terça-feira, setembro 13, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO



"(...)
Minha mãe amassa o riso
Dos folguedos infantis –
Ó meu pão estaladiço,
Eu bem sei por que te ris.

Minha mãe amassa a rir
Vozes que andam no ar –
E o pão que dali sair
Não se come... É pra escutar.

Minha mãe amassa o rito
Duma missa muito sua:
No altar do infinito,
A fazer de hóstia, a Lua.

(...)"
de António Simões

domingo, setembro 11, 2016

TRATADO DO CANTE - Livros do Cante:

LANÇAMENTO DE LIVRO
"Que modas?  ...Que modos?"



LOCAL:                        Centro Social e Cultural da Silveira - Lajes do Pico
DIA:                              21 de Março de 2005
HORA:                         21:30 Horas

APRESENTAÇÃO
Boa noite!
Exmª. Senhora Presidente da C M das Lajes do Pico
Exmº. Sr. Dr. João Andrade Santos
Exmº. Senhor José Roque
Exmª. Senhora Drª. Maria Eduarda Rosa
Exmª. Senhora Drª. Olga Ávila
Exmº. Senhor Maestro Emílio Porto
Meus Senhores e minhas senhoras

Não me é fácil determinar os motivos do porquê de lançar um livro de actas de um Congresso realizado no Alentejo, em 1997, sobre um tema tão genuíno, como são os seus cantes. Mais correcto seria, de facto, lançá-lo lá, no Baixo-Alentejo.

No entanto e porque é importante ver mais além Tejo, porque não ver mais além Mar, e encontrarmo-nos na imponente ilha do Pico, na bonita Vila Baleeira das Lajes, na Silveira, aproveitando a boleia de Almeida Firmino - da planície à ilha - e fazer um brilharete, que ficará para a história do Ser Alentejano: do seu povo e do seu cante em especial.

As coisas não acontecem por acaso e hoje, dia do início da Primavera, mais razões temos para nos sentirmos felizes, por trazermos a este povo Picoense uma mensagem de algo que, para eles, poderá ser diferente mas que no arrolar de interesses indica o quanto é preciso fazer, quer no Alentejo como nos Açores ou em qualquer parte do mundo. - Tornar possível o FEITO. Temos é que meter mãos à obra.

Quando em 1995 iniciei a tarefa de inventariar os grupos/ranchos de cante alentejano, não fazia a mínima ideia das dificuldades que me iriam dar grande prazer em contornar. E foram bastantes. Na altura dirigi-me ao então Secretário da Cultura, Dr. Rui Nery, a pedir apoio. Claro que a resposta foi um não acentuado com a justificação de que não tinha perfil académico para desenvolver esse trabalho. Claro que lhe respondi que o trabalho ia ser feito e que lhe enviaria o resultado: o livro Corais Alentejanos, das Edições Margem, editado em 1997,  onde estão referenciados 104 grupos, então, existentes no Alentejo e zona da Grande Lisboa (hoje existem perto de 140).

Só para termos um pouco a noção do estado de irrelevância e de desacreditação em que se encontrava o cante alentejano, relato a seguinte passagem: - Quando abordei o Grupo Coral "Os mineiros de Aljustrel", por sinal o grupo mais velho, constituído legalmente, dirigi-me a um cantador e disse que queria falar com o responsável do Grupo. Foi-me indicado um determinado senhor, a quem me dirigi e apresentei os meus propósitos. Tomou nota, disse que sim a tudo e ficou de me enviar os dados. Como tardavam, dirigi-me a Aljustrel e procurei o tal responsável, que ao fim ao cabo ninguém sabia quem era. E aí, com este novo contacto houve novamente a promessa de que enviariam os dados. Como nunca mais chegavam, um dia fui assistir a um encontro de Grupos Corais onde actuava o dito Grupo e aí fiquei a perceber o porquê da falha de informação. Quando fizera a primeira abordagem ao Grupo, a pessoa que me indicaram foi o porta estandarte, figura de menor relevo dentro da estrutura do grupo. Tal era o descrédito e desconfiança que então se vivia. Claro que as coisas normalizaram e hoje podemos dizer que temos um bom relacionamento.

Em 1996, numa conversa com o então Presidente da Casa do Alentejo de Lisboa, fui convidado para organizar o Congresso do Cante, isto porque foi considerado que eu tinha um abrangente conhecimento do estado da música tradicional alentejana. Aceitei mediante condições, que foram aceites, e que provocaram muitos amargos de boca.

Hoje e aqui,  se encerra a minha missão de Comissário do I Congresso do cante.

Sobre o livro  unicamente citarei o resumo das conclusões. Antes disso quero salientar e agradecer à Maria Eduarda, que me acompanha desde Outubro de 97, neste feito, e que sem o seu sacrifício, saber e ajuda não teríamos actas, e a todos aqueles que de uma forma ou de outra tornaram possível este TERMINAR BEM.

Passemos ao:

RESUMO DAS CONCLUSÕES:
Podemos sintetizar em seis pontos as grandes conclusões deste Congresso:

1. O incentivo à investigação da génese, ainda desconhecida, em certa medida, do cante alentejano, havendo quem sustente a sua origem gregoriana, eclesiástica ou cristã e quem advogue a sua origem arábica ou islâmica.

2. O desenvolvimento de esforços no sentido da constituição de um organismo que seja depositário da memória da idiossincrasia do cante alentejano - um arquivo audiovisual do Alentejo. Neste deverão figurar as gravações sonoras (comerciais ou de campo); os registos visuais dos grupos de cante entoando as melodias, narrando estórias da vida, etc.; os livros e diverso material iconográfico; os trajes; os objectos de artesanato, de trabalho, mineiro, rural, etc.; a colaboração com as Universidades ou outras escolas, onde leccionem especialistas do cante, poderá e deverá existir. Poderá este arquivo estar incluído num futuro Instituto Alentejano da Cultura e Desenvolvimento.

3. A inserção da teoria e da prática do cante alentejano nos programas escolares, havendo quem sustente essa incorporação nas escolas de ensino público e quem defenda a criação de escolas de cante independentes do poder do Estado.

4. A preservação da etnomusicologia alentejana como um todo (o cante, o despique, o baldão, a viola campaniça). Nesta matéria as opiniões dividem-se. Os mais fixistas sustentam que os espectáculos de cante se devem realizar com o traje a rigor tradicional; outros evolucionistas advogam que o cante deve manter a sua genuinidade musical, mas as letras das canções e os trajes podem evoluir e ser adaptados a este final do século XX e a inclusão no cante da voz feminina.

5. A vinculação das autarquias em todos os concelhos alentejanos, na defesa e propagação do cante. As Câmaras Municipais deverão dar apoio logístico (transporte, sedes para grupos corais, imprensa, etc.) e financeiro aos grupos e escolas de cante, sem que estas caiam no domínio da política partidária.

6. A formação de uma federação de folclore alentejana - a Federação de Grupos Corais Alentejanos - que poderá ser a força motriz da formação do arquivo audiovisual do cante alentejano e dos próximos Congressos do cante alentejano.

José Francisco Pereira