sábado, novembro 05, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

"A Canção Popular Portuguesa", de Fernando Lopes Graça. Publicações Europa-América. Coleção Saber nº. 23. (cota 784.4 (469) nº. 26157 GRA, Biblioteca Bento de Jesus Caraça – Moita.)



Outra personagem que muito falou sobre o “Cante”, foi Fernando Lopes Graça, figura maior da nossa música, com obra ímpar como musicólogo e compositor. Homem que extravasou em muito a pequenez, por vezes tão evidentemente dramática, do nosso país à beira mar plantado...



De um almanaque dos anos 40 transcrevemos passagens de um seu artigo de opinião:

“A alma do alentejano é profundamente musical e o canto é o elo vital que liga aqueles seres primitivos no sentimento de uma fraternidade de destinos, na afirmação de uma comunidade telúrica. Em qualquer parte o alentejano se reconhece e identifica, reconhecendo e identificando do mesmo espaço os seus irmãos em carne e espírito, mediante o viático das suas canções.

O ar e a paisagem vibram constantemente de melodias. É, porém, no silêncio da noite, da vasta e profunda noite alentejana, que estas ganham toda a sua altura e projecção anímica; (...)

O estudo da canção alentejana está ainda por fazer, tanto por escassez da necessária documentação, como por falta de especialistas perfeitamente habilitados,que a analisassem de triplo ponto de vista musical, psicológico e sociológico. (...)

A canção alentejana é por via de regra, larga, dolente e triste, de uma tristeza nada depressiva, antes nobre e serena, de um colorido sóbrio, de uma linha severa, nisto reflectindo a monotonia grandiosa, hierática e, por assim dizer, ensimesmada da própria planura alentejana. (...)

Um exame mesmo perfunctório da canção alentejana revela nela duas sedimentações: uma moderna ou, em todo o caso, relativamente recente (talvez não ultrapassando o século XVIII ), e outra antiga, de uma antiguidade que não é fácil determinar, que abrange naturalmente por sua vez diferentes épocas, mas que não será muito aventuroso levar nalguns espécimes até aos tempos medievais. (...)

Falar das letras (constantemente renovadas) das canções alentejanas, constituiria capítulo dificilmente exaustivo, em matéria que dava para suculento e apaixonante livro. Não resisto, porém, à tentação de consignar aqui uma meia dúzia de documentos da riquíssima poética popular alentejana, permitindo-me chamar para eles a atenção dos nossos poetas eruditos, em cata de expressões renovadoras da sua por vezes tão cansada musa.
Primeiro, estas duas maravilhas, tão medularmente portuguesas: “

Ó Serpa, pois tu não ouves
os teus filhos a cantar!
Enquanto os teus filhos cantam
tu, Serpa, deves chorar.

Aqui tens meu coração,
se o queres matar, podes...
Olha que estás dentro dele:
se o matas, também morres.

“ Que irmão ignorado de Bernardim pôde conceber esta quadra de puro recorte clássico? “

Pus-me a chorar saudades
ao pé duma fonte, um dia,
Mais choravam-(n) os meus olhos
que a própria fonte corria.

“ E que poeta do Cancioneiro de Resende inventaria mais graciosa expressão do amor palaciano do que esta ? “

Ó olhos da minha cara
não olhai para ninguém;
já que perderam a graça,
percam-(n) o olhar também.

“ E o cinismo, a velar não se sabe que premências de ordem social, contido nestes quatro versos? “

Anda cá, amor,
que eu inda te aceitó.
O que os mais não querem
é que eu aproveito.

“ E a ironia sorridente destes dois tercetos ? “

Olha a noiva se vai  linda,
no dia do seu noivado.
Também eu queria ser casado.

Ser casado é ter juizo,
acho que é bonito estado.
Também eu queria ser casado.

“ Por último, atentem neste inapreciável quadro de um tão perfeito realismo impressionista:“

Eu ouvi,
mil vezes ouvi,
lá nos campos
rufar os tambores.
Das janelas
bradam as damas:
já lá vem,

já lá vem meus amores!