quinta-feira, julho 25, 2019

005 01 TRATADO DO CANTE - O Cante por Missão:

A Alma Alentejana em Festa 


Era o 6º Festival de Grupos Corais em Grândola. 

GCE "COOP" de Grândola em desfile em Odemira em 1997

Pelas quinze horas viam-se magotes de cantadores e cantadeiras vagabundeando pelo jardim de sombra e sol, aromatizado de Primavera. Nos rostos escorria a ternura que lhes dava doçura e calma. Eram rostos muito variados em feições: uns bem escuros e tisnados pelo sol, outros bem claros e preservados de intempéries. Deviam concentrar-se os coros em frente a um café que ladeava o jardim onde se encontravam também alguns elementos para temperarem a voz com o célebre licor de poejo. 

 Não fora o traje que se sobrepunha a cada corpo, numa gradação de cores do preto ao branco, diríamos que estávamos a visualizar a Descoberta do Mel de Piero di Cosimo (1462-1521), em que deuses paganizados se passeiam pela idílica paisagem. Mas aqui os faunos não estão a tentar chamar o enxame das abelhas, pois o mel irá ser lançado ao ar, saído do interior de cada um/a que, com os/as companheiros/as, unidos/as por essa força do inconsciente colectivo que os/as torna conscientes do valor que guardam, deste modo o transmitem. 

 Um pouco mais tarde do que o previsto, para não contrariar a tradição portuguesa, inicia-se o desfile. Passo de marcha dolente, todos para a direita, todos para a esquerda, começa o ponto, depois o alto, depois o coro. O efeito é de estarrecer! Salvaguardadas as devidas distâncias para que ninguém agredisse ninguém, a rua encheu-se de cante, um cante triste, doce e profundo cheio de brilho subindo ao céu como foguetes de lágrimas, deslumbrando com a subida e voltando de novo a terra. 

Depois na Praça Zeca Afonso, cada grupo mostrou o seu melhor. 

Não nos compete fazer juízos de valor. É claro que gostámos mais duns do que de outros, como é normal, já que cada um tem o seu gosto. Só não resistimos a tentação de destacar “O almocreve”, uma das modas a que chamamos de “pesada” por nos parecer muito difícil de cantar, pelas bem timbradas vozes femininas de Aljustrel. 

Além do cante, houve poesia, houve sobretudo amor, a que a serenidade do tempo trouxe também o seu aconchego. 

A seguir, o convívio continuou num sítio onde havia comida para todos, lembrando o bodo do Espírito Santo, a tal tradição que a rainha Santa Isabel e o rei Dom Dinis fundaram. À boa comida, canja de galinha, e frango com ervilhas, acrescentou-se-lhe o cante como sobremesa. Nenhum grupo se foi embora sem soltar a garganta, e alguns deles até cantaram em conjunto. A nosso pedido, o grupo de Ourique ousou, apesar do nítido cansaço, já que tinham feito duas actuações no mesmo dia, a moda: “Fui-te ver estavas lavando”. Não há palavras que exprimam o caudal do sentimento! Apenas a certeza de que o cante é sagrado, que os deuses na verdade resolveram fazer a sua morada no interior dos alentejanos.

Apetece fazer um apelo, alterando um pouco a quadra que o Zeca Afonso cantava:

Camaradas lá do Norte 
Venham ao sul passear: 
O cante soa mui forte 
Para a todos arrastar. 

A festa continuou animada por um conjunto instrumental que até serviu para despoletar um baile espontâneo à volta das mesas. 

No fim, olhámos mais uma vez os rostos dos que ainda ficaram na sala, alguns tendo por missão limpar as mesas e arrumar a cozinha. De novo sentimos a ternura e uma alegria interior que já não devem existir em muito lado no mundo. E pensámos: não será isto uma verdadeira revolução, fruto da maturidade e consciência de um tesouro que cada um guarda dentro de si? 

Fotografia de pintura de Fátima Madruga
Maria Eduarda Rosa 
1998