sábado, setembro 03, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

NINHA MÃE AMASSA O PÃO


"(...)
Minha mãe amassa a Nona
Mais a Quinta Sinfonia –
Beethoven nessa semana,
Vamos ter em cada dia.

Minha mãe amassa a cal,
Que é alva como a farinha –
Cal dos montes, afinal,
Onde a brancura é rainha.

Minha mãe amassa a lã
De imaginário rebanho –
Come-se o pão de manhã:
Pão fofo, sabor estranho...
(...)"

de António Simões

quinta-feira, setembro 01, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

Solidão, ai dão, ai dão



«A verdadeira dialéctica não é um monólogo do pensador solitário consigo próprio, mas um diálogo entre o eu e o tu» - escreveu o filósofo alemão Ludwig Feuerbach, aluno de Hegel em Berlim, que viu a sua carreira interrompida em virtude da hostilidade às ideias religiosas expostas num dos seus primeiros trabalhos.

O grande pensador morreria na miséria em Rechemberg. Solitário! Em monólogo consigo próprio.

Leio Feuerbach, e sinto que na paisagem alentejana também Feuerbach foi traído, no monólogo surdo travado pelo cavador; socialmente segregado, isolado entre a terra e a enxada, entre o suor e o arado.

Vivo Feuerbach no emigrante forçado, roído de saudades. E escuto Ludwig Feuerbach na «moda» pungente que a planície sorve em entardeceres sanguinolentos; Oh, que dor do coração/ Solidão, ai dão, ai dão/ Meu Alentejo deserto/ Quem não há-de ter paixão!..."

in: "Alentejo Marginal", de Manuel Geraldo. Edições Caso.