-biro” é que me parece que sai fora da letra daquela história, pode não sair da história do “meu lírio roxo”, não é, pronto. Cantamos “Alentejo, Alentejo”, cantamos como se canta na margem esquerda que é o ponto cantar a cantiga os dois primeiros versos e depois o grupo entrar a cantar o resto da cantiga e depois entrar-se na moda. Cantamos o “Fui dispor a salsa verde”, talvez não cantemos exactamente como se canta na margem direita porque a pessoa que nessa altura tínhamos no grupo que era dessa área de Serpa talvez não fosse capaz de nos indicar precisamente os pontos em que a música se decifrava, cantamos, por exemplo, “a ribeira do Enxoé”, o Cachola até um dia ficou admirado aqui em Beja de a gente vir a cantar aquela moda, “a ribeira do Enxoé” que é na margem esquerda, enfim, o Barreiro não tem modas, a gente temos de jogar as mãos às modas que há por aqui nesta área. Agora vamos tocar outro tema. Ah! Mas eu ainda queria dizer outra coisa. Por exemplo, na região de Almodôvar, canta-se muito uma moda que eles até dizem que foi feita lá, que é de lá, o Galo. É uma moda bonita. Simplesmente, nós temos outra maneira de entrar na moda. Era uma maneira que eu escolhi, que eu gostei, para cantar esta moda, a gente tem de cantar assim, pronto. Não sei se estará bem se estará mal mas está à minha maneira e como eu é que sou o mestre do grupo sou eu que dou os bons dias. “A Mariana Campaniça” cantamos “A Mariana Campaniça” também, uma moda muito bonita que o Dr. José Francisco em Castro Verde se canta especialmente as violas campaniças, gostamos muito de cantar “A Mariana Campaniça” e assim sucessivamente, cantamos aquilo que podemos, não cantamos aquilo que queremos, cantamos aquilo que podemos que é diferente. Cantamos aquilo que podemos. “Ao romper da bela aurora”, quantas versões há do “ao romper da bela aurora”? “Ao romper da bela aurora”, aquela versão mais tradicional é: “ao romper da “ isto é a versão original, mas depois disso (canta) “ao romper da bela aurora”, e a outra versão (canta) “ao romper da bela aurora” , “eu ouvi um passarinho” também é “ao romper da bela aurora”. Ainda há outra versão do “ao romper da bela aurora” (canta) “ao romper da bela aurora”, também essa, “sai o pastor da choupana”, “sai a pomba do pombal”. Há uma porção de versões. Porque é que os grupos corais se hão-de repetir ou hão-de cantar coisas que não têm determinado interesse? Agora e para ser breve vou focar aquilo que eu penso do musical. No tempo dos tais bailaricos, dos bailes de acordéon, chamava-se ao acordéon a música a metros, porque geralmente as pessoas que apareciam a tocar nesses bailes tinham pouco ouvido ou sabiam pouca música. Sabiam tocar pouco e então lá acertavam o compasso e aquilo a gente chamava “música a metro”. Daí talvez venha o desconforto, se ouvir um grupo ou um grupo musical a tocar e não interpretar devidamente aquilo que é a moda alentejana que eles estão a executar. Mas eu penso que isso talvez parta de um princípio, do ensaio. Se um grupo musical ensaiar primeiro a moda, não fugir do seu ritmo, a parte musical depois vai entrar dentro desse ritmo, não deve fugir dele. Vai buscar o tom que eles estão a cantar, se for isso, se for assim parece-me que está a interpretar fielmente aquilo que será o cante alentejano, as modas alentejanas, porque a música faz parte, a gente estamos aqui a falar, a música é a arte dos sons, a eu a falar estou a dar música a vocês. Não será? O que é que acontece? Tudo aquilo que é falado, cantado, pode ser musicado. O que hé é poucas pessoas que sejam capazes de transportar fielmente para o papel, portanto, para a música, o cante alentejano nas suas várias versões. Isso é que é capaz de ser o grande obstáculo porque qualquer das modas que se canta, sei lá, então os homens fizeram as modas, fizeram também tanta peça, tanta ópera, tanta coisa dessas, então não eram capazes de transportar o cante alentejano para a música? Talvez que interpretam não sejam capazes. Isso é outra coisa. Agora que o cante alentejano, na minha opinião, musicado, deve existir e deve ser conservado, não deve ser adulterado, que é outra coisa. Não deve ser adulterado. Eu tenho pena de não estar aqui o Dr. Francisco Torrão, ele teve aqui na primeira parte, eu não quis intervir, e como ele não está aqui eu acabo aqui a minha intervenção, porque eu queria fazer-lhe umas perguntas, mas como ele não está aqui, não merece a pena eu falar porque a pessoa não está presente e então não merece a pena.

Muito obrigado pela atenção que me dispensaram.

José Coelho

sexta-feira, novembro 17, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

A AÇORDA, de João Falcato


O Alentejano, com bossa de aventureiro e navegador, senhor de pisada firme capaz de abarcar o mundo, prendado com olhar aberto que não teme os longos horizontes, não sai da sua terra. Se ela é generosa para ele, vive feliz. Se ela se lhe mostra madrasta, curva a cabeça de filho sofredor. É que há entre ele e a sua terra qualquer coisa de sólido e também de aliciante. A terra sua mãe, estendendo-lhe generosamente o pão com que miga as suas sopas, as ervas com que as perfuma e o azeite com que as aloira, escraviza-o no excesso do seu amor por ela. Cada sopa diária de açorda é gota de mítica beberragem que prende o homem cada vez mais ao seu solo.
Ó loira, olorosa, reconfortante Açorda! Quem te soubera cantar!


(de Elucidário do Alentejo)