sábado, novembro 18, 2017

TRATADO DO CANTE - I Congresso do Cante:

Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE



- Boa tarde! Quero saudar a mesa. Quero saudar o Secretariado deste Congresso, especialmente ao Zé Pereira por este trabalho que ele tem desenvolvido até hoje e espero que ele o consiga acabar em bem. Vai-me ser muito difícil explanar aquilo que eu penso sobre o cante alentejano e o tema que está aí proposto “Modas e Modos” porque parece que se tem falado aqui de tanta coisa que eu já não sei o que hei-de dizer. Modas e Modos se calhar não se falou aqui, não? E queria, o nosso amigo Joaquim Soares, agora quando estivemos a comer cantámos ali aquelas duas modas, cantámos bem, uma maravilha! Então por que é que não cantamos as outras? Porque não queremos ou porque não podemos? Porque não podemos porque cada terra com seu uso, cada terra com seu fuso e aí é que está o problema, o grande problema do cante alentejano é esse. Telefonaram-me na quinta-feira e nem queria tão pouco vir aqui ao Congresso só queria vir amanhã, não tenho vida de facto vida para isso nem saúde. Mas como a pessoa que me fez o telefonema tenho grande estima e admiração, resolvi vir e resolvi fazer aqui um apanhado de algumas memórias que me vieram à memória. E então pus-me aqui a relembrar modas e cheguei à conclusão que apanhei o total de 86 salvo erro, que podem ser cantadas por qualquer grupo, em todo o lado. Até 86 peçam lá o número de uma moda! - Catorze! - “Linda jovem era pastora”. Quer que comece? Pronto. Por é que se fazem desfiles, já foi hoje aqui focado isto, e aparecem três e quatro e cinco e seis grupos a cantar o mesmo estilo, a diferença é só talvez na letra e às vezes nem na letra? “Modas e Modos”! Eu estou no grupo coral “Os Amigos do Barreiro” há vinte e dois anos. Ao fim de um ano de lá estar, por ironia do destino, vá lá, passei a ser o mestre, o chefe do grupo. Passei por muita coisa. Mas orgulho-me de ter passado por elas porque já tinha vindo de uma escola desde os onze anos e de maneira que essa escola continuou no grupo coral “Os Amigos do Barreiro”. Mas há coisas que nos marcam. E neste caso do cante alentejano o primeiro concurso, e não se falou disto aqui hoje, não se falou dos concursos de cante alentejano, parece que toda a gente tem medo de falar disso. O primeiro concurso de cantares alentejanos que se realizaram aqui em Beja em 1986, o grupo coral “Os Amigos do Barreiro” foi convidado pela entidade organizadora que foi a Associação do Património de Beja, é assim que se diz. Mandaram-nos todos os documentos como mandaram para todos os grupos, a ficha de inscrição, tudo. Respondemos, mandámos a ficha de inscrição, tudo. E quando chegámos cá para fazermos parte do concurso, estávamos em último lugar e extraconcurso. E qual foi o motivo por que estávamos extra concurso? Porque não éramos considerados alentejanos. Está aqui gente na sala que sabe disto. Como é que isto pode ser? O caso foi posto, batemos o pé, o caso foi posto, e nós fizemos parte do concurso. No ano de 1987 fomos convidados pela mesma organização, o segundo concurso depois do 25 de Abril, que fomos convidados extra concurso. Não viemos porque entendemos que o Alentejo não é só o Distrito de Beja. E os alentejanos que estão fora do Alentejo também têm o direito de cantar. E a prove disso é que naquilo que se chamou a zona industrial de Lisboa e Setúbal que hoje se chama pomposamente a área metropolitana de Lisboa, não é por acaso que teve lá 32 ou 33 grupos. Hoje em dia ainda existem 25 ou 26 não sei bem quantos são, e contribuíram muito para que aqui nesta terra e nestes arredores os grupos sobrevivessem e tivessem mais força. Isto é verdade, tem que aceitar isto como uma verdade. Mas como disse, em 1987 fomos convidados extra concurso e não viemos, dissemos não, o Alentejo não se cingia só ao Distrito de Beja, antes pelo contrário, ao norte também se cantava que é o caso que o Capitão Frasco há bocado aqui focou. Em Reguengos de Monsaraz também há um grupo coral alentejano. Também é Alentejo ou então fazemos o mesmo da rádio Renascença quando diz o boletim meteorológico, “no Porto está tantos graus, chove em Coimbra não sei quantos, depois passa para Évora ou para Faro” o Alentejo que é uma terça parte de Portugal não faz parte desta história. Esses gajos ainda a gente admite, agora os alentejanos...
- Fomos convidados em igualdade de circunstâncias em 1989 (?) por causa desta história que apareceu o Delegado do Grupo Coral “Os Mineiros de Aljustrel” a levantar esse problema que nós não éramos alentejanos, não sei se, o Dr. José Francisco é capaz de se lembrar disto, ficámos atrás dos “Carapinhas”, ficámos em vigésimo quinto lugar e se não cair nenhuma nódoa no nosso fato por causa disso, continuámos. Depois passou a haver os concursos em Castro Verde, fomos a Castro Verde, a gente não lhe interessa, ficarmos em primeiro, em segundo, em terceiro, em quarto, em quinto, a gente quer é cantar. Eu não sou religioso mas se for preciso vou cantar à igreja, já tenho ido, cantamos, vamos cantar lá ao Barreiro, ao Barreiro, não é? Até já cantámos na Igreja do Rosário “o Passarinho”. Portanto, “Modas e Modos”. Há no cante alentejano, ou querem fazer, o rio Guadiana dividir o cante. Canta-se de uma maneira na margem direita e canta-se de outra maneira na margem esquerda. Para mim, canta-se na margem esquerda aquilo que as pessoas da margem esquerda querem cantar e canta-se na margem direita aquilo que as pessoas da margem direita querem cantar. Porque as pessoas da margem esquerda cantam também aquilo que se canta na margem direita se quiserem e as pessoas da margem esquerda cantam também aquilo que se canta na margem direita. Pronto e vice-versa. Isto já foi demonstrado por mim e pelo grupo coral (desculpem lá) Isto já foi demonstrado por mim numa destas palestras que se fizeram aliás. Não é difícil cantar-se, qualquer grupo aqui da margem esquerda ou da margem direita cantar como se canta na margem direita ou na margem esquerdas. Não é difícil. A gente no Barreiro, portanto, o Barreiro não tem tradição de cante alentejano senão os alentejanos que lá vivem, tanto no Barreiro como noutras áreas como no Lavradio, como na Baixa da Banheira, e canta-se aquilo que se canta na margem esquerda ou na margem direita. Pode haver uma diferença na música porque não foi bem entendida ou não foi ouvida ou, nestes grupos principalmente na área de Lisboa, acontece que há sempre um elemento que ou é do concelho de Serpa ou é do concelho de Mértola ou é do concelho de Moura, do concelho de Cuba, ou do concelho da Vidigueira. Portanto, determinada moda que é cantada num sítio desses, essa pessoa dá sempre uma achega, portanto essa moda é cantada assim, e a gente cantamos, cantamos, cantamos o “lírio roxo” como se canta mais ou menos aqui na margem esquerda e que é muito bem cantado, embora o final que aparece no “lírio roxo” para mim me diga (ou modifica?) pouco, “chiro-biro-biro para t’amar meu bem” não sei onde é que vão buscar essa frase “chiro-biro-biro”, pronto, mas cantam, não interessa, cantam, mas o “chiro-biro-biro” é que me parece que sai fora da letra daquela história, pode não sair da história do “meu lírio roxo”, não é, pronto. Cantamos “Alentejo, Alentejo”, cantamos como se canta na margem esquerda que é o ponto cantar a cantiga os dois primeiros versos e depois o grupo entrar a cantar o resto da cantiga e depois entrar-se na moda. Cantamos o “Fui dispor a salsa verde”, talvez não cantemos exactamente como se canta na margem direita porque a pessoa que nessa altura tínhamos no grupo que era dessa área de Serpa talvez não fosse capaz de nos indicar precisamente os pontos em que a música se decifrava, cantamos, por exemplo, “a ribeira do Enxoé”, o Cachola até um dia ficou admirado aqui em Beja de a gente vir a cantar aquela moda, “a ribeira do Enxoé” que é na margem esquerda, enfim, o Barreiro não tem modas, a gente temos de jogar as mãos às modas que há por aqui nesta área. Agora vamos tocar outro tema. Ah! Mas eu ainda queria dizer outra coisa. Por exemplo, na região de Almodôvar, canta-se muito uma moda que eles até dizem que foi feita lá, que é de lá, o Galo. É uma moda bonita. Simplesmente, nós temos outra maneira de entrar na moda. Era uma maneira que eu escolhi, que eu gostei, para cantar esta moda, a gente tem de cantar assim, pronto. Não sei se estará bem se estará mal mas está à minha maneira e como eu é que sou o mestre do grupo sou eu que dou os bons dias. “A Mariana Campaniça” cantamos “A Mariana Campaniça” também, uma moda muito bonita que o Dr. José Francisco em Castro Verde se canta especialmente as violas campaniças, gostamos muito de cantar “A Mariana Campaniça” e assim sucessivamente, cantamos aquilo que podemos, não cantamos aquilo que queremos, cantamos aquilo que podemos que é diferente. Cantamos aquilo que podemos. “Ao romper da bela aurora”, quantas versões há do “ao romper da bela aurora”? “Ao romper da bela aurora”, aquela versão mais tradicional é: “ao romper da “ isto é a versão original, mas depois disso (canta) “ao romper da bela aurora”, e a outra versão (canta) “ao romper da bela aurora” , “eu ouvi um passarinho” também é “ao romper da bela aurora”. Ainda há outra versão do “ao romper da bela aurora” (canta) “ao romper da bela aurora”, também essa, “sai o pastor da choupana”, “sai a pomba do pombal”. Há uma porção de versões. Porque é que os grupos corais se hão-de repetir ou hão-de cantar coisas que não têm determinado interesse? Agora e para ser breve vou focar aquilo que eu penso do musical. No tempo dos tais bailaricos, dos bailes de acordéon, chamava-se ao acordéon a música a metros, porque geralmente as pessoas que apareciam a tocar nesses bailes tinham pouco ouvido ou sabiam pouca música. Sabiam tocar pouco e então lá acertavam o compasso e aquilo a gente chamava “música a metro”. Daí talvez venha o desconforto, se ouvir um grupo ou um grupo musical a tocar e não interpretar devidamente aquilo que é a moda alentejana que eles estão a executar. Mas eu penso que isso talvez parta de um princípio, do ensaio. Se um grupo musical ensaiar primeiro a moda, não fugir do seu ritmo, a parte musical depois vai entrar dentro desse ritmo, não deve fugir dele. Vai buscar o tom que eles estão a cantar, se for isso, se for assim parece-me que está a interpretar fielmente aquilo que será o cante alentejano, as modas alentejanas, porque a música faz parte, a gente estamos aqui a falar, a música é a arte dos sons, a eu a falar estou a dar música a vocês. Não será? O que é que acontece? Tudo aquilo que é falado, cantado, pode ser musicado. O que hé é poucas pessoas que sejam capazes de transportar fielmente para o papel, portanto, para a música, o cante alentejano nas suas várias versões. Isso é que é capaz de ser o grande obstáculo porque qualquer das modas que se canta, sei lá, então os homens fizeram as modas, fizeram também tanta peça, tanta ópera, tanta coisa dessas, então não eram capazes de transportar o cante alentejano para a música? Talvez que interpretam não sejam capazes. Isso é outra coisa. Agora que o cante alentejano, na minha opinião, musicado, deve existir e deve ser conservado, não deve ser adulterado, que é outra coisa. Não deve ser adulterado. Eu tenho pena de não estar aqui o Dr. Francisco Torrão, ele teve aqui na primeira parte, eu não quis intervir, e como ele não está aqui eu acabo aqui a minha intervenção, porque eu queria fazer-lhe umas perguntas, mas como ele não está aqui, não merece a pena eu falar porque a pessoa não está presente e então não merece a pena.

Muito obrigado pela atenção que me dispensaram.

José Coelho

sexta-feira, novembro 17, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

A AÇORDA, de João Falcato


O Alentejano, com bossa de aventureiro e navegador, senhor de pisada firme capaz de abarcar o mundo, prendado com olhar aberto que não teme os longos horizontes, não sai da sua terra. Se ela é generosa para ele, vive feliz. Se ela se lhe mostra madrasta, curva a cabeça de filho sofredor. É que há entre ele e a sua terra qualquer coisa de sólido e também de aliciante. A terra sua mãe, estendendo-lhe generosamente o pão com que miga as suas sopas, as ervas com que as perfuma e o azeite com que as aloira, escraviza-o no excesso do seu amor por ela. Cada sopa diária de açorda é gota de mítica beberragem que prende o homem cada vez mais ao seu solo.
Ó loira, olorosa, reconfortante Açorda! Quem te soubera cantar!


(de Elucidário do Alentejo)

quarta-feira, novembro 15, 2017

TRATADO DO CANTE - I Congresso do Cante Alentejano:

CONCLUSÕES DO I CONGRESSO DO CANTE ALENTEJANO


   

SESSÃO DE ABERTURA:

Na abertura dos trabalhos falou o Presidente da Assembleia Geral da Casa do Alentejo, Prof. José Chitas, que se congratulou com o evento, apresentou as boas vindas a todos os congressistas e falando na tragédia que assolou o Alentejo pediu um minuto de silêncio em memória das vítimas.

Falou a seguir o Comissário para o Congresso, fazendo uma pequena resenha do caminho trilhado até aqui, do que falta percorrer, terminando por fazer votos de que os trabalhos decorram o melhor possível, no sentido de se achar o melhor caminho para a continuidade e dignificação do Cante Alentejano.

Sob o tema:  ... QUE MODAS ? ... QUE MODOS?

O I Congresso do Cante Alentejano estruturou-se em quatro painéis, ou direcções de estudo e debate. No primeiro dia (8 de Novembro) foram abordados os três temas seguintes:

                   Painel A                    Raízes e Estudo do Cante Alentejano
                  
                   Painel B                    Situação Actual do Cante Alentejano

                   Painel C                    Perspectivas Futuras do Cante Alentejano

No segundo dia (9 de Novembro) foi desenvolvido o último tema, subdividido:

                   Painel D                   Valorização do Cante Alentejano
                                                         Ensino e Etnografia
                                                         Formas de Divulgação

O Dr. José Simão Miranda do Secretariado colocou como objectivo do Congresso, a determinação na genuinidade da origem do Cante Alentejano, através de um intercâmbio de ideias e experiências enriquecedoras.

O Sr. José Roque do Secretariado definiu como objectivo de longo prazo a preservação do Cante Alentejano, reconhecendo que as modas, da zona da grande Lisboa, já não levam, por vezes o timbre genuíno do Cante. O novo Congresso do Cante poderia ter lugar dentro de dois anos.

O painel A comportou cinco comunicações, de oradores, sem contar as intervenções que nasceram do debate com o público.

A Drª. Salwa Castelo Branco, Presidente do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, defendeu a necessidade de criar um arquivo audiovisual Distrital ou Regional do Alentejo que recolha, inventarie e salvaguarde toda a produção fonográfica existente no mercado e todas as gravações de campo do cante e de outras tradições alentejanas. Complementarmente deverá ser recolhida e inventariada a documentação escrita e iconográfica que acompanha as gravações sonoras. Acentuou a necessidade de falar extensamente com os protagonistas do cante e de registar as suas memórias num arquivo aberto ao público. Apontou alguns projectos de investigação que importa desenvolver, nomeadamente:

                   1. O historial da transplantação do cante para a Cintura Industrial de                         Lisboa/Setúbal e efeitos dessa mudança na preservação do cante.

                   2. O papel do cante na vida das comunidades, quer do Alentejo quer em                    Lisboa/Setúbal.

                   3. A relação entre o cante e outras práticas musicais do Alentejo.

                   4. Histórias de vida: A existência e a obra dos poetas, compositores,                           dinamizadores e membros dos grupos corais de cante.

                   5. Relação entre o cante e a organização social e política do Alentejo.

O Dr. Henriques Pinheiro, na sua comunicação destacou, como o melhor trabalho sobre o cante Alentejano o livro "Momentos Vocais do Baixo Alentejo", publicado em 1986, em Portugal de João Ranita da Nazaré. Defendeu como hipótese mais plausível, da origem do Cante Alentejano, não o Cante Gregoriano, como sustentava o Padre António Marvão, mas o cante Árabe. O Cante Alentejano próximo de uma vivência panteísta seria preexistente à instalação cristã nesta região. A sua intervenção decorre de três grandes vertentes: Introdução, poesia e música.

Julián del Valle, na sua comunicação defendeu a criação de uma escola, sobre a música coral alentejana, à semelhança de uma que foi criada no Chile em 1970 com disciplinas englobando: Psicologia; Antropologia e outras, que no Chile esteve sob o impulso do músico Vitor Jara. Salientou a importância das Autarquias Alentejanas patrocinarem ou impulsionarem essas escolas. Fez uma simbiose entre a música, o coral, as letras, as regiões e a importância de factores estranhos, como seja o comboio.

O Porta-voz da Associação Alma Alentejana, Dr. Eduardo Raposo, na sua comunicação, sustentou que a essência da canção popular portuguesa é rústica e campesina e não urbana. Subscreveu a tese de Lopes Graça, segundo a qual o Povo Alentejano é o mais musical das gentes portuguesas. Considerou que os Corais polifónicos do Baixo Alentejo terão sido oriundos do Cante eclesiástico. Perfilhou a tese da divisão do cante em três grandes grupos. O Cante Tradicional subdividido em cante rural, cante ribeirinho, cante arraiano, cante mineiro, cante do trabalho (este último desprovido de instrumentos musicais). Salientou a vertente da intervenção social do cante alentejano como forma de resistência ao poder e às injustiças, como expressão do carácter digno e altivo do Alentejo.

O painel B comportou cinco comunicações de oradores e diversas intervenções do público no debate.

O Padre António Cartageno referiu na sua comunicação que em 1978 foi editada pela Comissão Diocesana de Liturgia e Musica Sacra de Beja, uma cassete com as primeiras recolhas da música popular religiosa do Baixo Alentejo interpretada pelo Coro do Carmo de Beja. O Alentejo possui um verdadeiro canto popular alentejano, cujo reportório foi agrupado em três temas religiosos, a saber:

                   1. Cânticos de Missa,
                   2. Cânticos de datas tradicionais (Natal, Quaresma, Santos Populares, etc.)
                   3. Cânticos Diversos (para pedir chuva, por exemplo).
Fez notar ainda que a região de Mértola é a mais rica neste tipo de cânticos.         

O Dr. Francisco Torrão fez uma breve historial da transmissão do Cante Alentejano no século XX. A aparição dos primeiros grupos organizados nos anos vinte apoiados pela aparição da rádio e depois da indústria discográfica dos anos trinta. As Casas do Povo do Estado Novo corporativo com grupos de cante. A Casa do Alentejo com um papel insubstituível. A FNAT com a colaboração do Prof. Armando Leça e do coreógrafo Tomás Ribas. Os Etnomusicólogos: Rodney Gallop; Lopes Graça; Michel Giacometti; Padre António Marvão; João Ranita da Nazaré; Salwa Castelo Branco; a Igreja Católica e na Diocese de Beja o Padre António Cartageno e o Cónego António Aparício. Sustentou que nos anos cinquenta o cante alentejano afirmou-se a nível Nacional e Internacional, para o que contribuiu o aparecimento da TV em 1957. O cante alentejano terá vindo a perder autenticidade nos anos sessenta devido a vários factores: divisões na população com as eleições presidenciais de 1958; êxodo dos jovens com a guerra colonial; migrações para Lisboa; aparecimento do nacional cançonetismo; etc. Defendeu que o cante, majestoso e belo não pode ser conectado politicamente. Propôs a constituição da Federação do Folclore do Alentejo, acabando por afirmar que era preciso tirar o cante da pré-história e colocá-lo na história.

O Dr. Domingos Morais do Instituto de Investigação Científica, fez uma reflexão sobre a actualidade do cante qualificando-o, falando no gesto musical, intrinsecamente ligado à colocação da voz. Salientou a importância de tempo dos espaços de voz. Referiu a situação actual do cante alentejano, suas vantagens e desvantagens e preconizou a inclusão de temáticas regionais do cante nos novos currículos escolares a par de cursos de formação de professores. Advogou a necessidade de uma renovação sustentada para que o cante não se reduza a uma vitrine.

O porta voz do Grupo Coral, Alentejano "Os Amigos do Alentejo" do Feijó, Sr. Alho, analisou globalmente os Grupos Corais de Cante na Cintura da Grande Lisboa. Considerou que a quantidade de grupos é boa mas a qualidade é sofrível, nomeadamente devido a aspectos de má apresentação: indivíduos mal equipados, mal posicionados em palco, sobretudo na primeira fila; modas deturpadas desenraizadas do Alentejo; desfiles organizados sem condições; falta de apoio financeiro e logístico das autarquias.

O porta voz do Grupo Cantares de Évora, Sr. Joaquim Soares, na sua comunicação diagnosticou algumas adaptações forçadas: plágios mal conseguidos de modas alentejanas; interpretações corais de forma desgarrada e sem interiorização. Salientou a necessidade dos Grupos Corais utilizarem o valioso cancioneiro, recolher modas junto das populações mais idosas e criar escola pelo trabalho coordenado.

O Painel C comportou seis comunicações de oradores e diversas intervenções no debate.

O Dr. António Lacerda deixou alguns recados e algumas ideias afirmando que há um espólio valiosíssimo de cante que ainda está na gaveta sem ser dado a conhecer. Preconizou a valorização da cultura rural, incluindo o leccionar o cante nas escolas, o que poderia ser feito na área escolar curricular. A escola pode ser um reactivador da cultura tradicional, tendo como parceiros os animadores associativos e municipais. Compara o cante com o mundo rural dizendo que existe um porque existe o outro, pairando sobre ambos ameaças iguais. Recordou que já Manuel da Fonseca dizia que a nossa cultura está nos cemitérios; recorda a existência de um espólio sobre a matéria de Armando Leça, algures "preso" na RDP e outro de Michel Giacometti, engavetado... Faz um apelo para que todos partilhem e afirmem esta cultura: o cante alentejano ser cantado em grupo dá uma característica etnomusical peculiar. Destacou a importância das Federações como agentes de promoção de intercâmbios entre grupos alentejanos e outros, no sentido de um maior entrelaçamento.

O Dr. Marcos Olímpio referiu que a crescente urbanização fazendo com que no ano 2000, mais de metade da população viva nas cidades, sedes de concelho no Alentejo, fará muitas crianças ignorar a vida no campo e o cante alentejano conexo a esta. A globalização cultural ataca a cultura local, mas o cante deverá permanecer, dado ser diferente e dada a necessidade de comunidades de alentejanos em Lisboa, Faro, Marinha Grande ou no estrangeiro tem de preservar a sua identidade.

O Dr. José Simão Miranda declarou que em 1974 havia 18 Grupos de Cantadores Alentejanos, sendo 14 no distrito de Beja; 3 no distrito de Évora e 1 em Lisboa. Hoje existem 107: sendo 7 dos quais femininos e 5 infantis; 63 em Beja, 13 em Évora, 6 em Setúbal e 25 na zona da Grande Lisboa; isto mobiliza 2.466 elementos; a média de idade é elevada: Beja 56 anos; Évora 50.

O porta voz da Associação de Cante Alentejano "Os Ganhões, Sr. Francisco Caipirra sustentou que o contexto motivador do cante alentejano era o "trabalho agrícola" no Alentejo, sócio economicamente diferente do de hoje. O cante tem que ser dinâmico, falar dos tempos que corre para permanecer vivo. Preconizou a criação de um organismo que apoie os grupos corais, não apenas na preservação do cante mas também do despique, do baldão e da viola campaniça. Debateu a questão de os trajes serem ou não a rigor, duas posições contrárias se manifestaram: uma preconizando a ligação indissociável entre o cante e o traje a rigor; outra dissociando os dois factores para captar os jovens. Foi ainda contestado o conceito de alentejano, a diversidade do cante enriquece-o ou desvirtua-o?

O porta voz do Grupo Coral Alentejano "Os Amigos do Barreiro" Sr. José Coelho, na sua comunicação questionou os limites geográficos do conceito alentejano, referindo que em 1986 o seu grupo foi secundarizado, num concurso de cante alentejano, por estar sediado no Barreiro. Debateram-se ainda deficiências de organização nos desfiles dos grupos corais, como por exemplo a repetição das mesmas modas por vários grupos e indagou-se qual a região do Alentejo que tem o cante mais puro.

O Painel D na vertente do ensino e etnografia, comportou seis comunicações de oradores, além das intervenções do público no debate.
                  
O Professor José Rabaça Gaspar na sua comunicação preconizou a criação de um Instituto Alentejano de Cultura e Desenvolvimento, função que caberia prioritariamente à Direcção da Revista Arquivo de Beja e ao seu Concelho Editorial. Defendeu que se houvesse uma norma padrão de língua Portuguesa, seria o Alentejo que editaria a norma, tanto na língua como na música. Defendeu que no cante os poetas populares não são menores. Terminou afirmando querer contribuir para todas as formas de Instituição da Cultura Alentejana.

O Dr. José Orta, na sua comunicação defendeu um projecto inter-disciplinar de estudo e desenvolvimento do cante alentejano dividido em três vertentes ou secções:
1.      Sócio-antropológico
Ao nível da etnologia estudará as estruturas e funções especiais do cante, no quadro da cultura e da sociedade regionais.

2.      Etnomusicológico                
Fará o levantamento do cante actual e da sua evolução ao longo da história e procurará implantá-lo        em ensino pré-escolar e básico.

3.      Poética                                 
Visará a caracterização linguística e poética por tema, reflectindo-se no ensino a aprendizagem do Português nas escolas.
Falou no projecto de Beja sobre o cante, coordenado pela Direcção da Revista Arquivo de Beja, com vários professores Universitários, lendo a propósito um pequeno texto. Terminou por falar na fuga para a frente, nos aspectos regionais, cultura incluída.

A Drª. Maria José Barriga, na sua comunicação salientou a quase total ausência de documentação existente, até hoje, sobre o cante ao baldão, específico da serra do Baixo Alentejo, acompanhado por violas campaniças, falando sobre as origens, locais, tradições e situação actual.

O porta voz do Grupo Coral, Alentejano, "Os Unidos do Lavradio", Prof. Carlos Botelho, criticou a automatização dos grupos corais, desligados uns dos outros e defendeu a criação de uma organização abrangente que os enquadre a todos. Advogou que os grupos corais não devem ser instrumentalizados, mas sim apoiados pelos municípios.

O Dr. José Francisco Colaço Guerreiro, representante da Cortiçol, na sua comunicação teorizou a necessidade de iniciar um movimento de opinião que conduza à classificação do Cante como Património do Alentejo e um movimento de afirmação junto das Autarquias para que estas, então, reconheçam os grupos corais como parceiros culturais privilegiados. Decorre daqui a necessidade de surgir uma Federação do Cante Alentejano, ainda que este não seja o momento ideal para a constituir. É preciso um grande sentimento de organização, daí o seu lema "Organizar para fortalecer".

O Cónego António Aparício na sua comunicação, pôs em relevo o autor popular da cantiga alentejana referindo ter conhecido um compositor analfabeto que em primeiro idealizava as músicas e depois pensava nos versos. Salientou que o cante alentejano de expressão religiosa deixa de ser de um grupo restrito e contagia a Assembleia visto que tem o dom de agregar harmoniosamente todas as pessoas. Completou a sua intervenção falando de cantes religiosos do Alentejo, em complemento da intervenção do padre António Cartageno.

O Painel D na vertente das Formas de Divulgação, comportou  cinco comunicações de oradores, além das intervenções do público no debate.

A Drª. Alda Goes, na sua comunicação, afirmou a vocação da Fonoteca Municipal da Câmara de Lisboa para a promoção e divulgação da música nas suas várias expressões. Referiu o trabalho do Grupo Coral de Tires traduzido em inúmeras actuações públicas, como forma de difusão do cante e cultura alentejana. Fez um breve historial do estudo e divulgação da música tradicional portuguesa de 1822 a 1920; de 1920 a 1974 e 1974 até hoje, citando bibliografia, artigos de jornais e revistas, gravações musicais e CDs. Criticou a grande lacuna dos "Mass média" de âmbito Nacional de difusão da cultura popular, local, em particular do cante. Explicitou os diversos métodos de divulgação do cante, dando preponderância à gravação audiovisual da música. Referiu, ainda, as instituições vocacionadas com o canal de difusão do cante.

O representante da Casa do Alentejo, Sr. José Pereira Júnior, na sua comunicação salientou o papel desta Instituição, na promoção mediática, cultural e financeira deste Congresso. Acentuou que as rádios, os jornais e a televisão, muitas vezes condicionados pelo poder político ou social em pouco ou nada servem à difusão da cultura tradicional e do cante alentejano.

Rui Bebiano, na sua comunicação sustentou que a criação de um organismo digital de música, letras, imagens e texto consultável vinte e quatro horas por dia, em qualquer ponto do Globo, na Internet, pode proporcionar um salto qualitativo, em frente, na divulgação do cante e da cultura alentejana, em geral.

O representante do Grupo Coral e Etnográfico "Os Rurais" de Figueira de Cavaleiros, Sr. Luis Franganito, na sua comunicação salientou o papel importante do Padre José Alcobia, no empenhamento e interesse manifestado ao longo de toda a sua vida bem como na divulgação e valorização do cante alentejano.

Artur Mendonça, na sua comunicação salientou a importância que tem a encenação e valorização com a vertente do som e da luminotecnia no cante.



RESUMO DAS CONCLUSÕES:

Podemos sintetizar em seis pontos as grandes conclusões deste Congresso:

1. O incentivo à investigação da génese, ainda desconhecida, em certa medida, do cante alentejano, havendo quem sustente a sua origem gregoriana, eclesiástica ou cristã e quem advogue a sua origem arábica ou islâmica.

2. O desenvolvimento de esforços no sentido da constituição de um organismo que seja depositário da memória da idiossincrasia do cante alentejano - um arquivo audiovisual do Alentejo. Neste deverão figurar as gravações sonoras (comerciais ou de campo); os registos visuais dos grupos de cante entoando as melodias, narrando estórias da vida, etc.; os livros e diverso material iconográfico; os trajes; os objectos de artesanato, de trabalho, mineiro, rural, etc.; a colaboração com as Universidades ou outras escolas, onde leccionem especialistas do cante, poderá e deverá existir. Poderá este arquivo estar incluído num futuro Instituto Alentejano da Cultura e Desenvolvi-mento.

3. A inserção da teoria e da prática do cante alentejano nos programas escolares, havendo quem sustente essa incorporação nas escolas de ensino público e quem defenda a criação de escolas de cante independentes do poder do Estado.

4. A preservação da etnomusicologia alentejana como um todo (o cante, o despique, o baldão a viola campaniça), nesta matéria as opiniões dividem-se, os mais fixistas sustentam que os espectáculos de cante se devem realizar com o traje a rigor tradicional; outros evolucionistas advogam que o cante deve manter a sua genuinidade musical, mas as letras das canções e os trajes podem evoluir e ser adaptados a este final do século XX e a inclusão no cante da voz feminina.

5. A vinculação das autarquias em todos os concelhos alentejanos, na defesa e propagação do cante. As câmaras municipais deverão dar apoio logístico (transporte, sedes para grupos corais, imprensa, etc.) e financeiro aos grupos e escolas de cante, sem que estas caiam no domínio da política partidária.

6. A formação de uma federação de folclore alentejana - a Federação de Grupos Corais Alentejanos que poderá ser a força motriz da formação do arquivo audiovisual do cante alentejano e dos próximos Congressos do cante alentejano.


Beja, 9 de Novembro de 1997