sexta-feira, agosto 19, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO



"(...)
Minha mãe amassa e sonha
Com as histórias que lê –
É quando a vemos tristonha,
Sentindo não sabe o quê.

Minha mãe amassa e cala
Alguma dor mais secreta –
Fico parado a olhá-la,
Até que o rosto se aquieta.

Minha mãe amassa assim:
Os punhos furando a massa –
Junta medronho no fim,
Que na farinha entrelaça.

(...)"
de António Simões

quinta-feira, agosto 18, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

“TERRA-MÃE


Lá dos campos, tristes campos,
Dos campos do Alentejo,
Vim ainda pequenino
– E pequenino me vejo...
Lá nos campos, tristes campos
Da solitária planura,
Nasceu a minha revolta,
Nasceu a minha amargura.
Lá dos campos, tristes campos,
Vem a lembrança de tudo
O que mais amo e desejo.
Vem a fome, a sede e o sono
Das terras do Alentejo!”

Raul de Carvalho


Alvito, Baixo Alentejo
1920/09/04 - 1984/09/03 
Poeta português, natural de Alvito.
Foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades.
A obra deste poeta, onde se encontram evocações da sua infância alentejana, revela a sua ligação ao neo-realismo. A fidelidade ao humano e o estilo enumerativo e anafórico são marcas da sua poesia. 
Os seus títulos englobam As Sombras e as Vozes (1949), Poesia, (1955), Mesa de Solidão (1955), Parágrafos (1956), Versos - Poesia II (1958), A Aliança (1958), Talvez Infância (1968), Realidade Branca (1968), Tautologias (1968), Poemas Inactuais (1971), Duplo Olhar (1978), Um e o Mesmo Livro (1984) e Obras de Raul de Carvalho — I — Obra Publicada em Livro (editada postumamente em 1993). 
Recebeu, em 1956, o Prémio Simón Bolívar, do concurso internacional de poesia realizado em Siena, Itália. 
http://asombradocastelo.blogs.sapo.pt/

domingo, agosto 14, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO



"(...)
Minha mãe amassa a seta,
Que não sei quem disparou –
Quando o pão depois leveda,
Coze-se em pleno voo.

Minha mãe amassa o cheiro
A madeira, ferro e pó:
Meu tio talhando, certeiro,***
O azinho co’a  enxó.

Minha mãe amassa o verde
Duma seara de trigo –
Vais matar-me fome e  sede,
Alentejo, eu te bendigo!

*** Meu tio António Baptista Carvalho, abegão, pessoa jovial e espirituosa,  construtor de carros de tracção animal, em cuja oficina passei muitas horas da minha infância e juventude. Faleceu em finais de 1952.
(...)

de António Simões