sexta-feira, dezembro 13, 2013

TRATADO DO CANTE:


O “CANTE” ALENTEJANO
Pelo padre António Marvão

O padre António Marvão, Alentejano da Amareleja, desaparecido do mundo dos vivos em 1993, foi um enorme entusiasta do “Cante”, como o atestam várias obras publicadas, a última das quais, lançada em 25 de Junho de 1997, através da INATEL, em Beja. 
Sem pretendermos gerar controvérsias, se calhar bem interessantes nesta matéria, transcrevemos alguns textos de sua autoria constantes aliás de uma intervenção na Academia de Ciências do Porto, há uns bons 40 anos:
“... O Cante Alentejano é uma polifonia simples, a duas vozes paralelas, à terceira superior. Como polifonia, situamo-la na época em que esta tinha o principal lugar na música, toda ela vocal, a que se deu o nome de milénio vocal, uma polifonia sem instrumentos.
O Cante Alentejano é composto de modas, nas quais sobressaem , em algumas delas, dois sistemas musicais, inteiramente distintos: o sistema modal, em uso durante toda a Idade Média, e o sistema tonal, já fruto do Renascimento...
(...)
Características das modas Alentejanas:
- São todas em tons maiores;
- Têm algumas o soluço eclesiástico, ou pausa para respirar;
- Têm algumas o acorde de trítono, que Arnld Schomberg baniu da harmonia, ao inventar a dodecafonia seriada;
- Não existem modulações;
- Principiam, muitas delas, pelo acorde de subdominante;
- Serem uma polifonia a duas vozes paralelas, à terceira superior.
(...)
 ... Os cantadores Alentejanos, geralmente homens do campo, cantam em grupo, divididas as vozes em três naipes: o ponto, o alto e as segundas vozes (baixos).
A função do ponto é iniciar a moda, retomada depois pelo alto, e em seguida pelas segundas vozes, constituindo assim o coro. É função específica do alto preencher as pausas com as “vaias”, no fim das frases musicais, exceto na última - assim uma espécie de ponto na primeira voz...
(...)
 ... O Cante Alentejano tem sentido do amor, da saudade e da tristeza, embora associado a outros temas...
(...)
 ... Das 206 modas do Cancioneiro Alentejano, 114 (55%) falam do Amor. Das restantes 92: cantam a Saudade 7, a Morte 16 e a Tristeza 17 …
(...)
 ... O Cante Alentejano tem origem na Vila de Serpa. As escolas de polifonia clássica do século XV, em Évora, foram frequentadas por alguns frades da Serra de Ossa, mandados para Serpa onde fundaram o Convento dos Paulistas e “Escolas de Canto Popular”: - Destas escolas deve ter saído o Cante Alentejano...
(...)
 ... O Cante Alentejano representa a cultura popular tradicional do povo do Baixo-Alentejo, de um valor extraordinário, com a sua identidade própria, as suas características específicas e a sua peculiar interpretação...
(...)
 ... A cultura, representada no Cante Alentejano, traduz a perfeita imagem do povo Alentejano, no seu quotidiano, durante séculos, e que se mantém viva, em toda a sua beleza sentimental e nostálgica, que embalou a sua gente, a fez trabalhar, cantar, chorar, sofrer, rezar e morrer, numa epopeia bem digna da pena de um novo, ainda que rústico, épico...”

In: Boletim do Cante Alentejano º. 1, de Setembro de 1997

quinta-feira, dezembro 12, 2013


TRATADO DO CANTE:

 em S. Brás do Regedouro
“ Pode lá deixar de ser belo um entardecer de Outono, quando o tom ocre dos restolhos é já cinzento e o verde das azinheiras e silvados se dilui também nessa meia-tinta, nesse tom incerto que não sendo azul não é cinzento, por cima do qual o céu se mostra ainda em fogo, enquanto ao longe, do “monte” perdido entre os montados de azinho, vem uma voz que entoa uma canção dolente, o “cante” alentejano, hino que louva e chora o sol que morre...”
(Transcrito de um jornal militar da então portuguesa Guiné-Bissau)

in: Boletim do Cante Alentejano nº. 0, de Agosto de 1997.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

TRATADO DO CANTE:

 
Grupo Coral da Casa do Povo de Amareleja, na Casa do Alentejo em Lisboa

“HOJE... CANTO EU!
Nas minhas andanças pelas terras do sul, desde muito novo apercebi-me que os meus vizinhos do Alentejo exteriorizavam as suas emoções de maneira diferente daquilo que me era dado ver no meu país algarvio: - A linguagem era muito igual, mas a maneira de cantar as alegrias e tristezas era bastante diferente: se calhar algum especialista mais avisado diria que uns e outros se completam e se calhar ainda se conseguirá uma relação antropológica (será?) entre o “Corridinho” e o “Cante”, não esquecendo as “Saias” que desde cedo ouvia aos sábados à porta do mercado de Olhão.

 Muitos anos passaram, e eis que quase sem saber porquê me vejo integrado nesta problemática tão bela como intrigante, tão controversa como original, que se chama “Cante Alentejano”.

Num mundo de curiosos e entendidos como é o nosso aqui à beira mar plantado, é muito fácil falar de tudo sem saber de nada: aí eu não alinho, confesso-me ignorante nesta matéria, mas peço licença para ser agora um aluno atento desta disciplina, que eu receio adjetivar com medo de cair em injustiças.

Agora ficarei atento a tantos professores que vou ouvindo pelo grande Alentejo, e pela Lisboa preguiçosa a estender-se nas duas margens, procurando beber tudo sobre este cantar velhinho que todos nós não poderemos deixar morrer sob pena de ajudarmos (?) a sepultar mais uma forma de arte nestas ibéricas paisagens.

E agora apetece-me dizer á boa maneira afadistada: “Silêncio! Vai cantar-se uma moda! “”

Artur Mendonça
 In: Boletim do Cante Alentejano nº. 0, de Agosto de 1997.