quinta-feira, setembro 22, 2016

TRATADO DO CANTE - Grupos Corais:

SERPA:

Grupo Coral "Os Ceifeiros de Serpa"
Rua da Capelinha, 7  - 7830 SERPA
Tel. 284 544 769



  Ficha Técnica:
- O Grupo foi fundado em 23 de Fevereiro de 1975.

- Ensaiam às Terças e Sextas-feiras, à noite.

- O Grupo é composto por 25 elementos.

- Trajo: Ceifeiro: Camisa em xadrez azul/castanho; Calça de cotim, militar; Lenço branco, com bolinhas azuis; Chapéu preto; Safões de pele. Adereços: Alforge tipo manta; Foice.

- Histórico: Tem uma média de 20 a 30 desempenhos por ano. Actuam em todo o País, para divulgação do "cante" alentejano, com maior impacto, no Alentejo e na zona da grande Lisboa, onde existe uma comunidade, muito forte de alentejanos. Destacamos algumas actuações: Porto; Guarda; Braga; Coimbra; Abrantes; Lisboa.

- Registos fonográficos: Duas cassetes áudio, em 1989 e 1994.

- Repertório: Cantam as "modas" características da sua zona, com as adaptações das letras ao momento actual.
Cassete (1989):  Serpa do Alentejo; Camponesa Alentejana; Meu lírio roxo; Abre-te ó campa sagrada; Ceifeiro; Quando o galo canta; Tenho barcos, tenho remos; Ó Serpa velhinha; Aurora.
Cassete (1994):  Serpa que és minha terra; Melancolia do campo; Ó Menina Florentina; É lindo na Primavera; Já lá vem rompendo aurora; Meu lírio roxo do campo; É tão querido o meu País; Tenho lá no meu quintal.

- Outras considerações: Por vezes o Grupo não pode corresponder às solicitações e aos convites que lhe são endereçados, por falta de transporte, contando no entanto, com todo o apoio das autarquias do concelho. As suas actuações são gratuitas e têm, exclusivamente, a intenção de divulgar o cante Alentejano.

In: “CoraisAlentejanos” de JFP. Edições Margem. 1997.

Informação actualizada em 16 de Janeiro de 2003

segunda-feira, setembro 19, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

"O Cante Alentejano


 (...)
O padre António Marvão, Alentejano da Amareleja, desaparecido do mundo dos vivos em 1993, foi um enorme entusiasta do “Cante”, como o atestam várias obras publicadas, a última das quais lançada em 25 de Junho de 1997, através da INATEL, em Beja. 
Sem pretendermos gerar controvérsias, se calhar bem interessantes nesta matéria, transcrevemos alguns textos de sua autoria constantes, aliás, de uma intervenção na Academia de Ciências do Porto, há uns bons 40 anos:

“ ... O Cante Alentejano é uma polifonia simples, a duas vozes paralelas, à terceira superior. Como polifonia, situamo-la na época em que esta tinha o principal lugar na música, toda ela vocal, a que se deu o nome de milénio vocal, uma polifonia sem instrumentos.
O Cante Alentejano é composto de modas, nas quais sobressaem, em algumas delas, dois sistemas musicais, inteiramente distintos: o sistema modal, em uso durante toda a Idade Média, e o sistema tonal, já fruto do Renascimento...
(...)

Características das modas Alentejanas:

- São todas em tons maiores;
- Têm algumas o soluço eclesiástico, ou pausa para respirar;
- Têm algumas o acorde de trítono, que Arnld Schomberg
   baniu da harmonia, ao inventar a dodecafonia seriada;
- Não existem modulações;
- Principiam, muitas delas, pelo acorde de subdominante;
- Serem uma polifonia a duas vozes paralelas, à terceira
   superior.

(...)
 ... Os cantadores Alentejanos, geralmente homens do campo, cantam em grupo, divididas as vozes em três naipes: o ponto, o alto e as segundas vozes (baixos).
A função do ponto é iniciar a moda, retomada depois pelo alto, e em seguida pelas segundas vozes, constituindo assim o coro. É função específica do alto preencher as pausas com as “vaias”, no fim das frases musicais, excepto na última - assim uma espécie de ponto na primeira voz ...
(...)
 ... O Cante Alentejano tem sentido do amor, da saudade e da tristeza, embora associado a outros temas...
(...)
 ... Das 206 modas do Cancioneiro Alentejano, 114  (55%) falam do Amor, ...das restantes, 92  (44,6%) cantam a Saudade, (7,75% ) cantam a Morte 16, e 17 cantam a Tristeza (8,25%)...
(...)
 ... O Cante Alentejano tem origem na Vila de Serpa. As escolas de polifonia clássica do século XV, em Évora, foram frequentadas por alguns frades da Serra de Ossa, mandados para Serpa onde fundaram o Convento dos Paulistas e “Escolas de Canto Popular”: - Destas escolas deve ter saído o Cante Alentejano...

(...)
 ... O Cante Alentejano representa a cultura popular tradicional do povo do Baixo Alentejo, de um valor extraordinário, com a sua identidade própria, as suas características específicas e a sua peculiar interpretação...
(...)

 ... A cultura, representada no Cante Alentejano, traduz a perfeita imagem do povo Alentejano, no seu quotidiano, durante séculos, e que se mantém viva, em toda a sua beleza sentimental e nostálgica, que embalou a sua gente, a fez trabalhar, cantar, chorar, sofrer, rezar e morrer, numa epopeia bem digna da pena de um novo, ainda que rústico, épico...”

Por Padre António Marvão

in: "Boletim do Cante Alentejano nº. 1" de Setembro de 1997.

domingo, setembro 18, 2016

TRATADO DO CANTE - Crónicas:

Envolvência do cante alentejano




Neste dia que começou frio pelas bandas de Sintra envolvemo-nos num programa de rádio (Rádio Clube de Sintra - 91.2 FM) para falar do cante do sul. A ideia que prevalece é divulgar tudo o que implique sul e neste domingo fez-se questão de se preferir ao sul Bento de Jesus Caraça, nascido em Vila Viçosa, mas cuja estrutura familiar de origem é de Montoito. Não foi fácil falar desta personagem pelo valor lógico da sua obra. Baseámo-nos na Conferência produzida em 25 de Maio de 1933 na União Cultural "Mocidade Livre" intitulada: "A Cultura Integral do Indivíduo” “problema central do nosso tempo" em que Bento de Jesus Caraça explica o conceito de cultura. Para ele o homem culto é aquele que "1º. tem consciência da sua posição no Cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2º. tem consciência da sua personalidade e da sua dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3º. faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida."
Fundamentámos musicalmente no programa as influências dos cantares no concelho do Redondo considerando as suas diferenças ou seja, em Montoito cantam-se as modas com tradição desempenhadas pelo grupo coral "Os Trabalhadores de Montoito"; no Redondo, cantam-se as saias, com influência arraiana e da Beira Baixa cantadas pelos "Cantadores do Redondo". Repartimos ainda o programa com algumas indicações turísticas e estatísticas de Montoito.
Partimos para Santiago do Cacém, tendo por missão a participação num debate-reflexão sobre o cante alentejano.
Pelo aspecto da sala que nos acolheu, repleta de gente, ficámos encantados e ao mesmo tempo expectantes porque não estávamos à espera de tão digna assistência. Reparámos que a este nível, a organização é fundamental para que os aspectos sensíveis deste tema como sendo a sua motivação e desempenhos. Considerámos os aspectos organizativos a todos os níveis cuidados, e deixámo-nos envolver pelo que ali se passou. Também aqui não é fácil de descrever a sintonia dos interventores, dos animadores e dos ouvintes. Destrinçando isto, nós que como interventores nos consideraram, começámos por ouvir o grupo de cante alentejano "Harmonia", surpresa agradável. Falámos do cante, do seu estado, dos seus problemas e sobretudo da sua divulgação que bastante nos preocupa e aqui recebemos ensinamentos (a começar por este tributo: sala cheia, organização, participação, sensibilização, silêncio, modas, alegria, olhos nos olhos, lágrimas ao canto do olho, palmas, muitas palmas).
 Foi a vez de entrarem em acção os animadores e podemos afirmar os momentos altos: a cuidada preocupação da organização em nos proporcionar um espectáculo de cante em três andamentos: o cante trabalhado e desenvolvido por um coral erudito, mas sem perder de vista os princípios das modas aqui desempenhadas; o enquadramento tendo por fundo a moda "Moura linda" desempenhada pelo grupo coral "Harmonia", e a poesia declamada por Herbert Rodrigues, sobrinho de Vicente Rodrigues, e depois o cante tradicional, desempenhado pelo grupo coral cubense "Os Amigos do Cante".
Queremos, no entanto, salientar alguns aspectos que sobressaíram deste evento: não é fácil nem o esperamos fácil, a credibilização e a dedicação do cante alentejano. Todavia, com atitudes destas, estamos em crer que os objectivos se atingirão, ou seja, emergir dum estado caótico em que se encontrava o cante alentejano, da descrença, desmotivação, irresponsabilização de todos os agentes envolvidos (grupos corais, autarquias, governo, etc.) para o levantamento do estado actual dos grupos através da edição de um livro que os retrata e lhes deu estatuto; para a realização do 1º. Congresso do Cante Alentejano,  sob o lema "Que modas... que modos..." em Novembro de 1997 em Beja (sobre o qual irá ser editado um boletim onde constarão todas as intervenções então produzidas bem como os primeiros sinais de responsabilização) onde se abordou toda a problemática do cante em todas as suas componentes; para a dinâmica que todo este processo gerou e que criou espectativas em que todos nos temos que empenhar e que eventos como este em que estivemos presentes são prova cabal que o cante continuará e nos proporcionará momentos indescritíveis como os que tivemos a felicidade de assistir aqui em Santiago do Cacém neste dia.
Bem hajam os organizadores "Coral Harmonia", o público de Santiago do Cacém, os grupos intervenientes!
Nós aprendemos!
                                     
Canto secular (com base no Carmen saeculare   de Horácio)
                  
À saudosa Diana, 
Das florestas soberana,
Vela como teu irmão Apolo
Pelo alentejano solo.
Dá-lhe filhos corajosos
Simples mas muito formosos
Que queiram e saibam cantar
O meigo cante singular
Ouvido há gerações,
Cantado por multidões,
Feito de veias de barro
E raízes de chaparro!
À Sol que clareias o dia
E lhe dás toda a magia
Mesmo quando o escureces,
Enche o cante de benesses!
E vós, Parcas, que o futuro
predizeis, boa ventura
Doai ao secular cante
P'ra que ele siga brilhante!
E vós, Apolo, agoureiro,
Da música padroeiro,
Tange tua lira elegante:
Enaltece o doce cante!
Em veredas e atalhos
Nos lazeres e trabalhos
E até no largo Oceano:
Viva o cante alentejano!

Rosa Pereira

17 de Maio de 1998