sexta-feira, novembro 17, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

A AÇORDA, de João Falcato


O Alentejano, com bossa de aventureiro e navegador, senhor de pisada firme capaz de abarcar o mundo, prendado com olhar aberto que não teme os longos horizontes, não sai da sua terra. Se ela é generosa para ele, vive feliz. Se ela se lhe mostra madrasta, curva a cabeça de filho sofredor. É que há entre ele e a sua terra qualquer coisa de sólido e também de aliciante. A terra sua mãe, estendendo-lhe generosamente o pão com que miga as suas sopas, as ervas com que as perfuma e o azeite com que as aloira, escraviza-o no excesso do seu amor por ela. Cada sopa diária de açorda é gota de mítica beberragem que prende o homem cada vez mais ao seu solo.
Ó loira, olorosa, reconfortante Açorda! Quem te soubera cantar!


(de Elucidário do Alentejo)

quarta-feira, novembro 15, 2017

TRATADO DO CANTE - I Congresso do Cante Alentejano:

CONCLUSÕES DO I CONGRESSO DO CANTE ALENTEJANO


   

SESSÃO DE ABERTURA:

Na abertura dos trabalhos falou o Presidente da Assembleia Geral da Casa do Alentejo, Prof. José Chitas, que se congratulou com o evento, apresentou as boas vindas a todos os congressistas e falando na tragédia que assolou o Alentejo pediu um minuto de silêncio em memória das vítimas.

Falou a seguir o Comissário para o Congresso, fazendo uma pequena resenha do caminho trilhado até aqui, do que falta percorrer, terminando por fazer votos de que os trabalhos decorram o melhor possível, no sentido de se achar o melhor caminho para a continuidade e dignificação do Cante Alentejano.

Sob o tema:  ... QUE MODAS ? ... QUE MODOS?

O I Congresso do Cante Alentejano estruturou-se em quatro painéis, ou direcções de estudo e debate. No primeiro dia (8 de Novembro) foram abordados os três temas seguintes:

                   Painel A                    Raízes e Estudo do Cante Alentejano
                  
                   Painel B                    Situação Actual do Cante Alentejano

                   Painel C                    Perspectivas Futuras do Cante Alentejano

No segundo dia (9 de Novembro) foi desenvolvido o último tema, subdividido:

                   Painel D                   Valorização do Cante Alentejano
                                                         Ensino e Etnografia
                                                         Formas de Divulgação

O Dr. José Simão Miranda do Secretariado colocou como objectivo do Congresso, a determinação na genuinidade da origem do Cante Alentejano, através de um intercâmbio de ideias e experiências enriquecedoras.

O Sr. José Roque do Secretariado definiu como objectivo de longo prazo a preservação do Cante Alentejano, reconhecendo que as modas, da zona da grande Lisboa, já não levam, por vezes o timbre genuíno do Cante. O novo Congresso do Cante poderia ter lugar dentro de dois anos.

O painel A comportou cinco comunicações, de oradores, sem contar as intervenções que nasceram do debate com o público.

A Drª. Salwa Castelo Branco, Presidente do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, defendeu a necessidade de criar um arquivo audiovisual Distrital ou Regional do Alentejo que recolha, inventarie e salvaguarde toda a produção fonográfica existente no mercado e todas as gravações de campo do cante e de outras tradições alentejanas. Complementarmente deverá ser recolhida e inventariada a documentação escrita e iconográfica que acompanha as gravações sonoras. Acentuou a necessidade de falar extensamente com os protagonistas do cante e de registar as suas memórias num arquivo aberto ao público. Apontou alguns projectos de investigação que importa desenvolver, nomeadamente:

                   1. O historial da transplantação do cante para a Cintura Industrial de                         Lisboa/Setúbal e efeitos dessa mudança na preservação do cante.

                   2. O papel do cante na vida das comunidades, quer do Alentejo quer em                    Lisboa/Setúbal.

                   3. A relação entre o cante e outras práticas musicais do Alentejo.

                   4. Histórias de vida: A existência e a obra dos poetas, compositores,                           dinamizadores e membros dos grupos corais de cante.

                   5. Relação entre o cante e a organização social e política do Alentejo.

O Dr. Henriques Pinheiro, na sua comunicação destacou, como o melhor trabalho sobre o cante Alentejano o livro "Momentos Vocais do Baixo Alentejo", publicado em 1986, em Portugal de João Ranita da Nazaré. Defendeu como hipótese mais plausível, da origem do Cante Alentejano, não o Cante Gregoriano, como sustentava o Padre António Marvão, mas o cante Árabe. O Cante Alentejano próximo de uma vivência panteísta seria preexistente à instalação cristã nesta região. A sua intervenção decorre de três grandes vertentes: Introdução, poesia e música.

Julián del Valle, na sua comunicação defendeu a criação de uma escola, sobre a música coral alentejana, à semelhança de uma que foi criada no Chile em 1970 com disciplinas englobando: Psicologia; Antropologia e outras, que no Chile esteve sob o impulso do músico Vitor Jara. Salientou a importância das Autarquias Alentejanas patrocinarem ou impulsionarem essas escolas. Fez uma simbiose entre a música, o coral, as letras, as regiões e a importância de factores estranhos, como seja o comboio.

O Porta-voz da Associação Alma Alentejana, Dr. Eduardo Raposo, na sua comunicação, sustentou que a essência da canção popular portuguesa é rústica e campesina e não urbana. Subscreveu a tese de Lopes Graça, segundo a qual o Povo Alentejano é o mais musical das gentes portuguesas. Considerou que os Corais polifónicos do Baixo Alentejo terão sido oriundos do Cante eclesiástico. Perfilhou a tese da divisão do cante em três grandes grupos. O Cante Tradicional subdividido em cante rural, cante ribeirinho, cante arraiano, cante mineiro, cante do trabalho (este último desprovido de instrumentos musicais). Salientou a vertente da intervenção social do cante alentejano como forma de resistência ao poder e às injustiças, como expressão do carácter digno e altivo do Alentejo.

O painel B comportou cinco comunicações de oradores e diversas intervenções do público no debate.

O Padre António Cartageno referiu na sua comunicação que em 1978 foi editada pela Comissão Diocesana de Liturgia e Musica Sacra de Beja, uma cassete com as primeiras recolhas da música popular religiosa do Baixo Alentejo interpretada pelo Coro do Carmo de Beja. O Alentejo possui um verdadeiro canto popular alentejano, cujo reportório foi agrupado em três temas religiosos, a saber:

                   1. Cânticos de Missa,
                   2. Cânticos de datas tradicionais (Natal, Quaresma, Santos Populares, etc.)
                   3. Cânticos Diversos (para pedir chuva, por exemplo).
Fez notar ainda que a região de Mértola é a mais rica neste tipo de cânticos.         

O Dr. Francisco Torrão fez uma breve historial da transmissão do Cante Alentejano no século XX. A aparição dos primeiros grupos organizados nos anos vinte apoiados pela aparição da rádio e depois da indústria discográfica dos anos trinta. As Casas do Povo do Estado Novo corporativo com grupos de cante. A Casa do Alentejo com um papel insubstituível. A FNAT com a colaboração do Prof. Armando Leça e do coreógrafo Tomás Ribas. Os Etnomusicólogos: Rodney Gallop; Lopes Graça; Michel Giacometti; Padre António Marvão; João Ranita da Nazaré; Salwa Castelo Branco; a Igreja Católica e na Diocese de Beja o Padre António Cartageno e o Cónego António Aparício. Sustentou que nos anos cinquenta o cante alentejano afirmou-se a nível Nacional e Internacional, para o que contribuiu o aparecimento da TV em 1957. O cante alentejano terá vindo a perder autenticidade nos anos sessenta devido a vários factores: divisões na população com as eleições presidenciais de 1958; êxodo dos jovens com a guerra colonial; migrações para Lisboa; aparecimento do nacional cançonetismo; etc. Defendeu que o cante, majestoso e belo não pode ser conectado politicamente. Propôs a constituição da Federação do Folclore do Alentejo, acabando por afirmar que era preciso tirar o cante da pré-história e colocá-lo na história.

O Dr. Domingos Morais do Instituto de Investigação Científica, fez uma reflexão sobre a actualidade do cante qualificando-o, falando no gesto musical, intrinsecamente ligado à colocação da voz. Salientou a importância de tempo dos espaços de voz. Referiu a situação actual do cante alentejano, suas vantagens e desvantagens e preconizou a inclusão de temáticas regionais do cante nos novos currículos escolares a par de cursos de formação de professores. Advogou a necessidade de uma renovação sustentada para que o cante não se reduza a uma vitrine.

O porta voz do Grupo Coral, Alentejano "Os Amigos do Alentejo" do Feijó, Sr. Alho, analisou globalmente os Grupos Corais de Cante na Cintura da Grande Lisboa. Considerou que a quantidade de grupos é boa mas a qualidade é sofrível, nomeadamente devido a aspectos de má apresentação: indivíduos mal equipados, mal posicionados em palco, sobretudo na primeira fila; modas deturpadas desenraizadas do Alentejo; desfiles organizados sem condições; falta de apoio financeiro e logístico das autarquias.

O porta voz do Grupo Cantares de Évora, Sr. Joaquim Soares, na sua comunicação diagnosticou algumas adaptações forçadas: plágios mal conseguidos de modas alentejanas; interpretações corais de forma desgarrada e sem interiorização. Salientou a necessidade dos Grupos Corais utilizarem o valioso cancioneiro, recolher modas junto das populações mais idosas e criar escola pelo trabalho coordenado.

O Painel C comportou seis comunicações de oradores e diversas intervenções no debate.

O Dr. António Lacerda deixou alguns recados e algumas ideias afirmando que há um espólio valiosíssimo de cante que ainda está na gaveta sem ser dado a conhecer. Preconizou a valorização da cultura rural, incluindo o leccionar o cante nas escolas, o que poderia ser feito na área escolar curricular. A escola pode ser um reactivador da cultura tradicional, tendo como parceiros os animadores associativos e municipais. Compara o cante com o mundo rural dizendo que existe um porque existe o outro, pairando sobre ambos ameaças iguais. Recordou que já Manuel da Fonseca dizia que a nossa cultura está nos cemitérios; recorda a existência de um espólio sobre a matéria de Armando Leça, algures "preso" na RDP e outro de Michel Giacometti, engavetado... Faz um apelo para que todos partilhem e afirmem esta cultura: o cante alentejano ser cantado em grupo dá uma característica etnomusical peculiar. Destacou a importância das Federações como agentes de promoção de intercâmbios entre grupos alentejanos e outros, no sentido de um maior entrelaçamento.

O Dr. Marcos Olímpio referiu que a crescente urbanização fazendo com que no ano 2000, mais de metade da população viva nas cidades, sedes de concelho no Alentejo, fará muitas crianças ignorar a vida no campo e o cante alentejano conexo a esta. A globalização cultural ataca a cultura local, mas o cante deverá permanecer, dado ser diferente e dada a necessidade de comunidades de alentejanos em Lisboa, Faro, Marinha Grande ou no estrangeiro tem de preservar a sua identidade.

O Dr. José Simão Miranda declarou que em 1974 havia 18 Grupos de Cantadores Alentejanos, sendo 14 no distrito de Beja; 3 no distrito de Évora e 1 em Lisboa. Hoje existem 107: sendo 7 dos quais femininos e 5 infantis; 63 em Beja, 13 em Évora, 6 em Setúbal e 25 na zona da Grande Lisboa; isto mobiliza 2.466 elementos; a média de idade é elevada: Beja 56 anos; Évora 50.

O porta voz da Associação de Cante Alentejano "Os Ganhões, Sr. Francisco Caipirra sustentou que o contexto motivador do cante alentejano era o "trabalho agrícola" no Alentejo, sócio economicamente diferente do de hoje. O cante tem que ser dinâmico, falar dos tempos que corre para permanecer vivo. Preconizou a criação de um organismo que apoie os grupos corais, não apenas na preservação do cante mas também do despique, do baldão e da viola campaniça. Debateu a questão de os trajes serem ou não a rigor, duas posições contrárias se manifestaram: uma preconizando a ligação indissociável entre o cante e o traje a rigor; outra dissociando os dois factores para captar os jovens. Foi ainda contestado o conceito de alentejano, a diversidade do cante enriquece-o ou desvirtua-o?

O porta voz do Grupo Coral Alentejano "Os Amigos do Barreiro" Sr. José Coelho, na sua comunicação questionou os limites geográficos do conceito alentejano, referindo que em 1986 o seu grupo foi secundarizado, num concurso de cante alentejano, por estar sediado no Barreiro. Debateram-se ainda deficiências de organização nos desfiles dos grupos corais, como por exemplo a repetição das mesmas modas por vários grupos e indagou-se qual a região do Alentejo que tem o cante mais puro.

O Painel D na vertente do ensino e etnografia, comportou seis comunicações de oradores, além das intervenções do público no debate.
                  
O Professor José Rabaça Gaspar na sua comunicação preconizou a criação de um Instituto Alentejano de Cultura e Desenvolvimento, função que caberia prioritariamente à Direcção da Revista Arquivo de Beja e ao seu Concelho Editorial. Defendeu que se houvesse uma norma padrão de língua Portuguesa, seria o Alentejo que editaria a norma, tanto na língua como na música. Defendeu que no cante os poetas populares não são menores. Terminou afirmando querer contribuir para todas as formas de Instituição da Cultura Alentejana.

O Dr. José Orta, na sua comunicação defendeu um projecto inter-disciplinar de estudo e desenvolvimento do cante alentejano dividido em três vertentes ou secções:
1.      Sócio-antropológico
Ao nível da etnologia estudará as estruturas e funções especiais do cante, no quadro da cultura e da sociedade regionais.

2.      Etnomusicológico                
Fará o levantamento do cante actual e da sua evolução ao longo da história e procurará implantá-lo        em ensino pré-escolar e básico.

3.      Poética                                 
Visará a caracterização linguística e poética por tema, reflectindo-se no ensino a aprendizagem do Português nas escolas.
Falou no projecto de Beja sobre o cante, coordenado pela Direcção da Revista Arquivo de Beja, com vários professores Universitários, lendo a propósito um pequeno texto. Terminou por falar na fuga para a frente, nos aspectos regionais, cultura incluída.

A Drª. Maria José Barriga, na sua comunicação salientou a quase total ausência de documentação existente, até hoje, sobre o cante ao baldão, específico da serra do Baixo Alentejo, acompanhado por violas campaniças, falando sobre as origens, locais, tradições e situação actual.

O porta voz do Grupo Coral, Alentejano, "Os Unidos do Lavradio", Prof. Carlos Botelho, criticou a automatização dos grupos corais, desligados uns dos outros e defendeu a criação de uma organização abrangente que os enquadre a todos. Advogou que os grupos corais não devem ser instrumentalizados, mas sim apoiados pelos municípios.

O Dr. José Francisco Colaço Guerreiro, representante da Cortiçol, na sua comunicação teorizou a necessidade de iniciar um movimento de opinião que conduza à classificação do Cante como Património do Alentejo e um movimento de afirmação junto das Autarquias para que estas, então, reconheçam os grupos corais como parceiros culturais privilegiados. Decorre daqui a necessidade de surgir uma Federação do Cante Alentejano, ainda que este não seja o momento ideal para a constituir. É preciso um grande sentimento de organização, daí o seu lema "Organizar para fortalecer".

O Cónego António Aparício na sua comunicação, pôs em relevo o autor popular da cantiga alentejana referindo ter conhecido um compositor analfabeto que em primeiro idealizava as músicas e depois pensava nos versos. Salientou que o cante alentejano de expressão religiosa deixa de ser de um grupo restrito e contagia a Assembleia visto que tem o dom de agregar harmoniosamente todas as pessoas. Completou a sua intervenção falando de cantes religiosos do Alentejo, em complemento da intervenção do padre António Cartageno.

O Painel D na vertente das Formas de Divulgação, comportou  cinco comunicações de oradores, além das intervenções do público no debate.

A Drª. Alda Goes, na sua comunicação, afirmou a vocação da Fonoteca Municipal da Câmara de Lisboa para a promoção e divulgação da música nas suas várias expressões. Referiu o trabalho do Grupo Coral de Tires traduzido em inúmeras actuações públicas, como forma de difusão do cante e cultura alentejana. Fez um breve historial do estudo e divulgação da música tradicional portuguesa de 1822 a 1920; de 1920 a 1974 e 1974 até hoje, citando bibliografia, artigos de jornais e revistas, gravações musicais e CDs. Criticou a grande lacuna dos "Mass média" de âmbito Nacional de difusão da cultura popular, local, em particular do cante. Explicitou os diversos métodos de divulgação do cante, dando preponderância à gravação audiovisual da música. Referiu, ainda, as instituições vocacionadas com o canal de difusão do cante.

O representante da Casa do Alentejo, Sr. José Pereira Júnior, na sua comunicação salientou o papel desta Instituição, na promoção mediática, cultural e financeira deste Congresso. Acentuou que as rádios, os jornais e a televisão, muitas vezes condicionados pelo poder político ou social em pouco ou nada servem à difusão da cultura tradicional e do cante alentejano.

Rui Bebiano, na sua comunicação sustentou que a criação de um organismo digital de música, letras, imagens e texto consultável vinte e quatro horas por dia, em qualquer ponto do Globo, na Internet, pode proporcionar um salto qualitativo, em frente, na divulgação do cante e da cultura alentejana, em geral.

O representante do Grupo Coral e Etnográfico "Os Rurais" de Figueira de Cavaleiros, Sr. Luis Franganito, na sua comunicação salientou o papel importante do Padre José Alcobia, no empenhamento e interesse manifestado ao longo de toda a sua vida bem como na divulgação e valorização do cante alentejano.

Artur Mendonça, na sua comunicação salientou a importância que tem a encenação e valorização com a vertente do som e da luminotecnia no cante.



RESUMO DAS CONCLUSÕES:

Podemos sintetizar em seis pontos as grandes conclusões deste Congresso:

1. O incentivo à investigação da génese, ainda desconhecida, em certa medida, do cante alentejano, havendo quem sustente a sua origem gregoriana, eclesiástica ou cristã e quem advogue a sua origem arábica ou islâmica.

2. O desenvolvimento de esforços no sentido da constituição de um organismo que seja depositário da memória da idiossincrasia do cante alentejano - um arquivo audiovisual do Alentejo. Neste deverão figurar as gravações sonoras (comerciais ou de campo); os registos visuais dos grupos de cante entoando as melodias, narrando estórias da vida, etc.; os livros e diverso material iconográfico; os trajes; os objectos de artesanato, de trabalho, mineiro, rural, etc.; a colaboração com as Universidades ou outras escolas, onde leccionem especialistas do cante, poderá e deverá existir. Poderá este arquivo estar incluído num futuro Instituto Alentejano da Cultura e Desenvolvi-mento.

3. A inserção da teoria e da prática do cante alentejano nos programas escolares, havendo quem sustente essa incorporação nas escolas de ensino público e quem defenda a criação de escolas de cante independentes do poder do Estado.

4. A preservação da etnomusicologia alentejana como um todo (o cante, o despique, o baldão a viola campaniça), nesta matéria as opiniões dividem-se, os mais fixistas sustentam que os espectáculos de cante se devem realizar com o traje a rigor tradicional; outros evolucionistas advogam que o cante deve manter a sua genuinidade musical, mas as letras das canções e os trajes podem evoluir e ser adaptados a este final do século XX e a inclusão no cante da voz feminina.

5. A vinculação das autarquias em todos os concelhos alentejanos, na defesa e propagação do cante. As câmaras municipais deverão dar apoio logístico (transporte, sedes para grupos corais, imprensa, etc.) e financeiro aos grupos e escolas de cante, sem que estas caiam no domínio da política partidária.

6. A formação de uma federação de folclore alentejana - a Federação de Grupos Corais Alentejanos que poderá ser a força motriz da formação do arquivo audiovisual do cante alentejano e dos próximos Congressos do cante alentejano.


Beja, 9 de Novembro de 1997

quinta-feira, novembro 09, 2017

TRATADO DO CANTE - Modas:

CEIFEIRA LINDA CEIFEIRA – (moda alentejana)


Cantiga:
O Sol,
O sol é que alegra o dia.
Pela manhã,
Pela manhã quando nasce.
Ai de nós,
Ai de nós o que seria
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse

Moda:
Ceifeira!
Ceifeira, linda ceifeira!
Eu hei-de,
Eu hei-de casar contigo!
Lá nos cam ...
Lá nos campos, secos campos
Lá nos campos, secos campos,
À calma
À calma a ceifar o trigo,
Pela fo ...
Pela força do calor!
Ceifeira!
Ceifeira, linda ceifeira
Ceifeira, linda ceifeira,
Hás-de ser o meu amor!

Cantiga:
Não é,
Não é a ceifa que mata,
Nem os ca ...
Nem os calores do “V’rão”!
É a é ...
É a erva unha-gata,
É a erva unha-gata,
Mais o cardo beija-mão!



Moda:
Ceifeira!
Ceifeira, ó linda ceifeira
Eu hei-de casar contigo

sábado, novembro 04, 2017

TRATADO DO CANTE - almanaque:


“A chuva a cair em barros abrasados como os meus, faz bem. Dá sorte à terra e tira-nos um pouco de fadiga na mente.
(…)
Lembrem-se que, a sonhar, uma pessoa resiste à fome de liberdade, goza a sua vida, e a minha valentia é esta: não tremer quando cai uma pinga de chuva no meu chão de raiz. Nem de raios e coriscos. Uma aventura sem nomeada, embora, mas tão apaixonante e feliz, tal como uma criatura abrir os olhos na manhã e ficar a ver o Sol pendurado nas abas duma barragem nova. É tão belo!”
(da nota introdutória)

“(…)
Após bebermos uns tintos de Colos, um néctar, cantámos modas da nossa terra:
Ó minha pombinha branca
Onde queres, amor, que eu vá?
É de noite, faz escuro,
Eu sozinho não vou lá!

O Direitinho não cantava mal. Fechava os olhos como os fadistas, tinha uma voz de baixo, um tudo nada arrastante, mas de bom volume. O Vilhena berrava como um anojo com falta de leite, desafinando conjunto, mas já o Chico tinha trinados de rouxinol, de peito ovante, parecia que se estava a preparar para fazer uma pega… a um chibo!

Nesta altura apareceu um moço de olhos azuis muito abertos, a rir. Baba ao canto da boca. Dava a impressão de um débil mental. E era, segundo o Loução. Punha-se sério e compenetrado quando acompanhava, e muito bem, os parceiros nas modas:
Mal não uses, mal não cuides,
Não de apresses na subida:
Nós somos os alcatruzes
Da grande nora da vida!

Que ideia: alcatruzes, nora, cuides, para cuidar de algo, vocábulos sonoros na expressão dos alentejanos, palavras bastantes para se compreender um pequeno mundo de costumes às cavalitas do sonho…
(…)” (Pág. 65)


In: “Uma Pinga de Chuva”, de Antunes da Silva. Edição de Círculo dos Leitores, 1983.

sexta-feira, novembro 03, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

É rica, tem nome fino


Mote:
É rica, tem nome fino
É pobre, tem nome grosso
É rica, teve um menino
É pobre, pariu um moço.

I
Não sabes quem é aquela
Quem além vem pé ante pé?
É a menina Cadé,
Vem da vivenda Quintela,
E a outra que vem com ela
É a Dália Tolentino,
Andam ensaiando um hino
A da Didi Serafim,
E a seguir é sempre assim,
É rica tem nome fino.

II
Não vês aquela sopeira?
É a Antónia Bucherca,
Vive à da Ana Macaca,
À da Zefa Cadeireira,
Foi lá que o António Lameira
Lhe deitou a mão ao troço,
Houve até um alvoroço,
A Brites veio ao postigo,
O mote diz como eu digo,
É pobre tem nome grosso.

III
Aquelas pelos salões
Trajando à última moda,
Ouvindo da alta roda
Desusados palavrões,
Todas têm emoções,
Todas vão ao seu destino,
Um galã, um dançarino,
E ei-las na maternidade
E depois, com suavidade,
É rica, teve um menino.

IV
As outras pelos passeios,
Nas ruas e nos mercados,
Têm com os namorados
Inflamados paleios,
Um pequeno toque nos seios,
Mais dois dedinhos no troço,
Um toque, um pequeno esboço
E ei-las de barriga inchada
E a seguir, dia a gajada,
É pobre, pariu uim moço.


 In: “As Deixas”, de Manuel António de Castro (pesquisa e comentários de Cristóvão Enguiça. Recolha de familiares e população de Cuba). Capa e ilustração de António Carrilho. Edição da Câmara Municipal de Cuba. 1987. Pág.s: 27/28.

quarta-feira, outubro 18, 2017

TRATADO DO CANTE - Provas de Cante:

DA PLANÍCIE À ILHA
O Cante também é nosso
Faial, 13 a 16 de Outubro de 2017
Relatório/ Conclusões:

Foi uma boa jornada de divulgação do cante.
Foi notória a forma prazenteira como os elementos do grupo se comportaram.
Em todas as atuações o público reagiu com satisfação e agrado.
Foi deixada a melhor impressão para que o cante possa fazer parte nos próximos espetáculos e festas nos Açores.

Foi bonito de ver e de estar.

Agradecimentos:
A todos os que apoiaram esta iniciativa: Biblioteca Pública e Arquivo Regional da Horta, Casa do Povo do Capelo, Governo Regional dos Açores, Restaurante Genuíno, Junta de Freguesia do Capelo, RDP e RTP Açores, Câmara Municipal da Moita.
A todos os que participaram nesta iniciativa: ao Grupo “Vozes do Cante”, Luís São Bento, Tomás Melo, Márcia Dutra, Charlotte Stuart, Francisco Feio e aos que estiveram presentes nos espetáculos, a assistir e a cantar.

O grupo "Vozes do Cante", em Porto Pim, Horta, Faial, Açores

Bem hajam!
 Os Amigos do Varadouro:
MER e JFP

(FaiAlentejo)

segunda-feira, outubro 09, 2017

TRATADO DO CANTE - Provas de cante:

DA PLANÍCIE À ILHA
O Cante também é nosso

Programa


2017 10 13

15:00 – Visita à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores
- Cante de duas modas para o pessoal da Assembleia (Quando Abalei para os Açores e outra)

Auditório da Biblioteca e Arquivo Regional da Horta “João José da Graça”
21:00 – Apresentação do Documentário “Histórias do Cante”

21:45 – Atuação do Grupo “Vozes do Cante”

2017 10 14

14:30 – Visita guiada no Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos
- Cante de duas modas para o pessoal do Centro

Casa do Povo do Capelo
16:30 – Atuação do Grupo “Vozes do Cante”
17:15 – Prova de produtos do Alentejo
No final – Entrega de prendas

20:00 – Jantar e atuação no Restaurante Genuíno.



2017 10 15

10:00 – Visita à freguesia do Capelo

16:00 – Visita à cidade da Horta.

20:00 – Jantar e atuação no Restaurante Genuíno.


2017 10 16

11:00 – Visita à Câmara Municipal da Horta
- Cante de duas modas para o pessoal da Assembleia (Quando Abalei para os Açores e outra)

Org.:
FaiAlentejo

Apoios:

Biblioteca e Arquivo Regional da Horta “João José da Graça, Câmara Municipal da Moita, Câmara Municipal da Horta, Governo Regional dos Açores, Junta de Freguesia do Capelo, Casa do Povo do Capelo, Genuíno Restaurante. …