sábado, agosto 06, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO




"(...)
Minha mãe amassa, tonta,
Do seu tempo de menina,
Brincadeiras sem ter conta
Que ela de novo imagina.

Minha mãe amassa versos
Dos tempos de rapariga -
Saem os pães tão diversos:
Cada um, sua cantiga.

Minha mãe amassa a bela
Toutinegra do Moinho* –
Ao partir-se, o pão revela
Mil paixões em desalinho.

* A Toutinegra do Moinho, de Emílio Richebourg, Biblioteca Universal, Lisboa, 1929, (“Romance de grande sensação, com bonitas ilustrações originais”, como se lê na capa) era vendido em fascículos, porta a porta, e avidamente lido e partilhado entre amigos e vizinhos. A seis meses do meu nascimento, já minha mãe o lia, e não é abusivo pensar que, de vez em quando, relembrasse o seu complexo e emocionante enredo, enquanto ia amassando. Falecida a 20 de Janeiro de 1952, com apenas quarenta e sete anos de idade, minha mãe, de seu nome Maria Joaquina Amaro Simões, possuía a sexta classe e deu, em Beringel,  aulas particulares do então denominado ensino primário, a dezenas de alunos que ainda hoje a recordam com saudade e simpatia.

(...)"

de António Simões

segunda-feira, agosto 01, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO



"(...)
Minha mãe amassa a calma
De uma tarde transparente –
É um pão só para a alma,
Tão leve que mal se sente.

Minha mãe amassa o canto
Do silêncio de uma pedra –
E a massa, pra seu espanto,
Nesse dia não leveda.

Minha mãe amassa o voo
De uma gaivota no mar –
Enquanto ela amassa, eu vou
Voando sem me cansar.
(...)"

de António Simões