sábado, dezembro 15, 2018

TRATADO DO CANTE - Gente do Cante:


VICENTE RODRIGUES


Personalidade incontornável do nosso Cante. Quem não se lembra das: "Cantarinhas de Beringel"; “As Flores da minha terra”; entre outras. Criações sua!
Nasceu a 2 de Novembro de 1910 e faleceu em 12 de Janeiro de 1982. Natural de Alcáçovas, residiu deste tenra idade até ao fim dos seus dias, na Vila do Torrão. Comerciante, proprietário de uma loja situada na rua dos Cardins, onde se podia comprar do azeite as chitas, riscados ou tecidos de la, Vicente Rodrigues mantinha nesse espaço privilegiado internos contactos humanos. Muitos se recordarão ainda mesmo aqueles para quem se torna necessário recorrer a memórias de infância, da figura roliça, Calva de cara redonda, por detrás do velho balcão corrido, aviando o azeite a medida dos tostões da cliente ou medindo pano: bem disposto e comunicativo. O seu discurso deixava contudo transparecer uma certa ironia amarga mal disfarçada nas suas frequentes "mangações". Foi como dramaturgo e sobretudo encenador que primeiramente conquistou o apreço e admiração da população do Torrão que hoje lhe presta sentida homenagem. As suas peças de teatro fornecem do mundo uma visão maniqueista: o bem sai vencedor e o mal punido. A pureza feminina, o casamento por amor, a vida no campo (em oposição á na cidade) são valores exaltados. A linguagem é simples e directa e a simbologia utilizada possui carácter vincadamente popular; rosa-donzela, cravo-homem jovem, branco-pureza, etc. Num meio de grande pobreza cultural, Vicente Rodrigues, persistentemente, todos os anos, montava o espectáculo teatral, muitas vezes depois de ter escrito a peça, preparado actores e cenário e vencido as mais diversas dificuldades. "Na Páscoa havia teatro do Vicente". Esse espectáculo iria lançar as canções que durante o ano seriam trauteadas por crianças e velhos e, sobretudo, acordava na consciência de cada uma consciência colectiva que Vicente Rodrigues guardava ano após ano mantinha viva. Foi sem dúvida como animador cultural espantoso bem inserido no meio, por ser filho e a ele dedicou tanto amor, Vicente Rodrigues conquistou um lugar muito especial no coração da população do torrão. A produção poética de Vicente Rodrigues, em grande parte destinada a ser cantada, é diversificada e reflecte quer as preocupações existenciais do autor quer problemas de cariz local.
Nota: Este texto é da página da Junta de Freguesia do Torrão.

...ou de outra coisa qualquer
Autor: Vicente Rodrigues

Nem mais uma espingarda
de lata
ou de prata
eu hei-de oferecer ao menino
que fez anos
Nem mais um canhão
de latão
ou de oiro
eu hei-de oferecer ao menino
que não fez anos
Nem mais um bombardeiro
de plástico
ou de uma outra coisa qualquer
eu hei-de oferecer ao menino
que fez ou que não fez
anos
A noite (recitativo)
Autor: Vicente Rodrigues

Há muito já que, para além do monte
O Sol se foi, numa agonia lenta
Deixando a pairar, no horizonte
Um rasto de luz, vermelha e sangrenta
E chegou a Noite, a apagar
O último lampejo do clarão…
Agora, na Aldeia de encantar,
Tudo é tristeza e solidão…
Mas… Ó milagre! Milagre do Céu
Caído por sobre toda a Aldeia
À luz do Sol que, há pouco, se escondeu
Ressurge, bela e pura, na Lua Cheia!
A tal esperança
Autor: Vicente Rodrigues

A tal esperança a verde esperança
que anda sempre na gente
anda de facas nas costas
e de espingardas p’la frente.
E de espingardas p’la frente
de sangue toda enfeitada.
A tal esperança verde esperança
é uma rosa encarnada
Nasce um homem nasce a esperança
que à frente dum homem corre.
Morre um homem mas a esperança
ainda bem que não morre.
Adeus Torrão!
Autor: Vicente Rodrigues

Ó terra querida, ridente, formosa
Ó meu Torrão, meu cantinho ideal
Tu, para mim, és a mais linda rosa
deste canteiro em flor que é Portugal!
Se o céu pudesse ainda atender
a minha prece, esta tal e qual:
De ti faria o meu Torrão natal
aqui seria o fim do meu viver!
Ai, ai!
Adeus, terra linda
Ó da graça infinda
e bela, sem par!
Ai, ai!
Meu coração chora
Por ter de ir-se embora
e querer cá ficar!
Tua ribeira de azenhas velhinhas
que o alvo pão nos dão no seu girar
As tuas casas, caiadas, branquinhas
brilhando ao Sol e, à noite, ao luar!
A tua voz – ai! – é de tal encanto
de encanto, são tuas belas canções
Tristes, dolentes, a lembrar o pranto
que a saudade traz aos corações!
Ai que o Sol já vai a pino
Autor: Vicente Rodrigues

Ai, dias de Maio-Junho
ai, dias de ceifar trigo
ai, dias de foice em punho
a escorrer suor comigo.
A escorrer suor comigo
debaixo de sol em brasa.
O sol não é meu amigo – BIS
o sol por mim não faz vasa!
As flores da minha terra
Autor: Vicente Rodrigues

Ouvi dizer que a Cidade
Ia à praça vender flores
Vender flores é maldade
É maldade, sim, senhores!
É maldade, sim, senhores
Vender um amor-perfeito
Só pode vender amores
Quem não traga amor no peito!
Um raminho de violetas
À minha terra chamaram
As gentes das mais selectas
Que às suas portas passaram
Que às suas portas passaram
Perfumadas e selectas
E ainda mais o ficaram
P’lo perfume das violetas!
Ai, ai!
Ai, olhai!
Olhai, meus senhores
Minha terra linda
Mais linda é ainda
Por não vender flores!
Não vende, ela, as rosas
Cravos, também não
Que os lírios dão lírios
E os tristes martírios
Té saudades, dão!
Cantarinhas de Beringel
Autor: Vicente Rodrigues

Cantarinha de Beringel
de fresco barro encarnado
da água doce fazes mel
da fresca doce gelado
ai e essa tua esbelteza
que uma tal graça encerra
foi roubá-la a Natureza
prás moças da minha terra.
Cantarinha de Beringel
minha linda cantarinha
pequenina graciosa
delicada donairosa
ai toda tão maneirinha
as moças da minha terra
modeladas a cinzel
pequeninas delicadas
são como tu engraçadas
cantarinhas de Beringel.
Quando o sol no horizonte
vai morrendo p’la tardinha
lá vai a moça prá fonte
à cabeça a cantarinha
ai a moça é tão formosa
qual bonequita de louça
mas não sei qual mais airosa
se a cantarinha se a moça.
Ó minha vila deserta
Autor: Vicente Rodrigues

Ó minha vila deserta
por bem tristes abaladas
já não há cravos nem rosas
nas tuas casas fechadas.
Nas tuas casas fechadas
já não cantam cotovias
Ó minha vila deserta
sem cravos, rosas nem dias!
Já se lá vai estrada fora
o teu filho derradeiro
deixou seu pão alqueivado
foi semear pão estrangeiro.
Onde estás tu Primavera?
Autor: Vicente Rodrigues

Já se lá foi outro Verão
já se lá vai outro Outono
ai que Invernos que lá vão
deste tempo sem ter dono.
Deste tempo sem ter dono
desta era sem ter era
neste dormir sem ter sono
onde estás tu Primavera?
Saudade
Autor: Vicente Rodrigues

Saudade: eu não sabia
Ai! Não sabia!
Saudade: quem tu eras
Quem tu eras!
Saudade: que eu vivia
Eu vivia!
De doces ilusões, de vãs quimeras!
Saudade: mas, um dia
Triste dia!
Saudade: triste, triste, percebi
Saudade que a minha santa alegria
Já, comigo, não vivia
E, saudade, era de si!
Depois – Ai! Hora a hora, dia a dia
Saudade, a minha alegria,
Foi toda-toda! De ti!