sábado, maio 14, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“(…)
O Alentejano sabe pôr uma nota encantadora e eternecida de arte e beleza, que me parece inata na alma ingénua e simples do nosso povo.

E é essa mesma arte que nasce expontânea das fontes mais puras do sentimento popular, que dá um sopro de vida a essas canções do Baixo Alentejo, tão impregnadas de tristeza e harmonia, de austeridade e de grandêsa e que reflectindo muito embora a melancolia e magnitude das planícies do sul, vêm até nós coadas pelos véus dos séculos, das profundezas atávicas da raça.
(…)”


In: “Palestra sobre o Alentejo”, proferida na Casa do Alentejo em 21 de Dezembro de 1944, por José Custódio Nunes. Edição da Casa do Alentejo. 1944.Pág. 11.

sexta-feira, maio 13, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“A manhã vem vindo

António Luís tinha muito amor ao canto. Dentro do Baixo Alentejo foi o homem que melhor cantou, desde a moda difícil «Ribeira do Sol Posto» até à muito difícil «Deus-Menino». Mais nenhum. João Fitas, também da vila de Cuba, foi no seu tempo quem mais brilhou. Ele diz, algumas vezes, que o canto alentejano se vai perder. Tenho na minha que não tem razão.
Manuel de Castro, João Contrabandista, Chico Lapita, os Viegas, e tantos outros, sempre cantaram, em grupos, com nome prantado ou não, em todos os tempos, no Alentejo. Camponeses, trabalhadores rurais e mineiros daqui ninguém os arredou. Nos mastros de S. João, nas «vendas», no trabalho, na ida das mulheres, de madrugada para a apanha do chícharo e do grão, deram à mão-cheia, em poesia e música, nas modas, o conhecimento do Alentejo. Os mineiros de S. Domingos, desde as greves do tempo do Tio Valentim, passando pela ofensiva da política fascista em 1949-50, com a grande leva de prisões, no concelho de Mértola e em todo o Alentejo, nunca deixaram de cantar protestando contra o imperialismo. «Ó Mina de S. Domingos/ Cercada de Calitrais/ És mãe dos estrangeiros/ Madrasta dos nacionais». Os da mina de Aljustrel, rurais debaixo do chão, também responderam à tentativa contra-revolucionária do «28 de Setembro» com uma moda que cantaram por todo o país.
João Fitas, trabalhador da Reforma Agrária: «Enquanto houver um palmo de terra não saímos daqui». Pois é, João, andamos ao campo. E quem anda nele – pássaro, bicho ou homem – tem por força de cantar. Se não canta, rebenta. Dois ou três não vêm apagar a conversa de vinte ou trinta. Em democracia temos de ser concretos: é ou não é. Toma tento, João. Às vezes, andas arrasado de um todo e pensas na tua que te vão roubar as modas alentejanas. Não tas roubam como não te podem roubar a terra. Ela lá está no lugar, onde nascem essas modas. Podem, quanto muito, fazer-te passar fome, a ti e a toda a nossa gente. Mas o corpo resiste. É como o restolho do trigo debaixo do Sol. Atrás de uma subida vem sempre uma descida. Não nos podem prender. Quando o inimigo nos põe nessa situação, cantamos a moda (quem seria o maltês que a teve na ideia?): «Vamos lá saindo por esses campos fora…».
A manhã vem vindo, João. É Abril. Vem vindo, como na moda, dos lados da Aurora…”


In: “Crónicas de ver Alentejo", de João Honrado. Edição da Associação de Municípios do Distrito de Beja. 1992. Pág. 113.

quinta-feira, maio 12, 2016

TRATADO DO CANTE - Congresso do Cante Alentejano (1997):

Perguntas e respostas:

"(...)
Francisco Caipirra
Gostei muito da intervenção do Dr. Francisco Torrão, acho que continua a haver uma preocupação enorme em estarmos a justificar o passado, penso que temos uma ideia errada de preservar, penso que o Dr. se equivocou um pouco porque na ponta final disse preservar é cantar todos os dias. Eu folgo por me ter citado, porque realmente fui eu que disse que temos que tirar o cante da pré-história e colocá-lo na história, precisamente porque eu acho que preservar tem a ver com  o enquadrarmo-nos nos tempos que correm, cantarmos o Alentejo de hoje, com poesia actual, hoje o Alentejo já não é uma pátria agrícola já não há ceifeiras nem mondadeiras, como eu vou dizer daqui a pouco, as nossas mondadeiras, hoje, não têm as saias até aos tornozelos mas vestem-se com uma mini-saia atrevida.

Francisco Torrão
Só gostaria de dizer o seguinte: de facto essa afirmação foi do Francisco Caipirra, meu particular amigo, tem feito um trabalho indelével junto dos "Ganhões" de Castro Verde, admiro-o. Eu manifestei a minha opinião pessoal até porque quando proferiste aquela frase, que veio publicada na revista "Imenso Sul", eu li aquilo e registei-a. Não compreendi muito bem o que é que pretendiam, segundo creio iriam musicar, aliás iriam utilizar poemas do Alberto com as nossas modas tradicionais, com música tradicional.
...

Peço imensa desculpa mas não o entendi assim, daí a minha observação. Apareçam poemas novos, apareçam músicas novas, agora não estou de maneira nenhuma de acordo é que utilizemos a nossa música, as nossas modas tradicionais com poemas novos, independentemente de as ceifeiras irem de mini-saia, façam aquilo que quiserem. O Zeca Afonso fez uma coisa maravilhosa, foi a Grândola Vila Morena, fez um poema e fez uma música nova. Com isso estou plenamente de acordo até porque sou autor de duas modas que o Grupo Coral de Serpa interpreta. Estou de acordo com a renovação, mas cuidado, aquilo que é o tradicional temos que o preservar, é a minha opinião.
(...)"


In: "QUE MODAS? ... QUE MODOS? - ACTAS DO I CONGRESSO DO CANTE ALENTEJANO". BEJA, 1997. Edição FaiAlentejo. 2005.

quarta-feira, maio 11, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

ALENTEJANO

Igual às oliveiras resistes
aos sóis de inferno.
Caminhas sem vergonha
na tua terra.
É tão custoso 
acariciá-la com
brisas de esperança,
as mãos doridas
de tanto amor.

Alentejano,
a tua gota de suor
ensina-me a respirar.

Não é fácil erguer
um palácio de palavras
e sedes.

Não é fácil viver
de pé a cantar.

in: "O Sabor da Cal", de Luís Filipe Maçarico. Edição da Câmara Municipal de Beja. 1997. pág. 32.


Nota: o destaque é da minha responsabilidade.

terça-feira, maio 10, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

"SABORES E CANTARES

«Para mim, para sempre, ficam ligados os
cantares e os comeres alentejanos.»
Matilde Guimarães, 1944
.

DURANTE SÉCULOS, como o faz notar Monarca Pinheiro (1999), o alentejano viveu de «frustração sublimada em invenção. Com as migalhas que lhe couberam, soube inventar uma cultura de eleição, e esta é, talvez, a sua maior glória. Do pouco fez muito e bem». E entre esse muito e bem, nascido da alma deste povo, salienta-se a sua capacidade inventiva nos cozinhados, a que o autor se refere como «arte dos comeres», a par da «arte de musicar», internacionalmente reconhecida, em especial, através dos seus cantares.
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Parafraseando Mário Rodrigues Correia, Director do Centro de Formação Profissional do Sector Alimentar, na apresentação de “A Cultura Gastronómica em Portugal – Alentejo” (1995), a cozinha alentejana, como cozinha tradicional que é, afigura-se como uma «serenata de aromas e sabores do passado que se prolonga pelo presente e que, pretendemos nós, se perpetue no futuro». Nestas palavras alude-se, de forma poética, a um sentimento generalizado alusivo a uma certa associação que, em particular no Alentejo, se faz entre os sabores da sua cozinha e as vozes dos grupos corais, sentimento esse, já expresso também por Mathilde Guimarães (1944), ao afirmar: «Para mim, para sempre, ficam ligados os cantares e os comeres alentejanos».
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Não será exagerado dizer que todo aquele que teve o privilégio de ouvir os homens em coro e, sobretudo, se o tiver feito numa das muitas tabernas onde os cheiros da cozinha invadem a zona de convívio, não poderá deixar de fazer esta associação. Quem já comeu numa qualquer aldeia do Alentejo e, a dada altura, os homens se levantam e se abrem em coral nos seus cantares, únicos na museografia nacional e mundial, não pode deixar de ligar os sons e os sabores que ali persistem, como que a fazerem frente à mundialização cultural, há muito iniciada pelas televisões, bem antes da globalização económica de que agora tanto se fala..
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Sempre associei os aromas da comida dos alentejanos aos seus cantares. E isso resulta de uma vivência começada em criança, quando ia à taberna do Monginho buscar meio litro de vinagre e por lá me esquecia a ouvir os homens, à volta de uma grande mesa forrada de oleado, repleta de pratinhos com petiscos perfumados e de copos de vinho, uns cheios, uns meios, outros vazios. Foi numa destas idas ao Monginho que o «Meu lírio roxo» nunca mais se separou do grão cozido, a fumegar, temperado de azeite, vinagre e muita cebola, que os homens comiam à colher, para acompanhar sardinhas acabadas de fritar.
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Uma outra vez foi na tasca do Rabino, em Valverde, com os rurais que ali trabalhavam nas escavações da Anta Grande do Zambujeiro e no Cromeleque dos Almendres com o arqueólogo Henrique Pina. E nesta era o coelho frito, temperado, de véspera, com alho e pimentão, e as perninhas de rã, de tomatada, ao som do «Deitei o limão correndo...».
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O aroma e o sabor do toucinho assado, na brasa, com pão à navalha e copinhos de aguardente perfumada, saída ainda quente do alambique, na grande adega das Cortiçadas, em São Sebastião da Giesteira, nunca mais se separou do «Ao romper da aurora, sai o pastor da cabana...»
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Uns tempos mais tarde, ainda a «Grândola, Vila Morena», do Zeca Afonso, não tinha a conotação que passou a ter a partir “daquela Madrugada”, os seus belos acordes remataram uma monumental açorda de poejos com bacalhau e ovos cozidos, comida lá para as tantas, para “desenratar” de uma jornada de fartas comezainas e muitos copos, nas bodas de um parente.
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A última situação vivida deste casamento de sabores e cantares teve lugar em finais de 1998, na Pousada dos Lóios, em Évora, durante um almoço oferecido aos participantes do «1º Simpósio Internacional para a Paleobiologia dos Dinossáurios». Uma vintena de cientistas de nomeada, oriundos das cinco partes do mundo, saborearam as belíssimas entradas de paio, presunto e queijos locais e deliciaram-se com o magnífico ensopado de borrego, olhando e sorrindo para nós como que a dizer «que coisa boa!». Começavam eles a regalar-se com a encharcada, bem perfumada de canela, quando um grupo coral de homens e mulheres, envergando os seus trajes regionais, irrompeu lá no fundo do grande claustro, cantando e marchando, grudados uns aos outros, numa mole humana que se aproximava, lenta e cadenciada, a passo certo, num crescendo de arrepiar os cabelos e trazer aos olhos uma lágrima rebelde: «Olha a noiva, se vai linda...»."



in. “...COM POEJOS E OUTRAS ERVAS”, de A. M. Galopim de Carvalho, ed. Âncora Editora, coleção Raízes, de Novembro de 2001. Pag. 57 a 59.

segunda-feira, maio 09, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO




"(...)
Minha mãe amassa o circo
Quando ele está na aldeia –
São só fatias de riso
Esse pão da nossa ceia.

Minha mãe amassa o circo
Com seus bichos e palhaços –
Ainda hoje me divirto
Na arena dos seus braços.

Minha mãe amassa, linda,
Como todas as mães são –
Quase um velho, amassa ainda
Dentro do meu coração.
(...)"

de António Simões

TRATADO DO CANTE - Registos fonográficos:

       Cota FaiAlentejo: FF CA K7- 0418
S/D (K7): “Meu Alentejo que encanto – O Emigrante”


               - Edição: Hiper Música
               - Letras de Chico Bento.
               - Música de João Moura do Carmo.

                                      - Temas:
                                      (a) Meu Alentejo, meu encanto; Aquela mulher (na praia); Cigana adorada; Hino dos pescadores.
                                      (b) Cegonha branca mensageira; Em troca da tua mão; Aquela mulher na praia (instrumental); O emigrante.

               Grupo Sol do Torrão, Alcácer do Sal.

domingo, maio 08, 2016

TRATADO DO CANTE - À minha Moda:

VAI AO JARDIM DAS FLORES (Lavoura)



Ponto: 
Ai, tu é que és o meu rapaz/Quando é que lá vais/Quando é que lá vais                                                     
Alto/coro:   
Vai/ ao jardim das flores/ Ó meu lindo amor/Lá me encontrarás

Ponto:          
Ai, se lá fores e não me encontrares/ Torna a voltar/ Torna a voltar

Alto/coro:    
Per/gunta a quem tenha amores/ Ó meu lindo amor/ A quem saiba amar.

Alto/coro:    
Per/gunta a quem tenha amores/ Ó meu lindo amor/ A quem saiba amar.


in: Cassete do Grupo Coral da SFRA da Amadora. 1989. Cota FaiAlentejo FF CA K7 0001

TRATADO DO CANTE - Registos fonográficos:

Cota FaiAlentejo: FF CA K7- 0417
1988 (K7): “Ceifeiros de Bencatel”.


- Edição: DUALSOM

                                  - Temas: (a) Morena do Alentejo; Saias de quatro; Desgarradas da aldeia; A saia da Ti Anica; Ceifeira; Milho rei; Vira e bate o pé. (b) Riqueza dos campos; Sou de Bencatel; Vira dos passarinhos; Ó meu Alentejo; Saias batidas; Vira da Faia; Moda do abraço.

Rancho Folclórico Ceifeiros de Bencatel, Vila Viçosa.