segunda-feira, julho 08, 2019

04. 137 TRATADO DO CANTE – À minha moda

Modas e Cantigas:


O Alentejano no seu deambular e entendendo o que o rodeia, e com a sua fértil inspiração, para quase tudo, tem uma moda (canção tradicional alentejana).


Na rua 8, BB existem alguns ninhos de andorinhas e no caminho para o café reparámos no vai-vem dos pais a dar de comer aos filhos que estão no ninho. É vê-los com o biquinho aberto à sua chegada.


Hoje, “Bem podia a andorinha”:

Moda:
Bem podia a andorinha
Fazer paragem no chão
Bem podia o meu amor
Ser firme ao meu coração.

Ser firme ao meu coração
Ser firme e não me enganar
Bem podia a andorinha
Fazer paragem no ar.

Cantigas:
I
Bem podia quem tem muito
Repartir com quem não tem
O rico ficava rico
O pobre ficava bem.

II
As pombas quando namoram
Firmam as asas no chão
Que é para os pombos não verem
O bater do coração.


Fonte: Campaniça Trio.


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domingo, julho 07, 2019

09 003 TRATADO DO CANTE - Escrito:

TERRAS DE FOGO - Prólogo

(…)

Depois carecemos surpreender as eiras na faina ardente do meio-dia …; assistir à abalada dessa gente que, mal a madrugada lampeja, lá vai em coros matinais, caminho das ceifas e apanha de legumes, e vê-la no regresso, à noitinha, transpondo as muralhas do burgo, braços dados, cores garridas, caras morenas e vermelhas bocas a cantar; atentar nas suas festas, bailes, fogueiras de São João, arraiais, romarias com touradas bravas, e esses opulentíssimos certames de movimento e cor, que são as feiras e mercados, onde todos os cambiantes da vida moral e social alentejana denunciam costumes, paisagem, e tudo absorvido do mais pitoresco tradicionalismo.
Passando um dia por esta região, mais ao Sul, notei que havia uns poços empedrados e outros com pesadas tampas de ferro. Não sei bem porquê, mais do que se fossem sepulcros, me impressionaram aqueles poços cerrados…

Perguntei o motivo, e entre as razões que me deram avultava a de suicídios – suicídios de gente moça que se apaixonava com violência por qualquer contrariedade vulgar ou detalhe de amor.
Compreendi, assim, toda a dolência e melancolia que eles emprestam às suas modas e cantares por essas noites cálidas, calmosas, misteriosas noites de levante e de queimadas…
(…)”



In: “Terras de Fogo” – 2ª Edição. De Julião Quintinha. Desenhos da capa de Bernardo Marques. Edição do autor. 1923.