sábado, setembro 16, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

ALENTEJO NÃO DIVIDIDO

Água e pão
Meu Alentejo
Minha vida
E minha morte
Meu cante chão

Meu Alentejo
Uno e nobre
Audaz e forte

Meu Alentejo
Não dividido
Antes a morte
Que tal sorte


In: “Meu Alentejo Total”, de Manuel Geraldo. Capa e ilustrações de H. Mourato. Foto da contra-capa de Leonardo Dinis. Edições Margem. 1998. Pág. 11.



sexta-feira, setembro 15, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

CORAL ALENTEJANO

Cantas no teu coral!
o trigo-solidão
no teu cantar
as curvas de cansaço
na tua voz
há um abraço-terra
na tua fala
a fome de um abraço
cantas
o Alentejo-terra-seca
corpos mirrados sem cor
palha seca como cama
pão na arca de bolor
cantas
filhos-pés-descalços
filhas-esfhadas nos montes
a água seca nas fontes
a pele de trigo malhada
cantas
e sofres cantando
o canto das outras gentes
canto de corpos contentes
mesa farta cama leve
para ti
a sorte é tão breve
no entanto tão pesada
e tu cantas
cantas tristeza-saudade
derrota do só-desejo
quem dera
que eu não sentisse
                   o teu coral alentejano.

Moita Macedo – Nasceu a 17 de Outubro de 1930, em Benfica do Ribatejo. Como poeta tem colaboração dispersa na imprensa regional.  



In: “Cantares de amigo – Poemas”. Foto da capa de pintura de Álvaro Gonzaga. Edição da Câmara Municipal de Almada. 1983. Pág.s 99/100

quarta-feira, setembro 13, 2017

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“PRECE


 (…)
A terra dói-se. E tu canta, companheiro, a tua estrofe rebelde à nascença de um rio! Não violes as gruas do silêncio, implantadas ao rés das choupanas dos zagais. Acende a tua voz de profeta, ergue novamente a tua mão, cheira, ao longe, o vulto das papoilas, mas canta. Estás no teu país Alentejano, e a tua voz é esforço, é esperança, é sangue, é poesia!”


In: “Alentejo é sangue”, 2ª. edição revista e aumentada, de Antunes da Silva. Capa de Luiz Duran. Livros Unibolso. Pág.s: 173/174.

Antunes da Silva


 Armando Antunes da Silva nasceu no dia 31 de julho de 1921 em Évora e faleceu em 1997 na mesma cidade. Frequentou a Escola Comercial de Évora, abandonando os estudos aos treze anos para trabalhar num escritório. Em 1948, fixa-se em Lisboa onde, a por do trabalho na secção de publicidade e de relações públicas numa empresa industrial, se dedica à escrita. Colaborou em várias publicações, destacando-se a revista Vértice, os jornais O Comércio do Porto, o Diário Popular, o Diário de Notícias, o Diário de Lisboa e O Diabo. A sua obra pertence ao Neo-realismo. Antunes da Silva publicou dois diários. O primeiro tem por título Jornal I – Diário e foi publicado em 1987, reportando-se a registos de 1984 e 1985. O segundo tem por título Jornal II – Diário e foi publicado em 1990, reportando-se a registos de 1986-1990. O autor, a viver na cidade de Évora, vai falando da velhice, tece opiniões sobre o que vai acontecendo na região, em Portugal e no mundo. Descreve a paisagem alentejana em diferentes momentos, fala de literatura, tece reflexões sobre o passado e sobre a sua vida presente. Relata viagens (uma delas aos Açores e outra a Macau). A cada passo, transcreve poemas. O estilo é simples e sem grandes pretensões. Alguns dos seus contos foram traduzidos para checo, alemão e italiano.
Obras: Poesia – Esta Terra é Nossa – Cancioneiro Geral (1952); Canções do Vento – Cancioneiro Geral (1957); Breve Antologia Poética (1991). Prosa – Gaimirra (contos, 1946); Vila Adormecida (contos, 1948); Sam Jacinto (contos, 1950); O Aprendiz de Ladrão (contos, 1954); O Amigo das Tempestades (contos, 1958); Suão (romance, 1960); Terra do Nosso Pão (romance, 1966); Alentejo é Sangue (crónicas e narrativas, 1966); Uma Pinga de Chuva (crónicas e narrativas, 1972); Exilado (contos, 1973); Jornal I – Diário (1987); Jornal II – Diário (1990).

domingo, setembro 10, 2017

TRATADO DO CANTE - Crónicas:

"HOJE... CANTO EU!


Nas minhas andanças pelas terras do sul, desde muito novo apercebi-me que os meus vizinhos do Alentejo exteriorizavam as suas emoções de maneira diferente daquilo que me era dado ver no meu país algarvio: - A linguagem era muito igual, mas a maneira de cantar as alegrias e tristezas era bastante diferente: se calhar algum especialista mais avisado diria que uns e outros se completam e se calhar ainda se conseguirá uma relação antropológica (será?) entre o “Corridinho” e o “Cante”, não esquecendo as “Saias” que desde cedo ouvia aos sábados à porta do mercado de Olhão.

 Muitos anos passaram, e eis que quase sem saber porquê me vejo integrado nesta problemática tão bela como intrigrante, tão controversa como original, que se chama “Cante Alentejano”.

Num mundo de curiosos e entendidos como é o nosso aqui à beira-mar plantado, é muito fácil falar de tudo sem saber de nada: aí eu não alinho, confesso-me ignorante nesta matéria, mas peço licença para ser agora um aluno atento desta disciplina, que eu receio adjectivar com medo de cair em injustiças.

Agora ficarei atento a tantos professores que vou ouvindo pelo grande Alentejo, e pela Lisboa preguiçosa a estender-se nas duas margens, procurando beber tudo sobre este cantar velhinho que todos nós não poderemos deixar morrer sob pena de ajudarmos (?) a sepultar mais uma forma de arte nestas ibéricas paisagens.

E agora apetece-me dizer á boa maneira afadistada: “ Silêncio! Vai cantar-se uma moda! “

Artur Mendonça
In: “Boletim do Cante Alentejano” nº. 0. Agosto de 1997.