sábado, agosto 17, 2019

04 044 TRATADO DO CANTE - à minha Moda:

TENHO LÁ NO MEU QUINTAL

Ponto:
A rosa depois de seca
Foi-se a queixar ao jardim
O jardineiro lhe disse
O jardineiro lhe disse
Tudo o que nasce tem fim


Alto:
Tenho lá no meu quintal
Coro:
Uma roseira enxertada
Dá rosas tantas e tantas
E também dá rosas brancas
E dá outras encarnadas

Alto:
E dá rosas amarelas
Coro:
Que são rosas de primeira
Como não vi outra igual
Tenho lá no meu quintal
Aquela linda roseira

Ponto:
Ó rosa nunca consintas
Que o cravo te ponha a mão
Uma rosa enxovalhada
Uma rosa enxovalhada
Já não tem aceitação



Alto:
Tenho lá no meu quintal
Coro:
Uma roseira enxertada
Dá rosas tantas e tantas
E também dá rosas brancas
E dá outras encarnadas

Alto:
E dá rosas amarelas
Coro:
Que são rosas de primeira
Como não vi outra igual
Tenho lá no meu quintal
Aquela linda roseira

Refª: 044

quinta-feira, julho 25, 2019

005 01 TRATADO DO CANTE - O Cante por Missão:

A Alma Alentejana em Festa 


Era o 6º Festival de Grupos Corais em Grândola. 

GCE "COOP" de Grândola em desfile em Odemira em 1997

Pelas quinze horas viam-se magotes de cantadores e cantadeiras vagabundeando pelo jardim de sombra e sol, aromatizado de Primavera. Nos rostos escorria a ternura que lhes dava doçura e calma. Eram rostos muito variados em feições: uns bem escuros e tisnados pelo sol, outros bem claros e preservados de intempéries. Deviam concentrar-se os coros em frente a um café que ladeava o jardim onde se encontravam também alguns elementos para temperarem a voz com o célebre licor de poejo. 

 Não fora o traje que se sobrepunha a cada corpo, numa gradação de cores do preto ao branco, diríamos que estávamos a visualizar a Descoberta do Mel de Piero di Cosimo (1462-1521), em que deuses paganizados se passeiam pela idílica paisagem. Mas aqui os faunos não estão a tentar chamar o enxame das abelhas, pois o mel irá ser lançado ao ar, saído do interior de cada um/a que, com os/as companheiros/as, unidos/as por essa força do inconsciente colectivo que os/as torna conscientes do valor que guardam, deste modo o transmitem. 

 Um pouco mais tarde do que o previsto, para não contrariar a tradição portuguesa, inicia-se o desfile. Passo de marcha dolente, todos para a direita, todos para a esquerda, começa o ponto, depois o alto, depois o coro. O efeito é de estarrecer! Salvaguardadas as devidas distâncias para que ninguém agredisse ninguém, a rua encheu-se de cante, um cante triste, doce e profundo cheio de brilho subindo ao céu como foguetes de lágrimas, deslumbrando com a subida e voltando de novo a terra. 

Depois na Praça Zeca Afonso, cada grupo mostrou o seu melhor. 

Não nos compete fazer juízos de valor. É claro que gostámos mais duns do que de outros, como é normal, já que cada um tem o seu gosto. Só não resistimos a tentação de destacar “O almocreve”, uma das modas a que chamamos de “pesada” por nos parecer muito difícil de cantar, pelas bem timbradas vozes femininas de Aljustrel. 

Além do cante, houve poesia, houve sobretudo amor, a que a serenidade do tempo trouxe também o seu aconchego. 

A seguir, o convívio continuou num sítio onde havia comida para todos, lembrando o bodo do Espírito Santo, a tal tradição que a rainha Santa Isabel e o rei Dom Dinis fundaram. À boa comida, canja de galinha, e frango com ervilhas, acrescentou-se-lhe o cante como sobremesa. Nenhum grupo se foi embora sem soltar a garganta, e alguns deles até cantaram em conjunto. A nosso pedido, o grupo de Ourique ousou, apesar do nítido cansaço, já que tinham feito duas actuações no mesmo dia, a moda: “Fui-te ver estavas lavando”. Não há palavras que exprimam o caudal do sentimento! Apenas a certeza de que o cante é sagrado, que os deuses na verdade resolveram fazer a sua morada no interior dos alentejanos.

Apetece fazer um apelo, alterando um pouco a quadra que o Zeca Afonso cantava:

Camaradas lá do Norte 
Venham ao sul passear: 
O cante soa mui forte 
Para a todos arrastar. 

A festa continuou animada por um conjunto instrumental que até serviu para despoletar um baile espontâneo à volta das mesas. 

No fim, olhámos mais uma vez os rostos dos que ainda ficaram na sala, alguns tendo por missão limpar as mesas e arrumar a cozinha. De novo sentimos a ternura e uma alegria interior que já não devem existir em muito lado no mundo. E pensámos: não será isto uma verdadeira revolução, fruto da maturidade e consciência de um tesouro que cada um guarda dentro de si? 

Fotografia de pintura de Fátima Madruga
Maria Eduarda Rosa 
1998 

sexta-feira, julho 19, 2019

TRATADO DO CANTE - Registos sonoros:

Fora d’oras” (CD).


- Ano de edição: 2012;

- Edição: GC Fora d’oras;

- Produção: GC Fora d’oras;

- Temas: 1. Não quero que vás à monda; 2. Minha terra é linda; 3. Tenho no quintal um limoeiro; 4. Trago o Alentejo na voz; 5. Além do rancho grande; 6. Barragem dos minutos; 7. Fui à lenha; 8. Vila de Frades; 9. Meus senhores; 10. Ché, ó que linda ché; 11. Ó Amieira, Amieira; 12. O meu montinho; 13. Se fores ao Alentejo; 14. Ó linda.

Grupo Coral Fora d’oras - Montemor-o-Novo

Cota FaiAlentejo: FF CA CD 0148

quinta-feira, julho 18, 2019

TRATADO DO CANTE - Registos sonoros:

Sons do Restolho”. (CD) S/D :




- Edição: GC Fora d’oras;

- Produção: GC Fora d’oras;

- Temas: 1. Gota d’água; 2. Que inveja tens tu das rosas; 3. O Verão; 4. Vai colher a silva; 5. Vizinha tem lá lume; 6. Hino ao Alentejo; 7. Chorai olhos, chorai olhos; 8. Senhora cegonha; 9. Açorda d’alho; 10. Senhora d’Aires; 11. Ceifeirinha alentejana; 12. Maria da Rocha; 13. Roseira enxertada; 14. Hino dos Mineiros d’Aljustrel.


Grupo Coral Fora d’oras - Montemor-o-Novo.

Cota FaiAlentejo: FF CA CD 0147.

quarta-feira, julho 17, 2019

04 001 TRATADO DO CANTE – À minha moda

"Modas" (Canções regionais alentejanas):



""Tal como procedemos para as cantigas (Quadras populares), deixamos registada na base de cada "moda" a localidade ou localidades onde foi recolhida e, portanto, se conhece e canta. Do facto de certa "moda" levar apenas um registo, não se deve inferir que só aí seja conhecida. Não, as mais delas são comuns a outras localidades e regiões do Baixo Alentejo onde igualmente são conhecidas, embora com ligeiras variantes na letra (versos) e no próprio estilo, isto é, na música que as constituem.

A verdadeira origem ou procedência de muitas delas nem sempre é fácil saber-se, posto que, se há "modas" restritas a certas localidades, só aí sendo conhecidas, outras há, porém, que, tendo maior área de circulação, se conhecem em todo o Alentejo, onde vão sofrendo as suas variações.

Criada a "moda", quero dizer, depois que surge, logo se espalha e divulga numa área de cada vez mais larga, dada a facilidade com que o homem se desloca de uma para outras localidades, de uma para outras regiões.

As "modas" registadas nesta colecção de mais de três centenas, creio-as alentejanas e do Baixo Alentejo. Há, todavia, nas "modas" certas e determinadas características que nos levam a afirmar peremptoriamente da sua verdadeira origem alentejana. Convém esclarecer, pois, aos menos entendidos, nesta matéria a que é que nós chamamos "modas" alentejanas e quais as suas características.

A razão desta denominação baseia-se no facto de passar a ser cantado por toda a gente, como uma coisa nova, isto é, como moda, qualquer cantar que apareça no folclore da região. É, portanto, a esse novo cantar que, andando tanto em voga, e passando a ser moda, chamamos "moda". Rapidamente o Povo dele se apropria (e tanto mais quando lhe agrada), espalhando-o e divulgando-o de boca em boca numa área de cada vez mais vasta.

Os cantadores chamam letras ou requebres (requebros) à inflexão da voz, trinado, dos versos, e estilo à música que constituem a "moda" propriamente dita.

Esta é sempre uma composição poética de duas quadras de sentido encadeado e rima cruzada. Há-as, porém, de uma só quadra ou de várias. Há estilos sem letras ou requebres, mas não há "modas" sem estilos.

Os versos são geralmente de sete sílabas, redondilhas maiores. Também os há de cinco e de mais de sete. Apresentam a rima seguinte: abcd-deca-deac ou ainda defg. Quero dizer, o 1º. verso da 2ª. quadra é sempre o 4º. da 1ª.; os outros variam..

Quase todas as "modas" têm aquilo a que se chama estribilho (exclamação, palavra ou palavras, verso ou versos), que se repetem no fim de certos versos das "modas". Estas cantam-se na maioria das vezes acompanhadas de cantigas (quadras populares soltas) que se alternam, isto é, "moda", quadra, "moda", quadra ( ou vice-versa).

Era quase sempre pelo Carnaval e São João que as "modas" novas apareciam. Hoje a rádio, levada à mais humilde aldeia ou lugarejo, tem de algum modo apagado certos usos tradicionais dos "cantes" alentejanos que insensivelmente, vão perdendo muito do seu natural e típico sabor, alterando-se e substituindo-se por inexpressivas e, porventura, duvidosas canções. Nem por isso creio, terão a rádio e os modernos "jazzes" força bastante para obliterar por completo muitos de nossos patriarcais costumes e usos que nossos maiores nos legaram por via de tradição. É que tão enraizados eles estão na alma do Povo, que não podem perder-se ou alterar-se senão por lenta evolução.

Em certas aldeias do próprio concelho de Beja: Salvada, Quintos, Baleizão e outras, por exemplo, o Povo preferia "balhar" e cantar uma noite inteira de viva voz e a plenos pulmões que servir-se da rádio ou de algum, moderno, "jazz", a que não acha graça nenhuma, naturalmente por estar fora de seus usos e de seu meio. Antes preferia uma gaita de beiços que outros quaisquer instrumentos músicos. E com que graça natural, tipicamente alentejana, os moços galanteadores das moças não "balhavam" de bordão ou cajado enfiado no braço, como sinal de respeito e defesa da sua própria pessoa, quando por meras futilidades, fanfarronices de gente moça, por questões de desconfiança com seu contrário (rival no namoro), surgia algum mal-entendido, ou porque ao pedir par aquele que "balhava" entusiasmado com a sua preferida, o seu derriço, ele se negava a dar-lho, ou porque queria "balhar" com ela à força, que não por jeito. Então é que eram elas... ou se batiam à cacetada mesmo no "balho" ou ficavam-se odiando.

As "modas" são variadas. Exprimem, quase sempre, pelo sentido que encerram, casos individuais ou gerais, questões amorosas.

Notas e comentários sugeridos e a explicação da parte técnica das "modas", isto é, da maneira como elas se compõem e se cantam, acompanham o trabalho de registo das letras. Nem por isso serão valores a desperdiçar. A letra (os versos) da "moda" refere-nos, como acima disse, casos amorosos, cenas particulares da vida, e retrata-nos, de certo modo, o panorama corográfico da Província e, o que é mais ainda, a fisionomia psicológica de suas gentes, isto é, os seus sentimentos, a sua maneira particular de sentir, de pensar e de agir - a sua alma.

Há "modas" que se cantam nos variados trabalhos do campo - sementeiras, apanho de azeitona, mondas, ceifas, debulhas, etc.... Há outras próprias dos "balhos" - "modas" de roda encadeada; outras se cantam em certas épocas festivas, etc. Há, ainda, as que só se cantam em coro, quero dizer, fora do "balho", no trabalho ou nos dias de folguedo e festança, dias santos de guarda e feriados nacionais.

Os encantadores e expressivos coros alentejanos têm "altos" e "baixos". No geral apenas um faz de "alto". Os outros cantam a uma voz.

Há um que começa a "moda" - é o "ponto" (solista). Também se denomina "ponto" ao verso ou versos cantados por esse que começa.

Não será fora de propósito dizer que, na verdade, são bem expressivos e encantadores os coros alentejanos.

O valor das "modas" alentejanas está em serem um canto misteriosamente afectivo, apaixonado, tendo algo de religioso e místico, como se desprende dos acordes e melodias.

A dolência e o vagaroso do canto vem-lhe do mundo ambiente - paisagem extensa, largos horizontes, influência climática, etc., em que vive o alentejano. Da liturgia recebeu a forma indefinida e simbólica, o que lhe dá carácter hierático. A tristeza e melancolia, de sentido vago que estes cantos traduzem e deixam transparecer, está na etnopsicologia do alentejano.

Na verdade, o canto alentejano é expressivamente belo e penetrando fundo na alma, cria- lhe suavidade e doçura.

Se em Cuba, na Vidigueira e em Ferreira do Alentejo são localidades onde bem se cantam as "modas" alentejanas, parece-nos, contudo, sem contestação possível, que é na margem esquerda do rio Guadiana, em Serpa, Aldeia Nova de São Bento e Amareleja onde melhor se canta no Baixo Alentejo.""

(...)""



in: "Subsídio para o Cancioneiro Popular do BAIXO ALENTEJO" (dois volumes). Comentário, recolha e notas do professor Manuel Joaquim Delgado. Edição de Álvaro Pinto (Revista de Portugal) – Lisboa.


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O Professor Manuel Joaquim Delgado

Autor de várias obras sobre o Baixo Alentejo.

A obra do Professor Manuel Joaquim Delgado é um imenso celeiro – uma almástica – inesgotável, que possibilita uma investigação interminável para muitas e imensas searas vocabulares.




terça-feira, julho 16, 2019

000b TRATADO DO CANTE


Dúvida

Eu corro atrás da memória
De certas coisas passadas
Como de um conto de fadas,
De uma velha, velha história...

Tão longe do que hoje sou
Que nem sei se quem recorda
Foi aquele que as passou,
Ou se apenas as sonhou
E agora, súbito, acorda.



in "Canções de Entre Céu e Terra", de Francisco Bugalho. Edições “Presença”. 1940.


segunda-feira, julho 15, 2019

000a TRATADO DO CANTE - Da alma alentejana:


A motivação para o cante é a que me vem de raiz: porque sou alentejana; porque gosto; porque já na terra cantava; quando vínhamos do trabalho, fazíamos paradinhas, em círculo, para cantar as modas e porque também ajuda a passar os problemas”.
Mavilde Nobre


Com a força gregária que a sua poderosa terra lhes incute, os alentejanos levam do berço a arte de cantar.

Não fosse a necessidade, nunca o alentejano sairia do seu torrão natal. A ausência dele, a lonjura do afastamento, arrasta estados depressivos, fruto de enormes interrogações sobre o sentido da vida dele distante.

Este estado saudoso, no entanto, é mitigado pelo cante. Em grupo, as vozes unem-se num cante melancólico que eleva o seu querido Alentejo ao mundo, afastando assim a solidão.

A existência de Grupos na zona da Grande Lisboa que conhecemos através do trabalho de investigação e recolha, feito em 1996/97 e que se encontra reproduzido no livro Corais Alentejanos, de José Francisco Pereira, editado em 1997, é o nosso cartão de apresentação para um trabalho mais aprofundado que estamos a desenvolver tendo em vista um Tratado sobre o Cante Alentejano. A nossa curiosidade leva-nos à procura de respostas cujas dúvidas se levantaram: Como se comportam os grupos nas terras de acolhimento? Qual a sua aceitação pela comunidade? Que gente é esta que ainda canta o seu Alentejo?

Do nosso querer bem e de acordo com a nossa sensibilidade prometemos um Tratado que fale das pessoas que cantam e das suas motivações. Queremos dar um trabalho que evidencie os Cantadores e as Modas com nomes e tudo o que seja marca de tão Grande Alentejo.

Estamos organizando material que temos recolhido mas também nos vamos atualizando com o que de novo se vai fazendo. Para dar mais força ao resultado do nosso querer estamos a entrevistar os elementos dos grupos, um trabalho árduo mas compensador pela força das respostas sentidas de alguns dos elementos. Os nossos interlocutores vão dando respostas, a princípio na expectativa, mas depois vai ganhando forma a paixão do Cante e a empatia vai assumindo a sua posição de dádiva e entrega à causa. Esta coisa do cante traz sempre uma grande entrega para quem o sente e vive e deixa sempre grandes responsabilidades àqueles que o querem tornar seu, do seu Alentejo, das suas vivências, do seu mal-andar, dos seus amores e desamores. É muito coração.

Que maravilhoso é ouvir homens e mulheres que na planície alentejana cantaram antes, durante e depois do árduo trabalho, junto com gente mais nova, já nascida longe do Alentejo!

Que pó mágico habita os seus genes para, com tanto entusiasmo, perpetuarem a memória do seu povo?!

É verdade que um Povo que canta não morre. Neste sentido, é de louvar o excelente trabalho que se vem fazendo nos concelhos do Alentejo , onde o ensino do Cante Alentejano foi incluído nos currículos escolares. Que esta experiência perdure e se alastre aos outros concelhos alentejanos.