segunda-feira, dezembro 16, 2013

TRATADO DO CANTE:
 

 "Corais Alentejanos", de JFP, Ed. Margem, 1997

José Francisco Pereira, autor do livro "Corais Alentejanos", nasceu em Montoito, no Concelho do Redondo.
A obra publicada em 1997 é um primeiro trabalho de recolha e reflexão, sobre a problemática do "Cante" Alentejano, que acabou por servir de suporte e motor do «Congresso de "Cante" Alentejano», realizado em Beja, em Novembro de 1997.
Sobre "Corais Alentejanos" e o seu autor escreveu em prefácio o músico Chileno Julián del Valle: - Conheci o José Pereira na Casa do Alentejo e percebi o seu interesse e carinho pela outra Pátria: "A Alentejana", o seu imenso amor pelo "Cante" (...) este trabalho vem indubitavelmente permitir um melhor e mais profundo enriquecimento do "Cante" Alentejano.

TRATADO DO CANTE:

 “ RECORDAR É VIVER ” - O QUE SE DISSE SOBRE...
 “Cantadores de S. Aleixo da Restauração”
 
Grupo Coral da Casa do Povo de S. Aleixo da Restauração, na Amareleja

Do jornal “Luzeiro”, retirámos uma interessante crónica, assinada por A. Delfino.
Neste número, transcrevemos o que de mais interessante se disse naquele periódico:
“ Ainda ecoam aos nossos ouvidos e na nossa memória as melodias cantadas nas tardes e noites quentes de verão ou à porta das casas quando as pessoas se sentavam à noite depois de um dia de labuta árdua, em Santo Aleixo.
Nos Cantos, mais propriamente onde passei a minha infância, era aí que eu ouvia os rapazes novos e os homens mais velhos cantarem modas, que na altura eram novas, tais como: “Olha o papagaio de pena amarela”, “Viva Moura das Vilas Rainha”, “Se fores ao Alentejo”, “Levantei-me um dia cedo”, etc...
(...)
Segundo se dizia na altura, Santo Aleixo não se teria classificado por não saber cantar em andamento. Fê-lo de roda, como costume de sempre, que ainda hoje se mantém quando as pessoas cantam pelas ruas. Tomaram parte nesse concurso, além de Santo Aleixo, os grupos de Moura e de Amareleja.
(...)
Mas, recuando no tempo, e segundo se tem dito e afirmado, é nos anos 20, 30 e 40 que Santo Aleixo tem o melhor e maior número de bons cantadores, que fizeram escola, e cujo nome de alguns figuram na História de Santo Aleixo.(...)
No ano de 1933 o grupo fez a sua primeira participação, de que há memória, em concursos. Foi em Moura, no jardim. Tomaram parte os grupos de Serpa, Amareleja, e Aldeia Nova. Neste concurso, Santo Aleixo impôs-se aos demais concorrentes, pois era difícil cantar melhor do que Santo Aleixo nessa altura.
Conta-se que o Grupo de Serpa trazia uma mulher juntamente cantando com os homens o que teria levado o júri a atribuir-lhe o primeiro lugar, contrariando o público, que esperava que Santo Aleixo ganhasse. Mas parece que a decisão final, já nesse tempo longínquo, teve a política a fazer prevalecer os poderosos e a relegar o melhor grupo para o lugar secundário. (...)
A 2..ª atuação do Grupo de Santo Aleixo foi 5 anos mais tarde, em 22-8-38, em Moura, na esplanada de Santa Justa. (...) Não houve atribuição de prémio nesta atuação.
(...)
No ano de 1940 o Grupo de Santo Aleixo participou em Ficalho numa gravação para a Casa do Alentejo, juntamente com os Grupos de Serpa e de Ficalho. Este trabalho era dirigido pelo Dr. Valente Machado, de Ficalho, que na altura fazia parte dos corpos diretivos da Casa do Alentejo, em Lisboa.
(...)
No ano de 1952 Santo Aleixo participa no Grande Concurso de Cantares Alentejanos na Casa do Alentejo, em Lisboa.
(...)
Participaram Grupos de quase todo o Alentejo, até o Grupo de Reguengos de Monsaraz, do Alto Alentejo. (...) Serpa venceu o Concurso e Santo Aleixo ficou em 6º lugar. Mas nessa altura Serpa possuía um Grupo difícil de bater e que marcou uma época na História dos Cantares Alentejanos.
A Emissora Nacional transmitiu através da rádio parte do Concurso, mas por algum motivo que se desconhece, as modas do Grupo de Santo Aleixo só puderam ser ouvidas oito dias depois, no programa “ A Voz do Campo “, por influência da Editora Valentim de Carvalho, para a qual o Grupo gravara o disco. Este acontecimento fez deslocar muitas pessoas às Sociedades Recreativas, para ouvirem as modas através da rádio, pois na altura poucas pessoas possuíam rádio.
(...)
Este acontecimento foi um dos maiores da história do Grupo de Santo Aleixo. (...)
No decorrer dos anos 50 o Grupo de Santo Aleixo deslocou-se várias vezes a Moura, onde se realizavam concursos entre os Grupos do Concelho, ora pelo S. João, nos Santos Populares, ora em Outubro por altura das Festas de Nossa Senhora do Carmo. Os referidos concursos efetuavam-se normalmente na Praça de Touros e tinham sempre modas obrigatórias que contavam para a classificação dos Grupos e atribuição dos prémios.
(...)
Santo Aleixo, através do Grupo dos homens, fez uma exibição inesquecível, que levantou a Praça, cantando a moda “Meu Alentejo Dourado”. Mas inesperadamente foi o Sobral da Adiça que conquistou o 1º lugar do concurso, tendo Santo Aleixo sido relegado para o 2º lugar. Contrariando o vaticínio da assistência esta decisão do júri levantou uma trovoada de protestos da assistência que enchia por completo a Praça. O júri foi alvo de grandes críticas e apupos e alguns comentários de espectadores mais exaltados.
(...)
O Grupo de Moura, com extraordinários cantadores e apresentando uma moda nova que fez sensação na época “Ó Moura Linda” teve a infelicidade de se enganar ao entrar na Praça e foram fortemente apupados pelos seus conterrâneos que não lhes perdoaram o engano.
Nesse mesmo ano, em Outubro, o Grupo de Santo Aleixo voltou a cantar em Moura.
(...)
A moda obrigatória desse concurso foi a “Nossa Senhora d’Aires”. Voltou novamente a ganhar o Sobral da Adiça, desta vez com Justiça. A moda era de difícil execução e eles foram os únicos que a conseguiram cantar em andamento, o que era bastante difícil. Moura voltou a estar presente e como anteriormente apresentou uma moda nova essa que perdurará para sempre: “Nossa Senhora do Carmo”. Tomou parte neste concurso pela 1ª vez um Grupo da Póvoa de S. Miguel.
(...)
Devo referir que nessas épocas Augusto Escoval (já falecido) ensaiou e preparou um grupo de miúdos que se exibiram numa noite de baile na Sociedade do Pim-Pim com bastante êxito. Nesse grupo também se revelaram miúdos de grande talento que mais tarde viriam a integrar o grupo dos homens. ”


ANTÓNIO DELFINO

in: Boletim do Cante alentejano nº. 2 de Outubro de 1997.