sexta-feira, janeiro 31, 2014

TRATADO DO CANTE: Conclusões do Congresso do Cante. Beja, 8 e 9 de Nvembro de 1997.


 
SESSÃO DE ABERTURA:
Na abertura dos trabalhos falou o Presidente da Assembleia Geral da Casa do Alentejo, Prof. José Chitas, que se congratulou com o evento, apresentou as boas vindas a todos os congressistas e falando na tragédia que assolou o Alentejo pediu um minuto de silêncio em memória das vítimas.
Falou a seguir o Comissário para o Congresso, fazendo uma pequena resenha do caminho trilhado até aqui, do que falta percorrer, terminando por fazer votos de que os trabalhos decorram o melhor possível, no sentido de se achar o melhor caminho para a continuidade e dignificação do Cante Alentejano.

Sob o tema:  ... QUE MODAS ? ... QUE MODOS?

O I Congresso do Cante Alentejano estruturou-se em quatro painéis, ou direcções de estudo e debate. No primeiro dia (8 de Novembro) foram abordados os três temas seguintes:

                   Painel A                    Raízes e Estudo do Cante Alentejano
                   Painel B                    Situação Actual do Cante Alentejano
                   Painel C                    Perspectivas Futuras do Cante Alentejano
No segundo dia (9 de Novembro) foi desenvolvido o último tema, subdividido:
                   Painel D                   Valorização do Cante Alentejano
                                                         Ensino e Etnografia
                                                         Formas de Divulgação

O Dr. José Simão Miranda do Secretariado colocou como objectivo do Congresso, a determinação na genuinidade da origem do Cante Alentejano, através de um intercâmbio de ideias e experiências enriquecedoras.
O Sr. José Roque do Secretariado definiu como objectivo de longo prazo a preservação do Cante Alentejano, reconhecendo que as modas, da zona da grande Lisboa, já não levam, por vezes o timbre genuíno do Cante. O novo Congresso do Cante poderia ter lugar dentro de dois anos.

O painel A comportou cinco comunicações, de oradores, sem contar as intervenções que nasceram do debate com o público.
A Drª. Salwa Castelo Branco, Presidente do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, defendeu a necessidade de criar um arquivo audiovisual Distrital ou Regional do Alentejo que recolha, inventarie e salvaguarde toda a produção fonográfica existente no mercado e todas as gravações de campo do cante e de outras tradições alentejanas. Complementarmente deverá ser recolhida e inventariada a documentação escrita e iconográfica que acompanha as gravações sonoras. Acentuou a necessidade de falar extensamente com os protagonistas do cante e de registar as suas memórias num arquivo aberto ao público. Apontou alguns projectos de investigação que importa desenvolver, nomeadamente:
                   1. O historial da transplantação do cante para a Cintura Industrial de                         Lisboa/Setúbal e efeitos dessa mudança na preservação do cante.
                   2. O papel do cante na vida das comunidades, quer do Alentejo quer em                           Lisboa/Setúbal.
                   3. A relação entre o cante e outras práticas musicais do Alentejo.
                   4. Histórias de vida: A existência e a obra dos poetas, compositores,                           dinamizadores e membros dos grupos corais de cante.
                   5. Relação entre o cante e a organização social e política do Alentejo.
O Dr. Henriques Pinheiro, na sua comunicação destacou, como o melhor trabalho sobre o cante Alentejano o livro "Momentos Vocais do Baixo Alentejo", publicado em 1986, em Portugal de João Ranita da Nazaré. Defendeu como hipótese mais plausível, da origem do Cante Alentejano, não o Cante Gregoriano, como sustentava o Padre António Marvão, mas o cante Árabe. O Cante Alentejano próximo de uma vivência panteísta seria preexistente à instalação cristã nesta região. A sua intervenção decorre de três grandes vertentes: Introdução, poesia e música.
Julián del Valle, na sua comunicação defendeu a criação de uma escola, sobre a música coral alentejana, à semelhança de uma que foi criada no Chile em 1970 com disciplinas englobando: Psicologia; Antropologia e outras, que no Chile esteve sob o impulso do músico Vitor Jara. Salientou a importância das Autarquias Alentejanas patrocinarem ou impulsionarem essas escolas. Fez uma simbiose entre a música, o coral, as letras, as regiões e a importância de factores estranhos, como seja o comboio.
O Porta-voz da Associação Alma Alentejana, Dr. Eduardo Raposo, na sua comunicação, sustentou que a essência da canção popular portuguesa é rústica e campesina e não urbana. Subscreveu a tese de Lopes Graça, segundo a qual o Povo Alentejano é o mais musical das gentes portuguesas. Considerou que os Corais polifónicos do Baixo Alentejo terão sido oriundos do Cante eclesiástico. Perfilhou a tese da divisão do cante em três grandes grupos. O Cante Tradicional subdividido em cante rural, cante ribeirinho, cante arraiano, cante mineiro, cante do trabalho (este último desprovido de instrumentos musicais). Salientou a vertente da intervenção social do cante alentejano como forma de resistência ao poder e às injustiças, como expressão do carácter digno e altivo do Alentejo.

O painel B comportou cinco comunicações de oradores e diversas intervenções do público no debate.
O Padre António Cartageno referiu na sua comunicação que em 1978 foi editada pela Comissão Diocesana de Liturgia e Musica Sacra de Beja, uma cassete com as primeiras recolhas da música popular religiosa do Baixo Alentejo interpretada pelo Coro do Carmo de Beja. O Alentejo possui um verdadeiro canto popular alentejano, cujo reportório foi agrupado em três temas religiosos, a saber:
                   1. Cânticos de Missa,
                   2. Cânticos de datas tradicionais (Natal, Quaresma, Santos Populares, etc.)
                   3. Cânticos Diversos (para pedir chuva, por exemplo).
Fez notar ainda que a região de Mértola é a mais rica neste tipo de cânticos.         
O Dr. Francisco Torrão fez uma breve historial da transmissão do Cante Alentejano no século XX. A aparição dos primeiros grupos organizados nos anos vinte apoiados pela aparição da rádio e depois da indústria discográfica dos anos trinta. As Casas do Povo do Estado Novo corporativo com grupos de cante. A Casa do Alentejo com um papel insubstituível. A FNAT com a colaboração do Prof. Armando Leça e do coreógrafo Tomás Ribas. Os Etnomusicólogos: Rodney Gallop; Lopes Graça; Michel Giacometti; Padre António Marvão; João Ranita da Nazaré; Salwa Castelo Branco; a Igreja Católica e na Diocese de Beja o Padre António Cartageno e o Cónego António Aparício. Sustentou que nos anos cinquenta o cante alentejano afirmou-se a nível Nacional e Internacional, para o que contribuiu o aparecimento da TV em 1957. O cante alentejano terá vindo a perder autenticidade nos anos sessenta devido a vários factores: divisões na população com as eleições presidenciais de 1958; êxodo dos jovens com a guerra colonial; migrações para Lisboa; aparecimento do nacional cançonetismo; etc. Defendeu que o cante, majestoso e belo não pode ser conectado politicamente. Propôs a constituição da Federação do Folclore do Alentejo, acabando por afirmar que era preciso tirar o cante da pré-história e colocá-lo na história.
O Dr. Domingos Morais do Instituto de Investigação Científica, fez uma reflexão sobre a actualidade do cante qualificando-o, falando no gesto musical, intrinsecamente ligado à colocação da voz. Salientou a importância de tempo dos espaços de voz. Referiu a situação actual do cante alentejano, suas vantagens e desvantagens e preconizou a inclusão de temáticas regionais do cante nos novos currículos escolares a par de cursos de formação de professores. Advogou a necessidade de uma renovação sustentada para que o cante não se reduza a uma vitrine.
O porta voz do Grupo Coral, Alentejano "Os Amigos do Alentejo" do Feijó, Sr. Alho, analisou globalmente os Grupos Corais de Cante na Cintura da Grande Lisboa. Considerou que a quantidade de grupos é boa mas a qualidade é sofrível, nomeadamente devido a aspectos de má apresentação: indivíduos mal equipados, mal posicionados em palco, sobretudo na primeira fila; modas deturpadas desenraizadas do Alentejo; desfiles organizados sem condições; falta de apoio financeiro e logístico das autarquias.
O porta voz do Grupo Cantares de Évora, Sr. Joaquim Soares, na sua comunicação diagnosticou algumas adaptações forçadas: plágios mal conseguidos de modas alentejanas; interpretações corais de forma desgarrada e sem interiorização. Salientou a necessidade dos Grupos Corais utilizarem o valioso cancioneiro, recolher modas junto das populações mais idosas e criar escola pelo trabalho coordenado.

O Painel C comportou seis comunicações de oradores e diversas intervenções no debate.
O Dr. António Lacerda deixou alguns recados e algumas ideias afirmando que há um espólio valiosíssimo de cante que ainda está na gaveta sem ser dado a conhecer. Preconizou a valorização da cultura rural, incluindo o leccionar o cante nas escolas, o que poderia ser feito na área escolar curricular. A escola pode ser um reactivador da cultura tradicional, tendo como parceiros os animadores associativos e municipais. Compara o cante com o mundo rural dizendo que existe um porque existe o outro, pairando sobre ambos ameaças iguais. Recordou que já Manuel da Fonseca dizia que a nossa cultura está nos cemitérios; recorda a existência de um espólio sobre a matéria de Armando Leça, algures "preso" na RDP e outro de Michel Giacometti, engavetado... Faz um apelo para que todos partilhem e afirmem esta cultura: o cante alentejano ser cantado em grupo dá uma característica etnomusical peculiar. Destacou a importância das Federações como agentes de promoção de intercâmbios entre grupos alentejanos e outros, no sentido de um maior entrelaçamento.
O Dr. Marcos Olímpio referiu que a crescente urbanização fazendo com que no ano 2000, mais de metade da população viva nas cidades, sedes de concelho no Alentejo, fará muitas crianças ignorar a vida no campo e o cante alentejano conexo a esta. A globalização cultural ataca a cultura local, mas o cante deverá permanecer, dado ser diferente e dada a necessidade de comunidades de alentejanos em Lisboa, Faro, Marinha Grande ou no estrangeiro tem de preservar a sua identidade.
O Dr. José Simão Miranda declarou que em 1974 havia 18 Grupos de Cantadores Alentejanos, sendo 14 no distrito de Beja; 3 no distrito de Évora e 1 em Lisboa. Hoje existem 107: sendo 7 dos quais femininos e 5 infantis; 63 em Beja, 13 em Évora, 6 em Setúbal e 25 na zona da Grande Lisboa; isto mobiliza 2.466 elementos; a média de idade é elevada: Beja 56 anos; Évora 50.
O porta voz da Associação de Cante Alentejano "Os Ganhões, Sr. Francisco Caipirra sustentou que o contexto motivador do cante alentejano era o "trabalho agrícola" no Alentejo, sócio economicamente diferente do de hoje. O cante tem que ser dinâmico, falar dos tempos que corre para permanecer vivo. Preconizou a criação de um organismo que apoie os grupos corais, não apenas na preservação do cante mas também do despique, do baldão e da viola campaniça. Debateu a questão de os trajes serem ou não a rigor, duas posições contrárias se manifestaram: uma preconizando a ligação indissociável entre o cante e o traje a rigor; outra dissociando os dois factores para captar os jovens. Foi ainda contestado o conceito de alentejano, a diversidade do cante enriquece-o ou desvirtua-o?
O porta voz do Grupo Coral Alentejano "Os Amigos do Barreiro" Sr. José Coelho, na sua comunicação questionou os limites geográficos do conceito alentejano, referindo que em 1986 o seu grupo foi secundarizado, num concurso de cante alentejano, por estar sediado no Barreiro. Debateram-se ainda deficiências de organização nos desfiles dos grupos corais, como por exemplo a repetição das mesmas modas por vários grupos e indagou-se qual a região do Alentejo que tem o cante mais puro.

O Painel D na vertente do ensino e etnografia, comportou seis comunicações de oradores, além das intervenções do público no debate.
O Professor José Rabaça Gaspar na sua comunicação preconizou a criação de um Instituto Alentejano de Cultura e Desenvolvimento, função que caberia prioritariamente à Direcção da Revista Arquivo de Beja e ao seu Concelho Editorial. Defendeu que se houvesse uma norma padrão de língua Portuguesa, seria o Alentejo que editaria a norma, tanto na língua como na música. Defendeu que no cante os poetas populares não são menores. Terminou afirmando querer contribuir para todas as formas de Instituição da Cultura Alentejana.
O Dr. José Orta, na sua comunicação defendeu um projecto inter-disciplinar de estudo e desenvolvimento do cante alentejano dividido em três vertentes ou secções:
1.      Sócio-antropológico
Ao nível da etnologia estudará as estruturas e funções especiais do cante, no quadro da cultura e da sociedade regionais.
2.      Etnomusicológico                
Fará o levantamento do cante actual e da sua evolução ao longo da história e procurará implantá-lo        em ensino pré-escolar e básico.
3.      Poética                                 
Visará a caracterização linguística e poética por tema, reflectindo-se no ensino a aprendizagem do Português nas escolas.
Falou no projecto de Beja sobre o cante, coordenado pela Direcção da Revista Arquivo de Beja, com vários professores Universitários, lendo a propósito um pequeno texto. Terminou por falar na fuga para a frente, nos aspectos regionais, cultura incluída.
A Drª. Maria José Barriga, na sua comunicação salientou a quase total ausência de documentação existente, até hoje, sobre o cante ao baldão, específico da serra do Baixo Alentejo, acompanhado por violas campaniças, falando sobre as origens, locais, tradições e situação actual.
O porta voz do Grupo Coral, Alentejano, "Os Unidos do Lavradio", Prof. Carlos Botelho, criticou a automatização dos grupos corais, desligados uns dos outros e defendeu a criação de uma organização abrangente que os enquadre a todos. Advogou que os grupos corais não devem ser instrumentalizados, mas sim apoiados pelos municípios.
O Dr. José Francisco Colaço Guerreiro, representante da Cortiçol, na sua comunicação teorizou a necessidade de iniciar um movimento de opinião que conduza à classificação do Cante como Património do Alentejo e um movimento de afirmação junto das Autarquias para que estas, então, reconheçam os grupos corais como parceiros culturais privilegiados. Decorre daqui a necessidade de surgir uma Federação do Cante Alentejano, ainda que este não seja o momento ideal para a constituir. É preciso um grande sentimento de organização, daí o seu lema "Organizar para fortalecer".
O Cónego António Aparício na sua comunicação, pôs em relevo o autor popular da cantiga alentejana referindo ter conhecido um compositor analfabeto que em primeiro idealizava as músicas e depois pensava nos versos. Salientou que o cante alentejano de expressão religiosa deixa de ser de um grupo restrito e contagia a Assembleia visto que tem o dom de agregar harmoniosamente todas as pessoas. Completou a sua intervenção falando de cantes religiosos do Alentejo, em complemento da intervenção do padre António Cartageno.
 
O Painel D na vertente das Formas de Divulgação, comportou  cinco comunicações de oradores, além das intervenções do público no debate.
A Drª. Alda Goes, na sua comunicação, afirmou a vocação da Fonoteca Municipal da Câmara de Lisboa para a promoção e divulgação da música nas suas várias expressões. Referiu o trabalho do Grupo Coral de Tires traduzido em inúmeras actuações públicas, como forma de difusão do cante e cultura alentejana. Fez um breve historial do estudo e divulgação da música tradicional portuguesa de 1822 a 1920; de 1920 a 1974 e 1974 até hoje, citando bibliografia, artigos de jornais e revistas, gravações musicais e CDs. Criticou a grande lacuna dos "Mass média" de âmbito Nacional de difusão da cultura popular, local, em particular do cante. Explicitou os diversos métodos de divulgação do cante, dando preponderância à gravação audiovisual da música. Referiu, ainda, as instituições vocacionadas com o canal de difusão do cante.
O representante da Casa do Alentejo, Sr. José Pereira Júnior, na sua comunicação salientou o papel desta Instituição, na promoção mediática, cultural e financeira deste Congresso. Acentuou que as rádios, os jornais e a televisão, muitas vezes condicionados pelo poder político ou social em pouco ou nada servem à difusão da cultura tradicional e do cante alentejano.
Rui Bebiano, na sua comunicação sustentou que a criação de um organismo digital de música, letras, imagens e texto consultável vinte e quatro horas por dia, em qualquer ponto do Globo, na Internet, pode proporcionar um salto qualitativo, em frente, na divulgação do cante e da cultura alentejana, em geral.
O representante do Grupo Coral e Etnográfico "Os Rurais" de Figueira de Cavaleiros, Sr. Luis Franganito, na sua comunicação salientou o papel importante do Padre José Alcobia, no empenhamento e interesse manifestado ao longo de toda a sua vida bem como na divulgação e valorização do cante alentejano.
Artur Mendonça, na sua comunicação salientou a importância que tem a encenação e valorização com a vertente do som e da luminotecnia no cante.

RESUMO DAS CONCLUSÕES:
Podemos sintetizar em seis pontos as grandes conclusões deste Congresso:

1. O incentivo à investigação da génese, ainda desconhecida, em certa medida, do cante alentejano, havendo quem sustente a sua origem gregoriana, eclesiástica ou cristã e quem advogue a sua origem arábica ou islâmica.

2. O desenvolvimento de esforços no sentido da constituição de um organismo que seja depositário da memória da idiossincrasia do cante alentejano - um arquivo audiovisual do Alentejo. Neste deverão figurar as gravações sonoras (comerciais ou de campo); os registos visuais dos grupos de cante entoando as melodias, narrando estórias da vida, etc.; os livros e diverso material iconográfico; os trajes; os objectos de artesanato, de trabalho, mineiro, rural, etc.; a colaboração com as Universidades ou outras escolas, onde leccionem especialistas do cante, poderá e deverá existir. Poderá este arquivo estar incluído num futuro Instituto Alentejano da Cultura e Desenvolvimento.

3. A inserção da teoria e da prática do cante alentejano nos programas escolares, havendo quem sustente essa incorporação nas escolas de ensino público e quem defenda a criação de escolas de cante independentes do poder do Estado.

4. A preservação da etnomusicologia alentejana como um todo (o cante, o despique, o baldão a viola campaniça), nesta matéria as opiniões dividem-se, os mais fixistas sustentam que os espectáculos de cante se devem realizar com o traje a rigor tradicional; outros evolucionistas advogam que o cante deve manter a sua genuinidade musical, mas as letras das canções e os trajes podem evoluir e ser adaptados a este final do século XX e a inclusão no cante da voz feminina.

5. A vinculação das autarquias em todos os concelhos alentejanos, na defesa e propagação do cante. As câmaras municipais deverão dar apoio logístico (transporte, sedes para grupos corais, imprensa, etc.) e financeiro aos grupos e escolas de cante, sem que estas caiam no domínio da política partidária.

6. A formação de uma federação de folclore alentejana - a Federação de Grupos Corais Alentejanos que poderá ser a força motriz da formação do arquivo audiovisual do cante alentejano e dos próximos Congressos do cante alentejano.

Beja, 9 de Novembro de 1997

quarta-feira, janeiro 29, 2014

TRATADO DO CANTE - Comunicação de Artur Mendonça no CCA


Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia


 
Comunicação de Artur Mendonça

Boa tarde. Desde e desde que com mais afinco eu tenho estado ligado ao cante alentejano, talvez por defeito de origem, houve um aspecto que me chamou particularmente a atenção que foi a componente artística. Digamos a componente artística em subsídio junto àquela espectacularidade dos cantores concerteza e da sua base de origem e da sua maneira de cantar sui generis, da sua maneira de desfilar, etc.. Eu normalmente não gosto muito de escrever, de qualquer maneira para abreviar as questões escrevi e vou passar a ler: A componente artística, cenografia, luminotecnia e sonoplastia são subsídios para enriquecimento. Mas as funções dos grupos corais, a componente artística será factor a ter em consideração, ponderadas as devidas condições, isto é, atendendo ao local de actuação ou chamados factores envolventes. Talvez por deformação profissional, quando estamos em presença de qualquer facto que nos sensibilize e nos faça pensar numa hipotética criação artística, imaginamos logo as diversas formas de criar um espectáculo, tanto quanto possível inédito ou pelo menos pouco visto. E ao vermos actuar grupos corais, não fugimos à regra de nos vir à memória uma encenação, envolvendo tão nobre quanto estranha, tão poética como profunda forma de cantar, porque não se trata de um cantar por cantar em plano fixo com uma assistência mais ou menos numerosa, mais ou menos atenta. Não! Trata-se realmente de um espectáculo que urge dinamizar introduzindo-lhe técnicas, textos, movimentos, sem que isso evidentemente não venha beliscar com o cante em si, perturbando-o, vulgarizando-o, ou pior, diminuindo-o. Se num desfile numa qualquer cidade ou vila com os grupos intervalados de algumas dezenas de metros, não será possível introduzir grandes meios técnicos, mesmo assim, pode resguardar-se a parte cenográfica e de luz, exactamente, neste último caso, se o desfile tiver lugar à noite, como é lógico. Já a captação de som será muito difícil e por muito aperfeiçoado e fidedigno que seja o sistema, correm-se riscos evidentes desnecessários de distorção de vozes e saída por cima, ou seja, um grupo sobreposto por outro onde as condições atmosféricas podem intervir decisivamente. Estamos a falar de ventos dominantes e seus derivados. Mas imaginamos agora como pode ser bonito desfilar numa praça com motivo central atractivo e ou imponente, estamo-nos a lembrar de uma estátua, um fontanário ou outro qualquer elemento, e contra a leitura, o desfile, contornando ritmado o perímetro exterior de tais motivos, juntando-se-lhe agora à noite uns projectores fixos e de acompanhamento com cores fixas neutras ou brilhantes a condizer, e aí teremos um espectáculo de rua necessariamente com um percurso não muito longo. Mas debrucemo-nos agora na hipótese de um espaço fixo e aí as condições melhoram consideravelmente. Vamos distinguir entre espaço aberto ao ar livre como soi dizer-se e espaço fechado em teatro, auditório, arena ou outros. Ainda no primeiro caso, entre período diurno ou nocturno. Estamos a falar no espectáculo fixo ao ar livre. Desde logo a captação de som deverá ser apurada com tomada individual no ponto alto, não descorando o coro dos baixos, depois o cenário com aproveitamento exaustivo dos elementos exteriores, locais, estamos a lembrar os coretos, as escadas, as frontarias dos edifícios que as há espectaculares como sabem neste país, junte-se a isto a noite com o seu mistério. Adaptem-se projectores ao espaço próprio dos cantores, elimine-se também os elementos anexos ao palco, valorize-se com luz o traje do coral, melhor se tiver a componente de trajo típico naturalmente, autêntico, e aí teremos uma mais bela visualização do conjunto. Finalmente o espectáculo em recinto fechado. Aí a imaginação e arte está no campo dos luminotécnicos, dos cenógrafos, dos sonoplastas. Esta não é propriamente a nossa área mas partindo de algumas pistas, estamos a recordar por exemplo o som produzido num altar duma igreja como há tantas neste país, o canto cose-se com as paredes, sobe, entra nas pessoas e quase se dispensa o microfone. A pedra fica mais viva, a madeira brilha, as imagens ganham vida e a simbiose com o grupo ou grupos fica perfeita e o sonho é possível. Depois temos os grandes teatros deste país e não nos referimos aos grandes centros pois é possível em pequenas localidades encontrar salas de espectáculo perfeitamente aptas a receber qualquer tipo de criação, assim haja imaginação dos nossos criativos que os temos e bons. Nos espaços fechados sem condições de teatro, logo sem teia (é aquela coisa que funciona onde descem os cenários que estão lá presos) sem barras de projectores de iluminação, sem cortinas, as variedades são muitas e quase todas más. Portanto, sem condições de imaginar um espectáculo com palcos muitas vezes improvisados, escadas mal direccionadas. Eu já vi grupos com extrema dificuldade em subir escadas, o que é perfeitamente normal, porque elas não estão direccionadas, não têm condições, aí terá de falar mais alto a imaginação, quando pioram situações tem que se pôr a imaginação a funcionar., criando situações que disfarcem os erros, por vezes insanáveis de construção e concepção e concepção dos espaços onde actua. A captação do som trona-se difícil, a iluminação torna-se complicada e cenograficamente em termos do ambiente criado quase chegamos a zero. Vamos agora ainda mais longe e vamos encenar um coral num anfiteatro tipo auditório. O público entra na sala, faz-se escuro total e então acende-se um foco muito intenso dirigido ao estrado, ao palco. Então o coro como já está previamente colocado durante o escuro, ataca uma moda forte. Depois a luz pode mudar. Apaga o foco que ilumina o estrado e o grupo, em andamento, vai cantando outra moda a terminar já em cima do estrado. Ainda pode mudar outra vez a luz: mais azul, mais límpida, e ataca-se com uma linda moda de namoro que as há. Falemos agora em várias ideias. Poderemos avançar para um palco normal onde, conforme os recursos existentes, podemos avançar com formas perfeitamente espectaculares. Imaginem um coral a descer da teia, portanto com elevador isto é possível, sem barulho, sem as pessoas terem qualquer tipo de perturbação, isto é, com meios técnicos é possível e as pessoas com luzes não dão por isso e de repente estão no palco ou escadas em andamento convergentes como é possível fazer sem grande alarido com os grupos perfeitamente em segurança, deslocando-se em círculo ou semicírculo com um palco giratório cantando. Junte-se a luz, o som e as ideias são infinitas. Lançamos a ideia de criar um espectáculo integrando um grupo coral com um texto a preceito fazendo o grupo o personagem principal. Não vamos falar em televisão e cinema onde os recursos são outros e os corais não sairão nunca diminuídos. Haja em vista o mínimo de condições e direcção de realização. Eu chamo a vossa particular atenção para o espectáculo muito recente do Grupo de Pias no programa “1 2 3”. De repente, eu que estava a seguir o espectáculo deparei-me com uma coisa que eu nunca tinha imaginado: é a luz, o enquadramento da luz. Eu sabia que na televisão se captava muito bem o som. Eu sabia que o cenário podia ser mais ou menos bonito. Ora nunca imaginei que fosse possível iluminar o grupo com aquelas sombras criadas pelo chapéu, pelo cajado, enfim pelos safões. Tudo isto cria sombras e luminosidades próprias. Este tema é inesgotável mas vamos ficar por aqui. Dir-nos-ão que há coisas a resolver muito mais importantes na problemática do cante alentejano e estamos perfeitamente de acordo. A parte artística pode funcionar como mola impulsionadora. Nós diríamos decisiva. A palavra seguinte compete aos grupos, aos encenadores, aos argumentistas, à gente interessada da nossa terra. Nós aqui deste cantinho estamos prontos a colaborar modesta e desinteressadamente para levar este autêntico tesouro esquecido às ribaltas da nossa actividade cultural que bem merece.

Obrigado!
Artur Mendonça

TRATADO DO CANTE - Comunicação do Cónego António Aparício, no CCA


Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia

Comunicação do Cónego António Aparício:
Não é uma comunicação elaborada, é apenas um apêndice, uma adenda ao trabalho que ontem apresentou o padre Cartageno, visto que o trabalho foi feito em conjunto. Antes de mais saúdo a Mesa e a Casa do Alentejo por este Alto serviço à cultura do Povo Alentejano e à qualidade de vida de homens e mulheres que vivem aqui porque o canto alentejano não está s- no imaginário, mas está no coração, no ser de cada alentejano. O canto é uma realidade de referência absoluta de todo o alentejano. E por isso, quanto mais somos a aldeia global, quanto mais necessitamos daquilo que é verdadeiramente nosso e nos identifica. E penso que o canto alentejano é verdadeiramente a legenda do ser alentejano da alma alentejana. E por isso este Congresso é um Alto serviço ao homem e à mulher que vivem aqui neste Alentejo. Eu não sou alentejano, também sou serrano, e vivo aqui vai fazer quase 50 anos e preocupei-me ao princípio estudar a parte social do Alentejo, sobretudo na parte sul da Diocese e confesso que este trabalho de pesquisa me abriu as portas para o modo de ser do Alentejo porque para mim há três coisas grandes no Alentejo: Castelo de Beja, os longes e o cante. E a legenda de tudo isto, desta grandeza, desta paixão, deste sentir deste homem e mulher que está aqui é de facto o cante alentejano. Para mim, foi realmente gratificante contactar com as fontes deste folclore, desta vivência que é o cante alentejano, o contactar por exemplo com o senhor José Estêvão, um homem analfabeto de 74 anos da Amareleja, com o qual tivemos uma conversa altamente gratificante, ele um grande mestre, um grande professor desta grande universidade, a maior e mais sábia do mundo, que é a do povo. E por exemplo nós cantamos na igreja um cântico que ele nos cantou e eu vou trautear – a minha voz enfim – mas pelo modo como começa, pela densidade que têm, para mim foi dos momentos mais ricos desta nossa experiência de pesquisa, de peregrinação praticamente, pela Margem Esquerda do Guadiana, por cerca de 45 aldeias. Mas quando ouvi cantar de facto isto a um homem analfabeto que fez dezenas de modas e que fazia os poemas e quando eu lhe perguntei “Sr. José Estêvão em que pensa primeiro, é no estilo ou no poema” ele olha para mim: “como assim, logo se vê que não percebe nada disto. Eu primeiro penso na inspiração, isto é, primeiro vêm a melodia, vêm o estilo e depois arranjo um poema para essa moda que eu de facto inventei”. Eu tenho uma pena que aquele homem não tivesse tido acesso aos bancos de uma escola e de um conservatório porque hoje seria um grande músico de escola mundial. De facto para mim foi altamente gratificante esta porta que se me abriu para conhecer em profundidade aquilo que o Alentejo têm de mais profundo e de mais castiço por assim dizer. O padre Cartageno pediu-me para focar os ecos deste nosso trabalho. Primeiro, eu penso que as assembleias cristãs do Alentejo e não só receberam uma expressão cultural e de fé insubstituível e peculiar. Hoje nas assembleias cristãs do Alentejo canta-se bem e com geral agrado por crianças, adolescentes, jovens e adultos, cantes de uma beleza de facto ímpar, que vieram do povo, que são a expressão desta cultura de facto típica aqui do homem do Alentejo. Mais, contribuímos para que o canto alentejano de expressão religiosa deixasse de ser um canto de grupo para ser um canto de assembleia, cantado portanto pelo modo como um coro o canta mas um cântico de assembleia porque o cante religioso, o cante profano, o cante alentejano, tem em si um poder congregador, um poder de unir os cantadores porque não tem um ritmo exterior, tem um ritmo interior porque não tem nenhum maestro do grupo de cantadores porque o ritmo está lá dentro e na verdade a assembleia é uma realidade que Deus congrega e o cante alentejano que tem já essa paixão de reunir de congregar, empresta à fé e ao culto este suplemento para reunir e de facto para congregar. Por isso, as assembleias cristãs do Alentejo, e não têm desde há 20 anos a esta parte, esta expressão extraordinária, esta linguagem de fé que é o canto de expressão alentejana. Mas não s-, porque na altura em que nós começámos em 1977, o Norte praticamente ligava o canto alentejano à revolução de Abril que de facto tinha surgido à pouco tempo, e as dez missas transmitidas pela Antena Um, durante por aí um ano e meio, mostraram ao país que aqui havia missas de qualidade e uma área de canto alentejano por eles desconhecida. Portanto esta experiência mostrou ao país, penso eu, um novo rosto ignorado do Alentejo. Por esta experiência também nós começámos a exportar com a cortiça, como os minérios e com os cereais, o canto alentejano da área religiosa, porque recebemos muitas cartas, recebemos muitos pedidos pelo telefone para mandarmos as nossas melodias. Assim, no segundo Domingo de Julho, o canto da comunhão do Santuário de Fátima (estavam algumas dezenas de milhar de pessoas) era um cante de expressão alentejana. E não é raro que nas missas da televisão, nas missas da rádio também se cante cânticos desta colectânea que nós descobrimos aqui nestas terras do Alentejo. Durante férias, eu fui ali a uma terra vizinha minha – eu sou de Alvouque da Serra. Concelho de Seia – e qual não foi o meu espanto pois de se cantar um cântico de expressão alentejana, mas de se cantar o mesmo canto de maneira inexpressiva, mais parecia um corridinho do Algarve do que um cante de expressão alentejana. Por isso penso que foi uma experiência de inculturação desejada e querida pela Igreja como disse ontem o Padre Cartageno e que deveríamos de facto prosseguir nesta peregrinação de descoberta de mais peças do cante religioso alentejano, tem-nos faltado de facto, não sei, se ânimo se o tempo. Mais houve agora uma publicação que é a maior colectânea de cânticos religiosos do país chamada “cantemos todos”, que inclui três ou quatro cânticos do cante alentejano. Como estou aqui numa assembleia de especialistas nesta área, se algum de vós, se nos vossos grupos, se nas vossas terras, conhecerdes alguma peça, sei lá “Os martírios do Senhor”, aos Santos Populares, inclusive ao Natal. O Padre Cartageno e eu conseguimos sete trípticos do Natal completos, o que de facto é uma grande riqueza, o Menino, as Janeiras e os Reis, portanto isto está no começo. Nós apenas visitámos apenas à volta de 45 aldeias e montes mas está ainda o resto por explorar. Por exemplo talvez pensem que Vila Nova de Mil Fontes já não é da área do cante polifónico alentejano, e eu trouxe de lá o Menino de Mil Fontes, de uma beleza extraordinária, inclusive quanto ao próprio poema totalmente diferente do cantado aqui no centro do Alentejo. Se souberem de algumas peças de índole religiosa, agradecíamos que nos dissessem.

Obrigado!
Cónego António Aparício
TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia
PADRE ALCOBIA
Seria injusto não falar neste Congresso de um homem que, apesar de não ser alentejano, pois ele é natural de Ferreira do Zêzere, abraçou com alma e coração o cante alentejano, enriquecendo e elevando ao mais alto ponto, conseguindo levá-lo além fronteira num tempo muito difícil. Estou a falar do senhor padre José Alcobia. Pároco no concelho de Ferreira desde 1944, função que tem exercido ininterruptamente, estendendo a sua acção por todas as freguesias do concelho. Criou o Colégio Nuno Álvares, o Sport Clube Ferreirense, um bairro para trabalhadores rurais com mais de quatro filhos denominado Nossa Senhora da Conceição. Como músico descobre a riqueza grandiosa do cante alentejano cujas melodias fazem vibrar o nosso povo e cria o Grupo Coral “Os Trabalhadores de Ferreira do Alentejo”. Produziu programas para a antiga Emissora Nacional, Rádio Renascença, Televisão, gravou discos e cassetes e conseguiu em 1972 levar este Grupo a Zagreb, Jugoslávia onde obteve um êxito extraordinário. Em 1976 foi criado em Figueira de Cavaleiros o Grupo Coral “Os Rurais” fundado por um grupo de amigos onde me incluo e exerço o cargo de responsável. Convidámos o Padre José Alcobia para nos ajudar que, de braços abertos e com todo o seu saber e entusiasmo, contribuiu decisivamente para elevar o Grupo ao nível que hoje tem. Com ele conseguimos muitas actuações de norte a sul do País, gravámos dois LP’s, duas cassetes áudio e tivemos o ponto mais alto em 1976 em Zagreb na Jugoslávia, no Festival Internacional daquele país. Aí estavam presentes 77 grupos representativos de vários países e o Grupo Coral “Os Rurais de Figueira de Cavaleiros” foi considerado um dos melhores grupos de vozes que por ali passou, tendo a honra de ter sido convidado para fazer do encerramento do Festival com mais três grupos de outros países. Foi com grande emoção que sentimos milhares de pessoas em silêncio apreciarem o cante alentejano e ver a bandeira portuguesa a subir pelo mastro ao canto do nosso hino. O Padre Alcobia criou ainda o Grupo “Cantares Alentejanos do Batalhão nº. 3 da GNR”, conseguindo ainda a renovação do Grupo Coral “Alma Alentejana de Peroguarda”, por quem Giacometti se apaixonou levando-o a pedir que ali fosse sepultado ao som do cântico ao Menino de Peroguarda. Ele ainda hoje dirige estes grupos, apesar da sua idade. Obrigado Padre Alcobia por tudo o que fez pela Terra alentejana. Era bom que muitos padres Alcobias aparecessem para bem do nosso cante alentejano e da nossa cultura. Bem haja!

Obrigado.
Luís Franganito – Grupo Coral e Etnográfico “Os Rurais de Figueira de Cavaleiros”

terça-feira, janeiro 28, 2014

TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D:         VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia
Ora bom dia a todos. Preparei algumas linhas para trazer ao Congresso precisamente no sentido da organização. E subordino-as ao tema:
“CANTE - Organizar para Fortalecer”
 
O nosso cantar tradicional cuja valia presente e futura parece ser inquestionável, provém de uma época marcada por uma envolvência social, económica e cultural bem diversa da realidade actual. Podemos dizer que as vivências que enformaram o seu estilo ditaram a sua poesia e vincaram as suas sonoridades há muito que deixaram de fazer parte do nosso quotidiano. Desde então o cante perdeu a sua função real, desprendeu-se da sua ligação à vida, é agora uma projecção virtual da nossa memória colectiva. Por isso a moda não é mais o espelho reflector do sentir corrente. E assim, permanecerá incólume ao passar do tempo, encerrando como um sacrário os elementos agregadores da nossa identidade, a mística da nossa paixão por esta terra. Sem receber a seiva do labor e tendo quase perdido a sua utilidade no ócio, o cante ainda perdura como manifestação cultural entre a nossa gente, graças à persistência estóica dos grupos corais que, indiferentes às contrariedades e sem ligar às fraquezas, mantém viva essa forma sublime de expressão. De facto, do nosso ponto de vista, são os actuais cento e dois corais os grandes intérpretes da moda e os guardiões efectivos da nossa tradição vocal, já que desapareceram os ambientes onde, de um modo natural e espontâneo desabrochavam e se expandiam os nossos cantares. Por conseguinte, devemos cuidar de olhar atenta e cautelosamente para essa realidade aparentemente ainda fulgurante mas intrinsecamente muito volátil e frágil. O acaso ou circunstâncias imponderáveis tem determinado o surgimento e o desaparecimento dos grupos corais sem que, salvo o cometimento interesseiro e pontual de instrumentalizações políticas tivessem logrado beneficiar de quaisquer intenções sistematizadas de apoio. Poderá dizer-se sem forçar a nota, que o seu cantar tem sido de autêntica resistência porque só assim a generosidade é tanta e o sacrifício que lhes é exigido é suportável. Padecem por mil queixas, persistem pela vontade, insistem só pelo gosto de cantar, de deitar cá para fora os sons aprendidos às gerações, as vaias que se repetem e ainda nos trespassam com a mesma intensidade de ontem. Importa assim organizar para fortalecer esta corrente de lembrança, este movimento de cultura autêntica sem o que continuaremos carentes de afirmação falhos de meios distantes até da dignidade com que deviam ser tratados. Consideramos que se nos impõe colocar no horizonte dois objectivos tendentes a possibilitar a inversão do panorama actual no que respeita ao cante. Primeiro, iniciar um movimento de opinião que conduza à classificação do cante como património do Alentejo. Segundo, desenvolver subsequentemente um trabalho de afirmação junto das autarquias para que os grupos corais venham a ser reconhecidos como parceiros culturais privilegiados. De uma situação e de outra resultará a necessária dignificação do cante e dos seus intérpretes, conduzindo a que sobre eles se lance um olhar diferente abrindo por arrastamento a porta à captação dos mais novos para as nossas fileiras, já que a sua ausência é das razões maiores da nossa preocupação. Com os meios de que dispomos, e com a força que temos, não lograremos ir para além dos limites da continuidade. Importa que nos juntemos, que prossigamos de hora avante o diálogo e o debate iniciados neste Congresso, ganhando estrutura, arrebatando confiança, desenvolvendo a nossa capacidade organizativa. Consideramos que a fundação de uma Federação agregadora dos corais actuais e dos vindouros poderá encontrar resposta para os nossos anseios presentes e para as dificuldades futuras. Será um órgão de reinvindicação e de diálogo com os poderes. Será um meio de articularmos as nossas actividades, um elo a ligar as nossas iniciativas, um veículo de comunicação entre os grupos para quebrar o seu isolamento. Parece-nos, por conseguinte, que a vontade (?) do surgimento de uma Federação do cante alentejano é óbvia, mas também julgamos ser este o momento ideal para a sua constituição. Aliás, presentemente a esmagadora maioria dos grupos não está legalizada, não tem personalidade jurídica, e, por conseguinte, ficaria à partida arredada deste processo que todos pretenderão participar. Logo consideramos que na sequência da conclusão destes trabalhos que serão pela certa uma grande referência para a história do cante, os grupos corais deverão eleger um órgão representativo, um Secretariado que terá por função criar condições práticas materiais, jurídicas bastantes, para que ao cabo de um ano de actividade seja constituída a Federação do cante. Teremos então de pé a fortaleza onde podemos albergar os sonhos da nossa esperança num cante possível para além da distância dos quereres actuais. Contaremos então com a força criadora do pensar colectivo, com a invenção de caminhos para sairmos deste atasqueiro em que os grupos se atolam e donde s- poucos conseguem livrar-se. Ganhando novo fôlego, saberemos empreender novas metas de exigências e apostaremos com mais firmeza na autenticidade, no porte e até no brio essenciais a uma imagem mais condigna com a elevação que às vozes sabemos dar.

Muito obrigado.
Dr. José Francisco Colaço

segunda-feira, janeiro 27, 2014

TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D: VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia

Maria José Barriga. nasceu em Beja, cidade onde iniciou os seus estudos musicais sob a orientação da professora Ernestina Pinheiro. Prosseguiu os seus estudos de música na área do cravo, em música barroca com a cravista Cremilde Rosado Fernandes e posteriormente na Holanda com o professor Thom Cookman (?) onde terminou a licenciatura em docente de música. É licenciada ainda em Línguas e Literaturas Modernas e presentemente mestranda em etnomusicologia na Universidade Nova de Lisboa. Exerce funções de docente do Conservatório Regional do Baixo Alentejo e na Escola Superior de Educação de Beja.
Muito bom dia. Em primeiro lugar queria agradecer o convite que me foi dirigido da parte da realização do Congresso. A minha comunicação poderá ser interrogada em o porquê de eu estar aqui. Talvez seja incluída como uma nota dissonante no meio deste Congresso porque no fundo este Congresso foi-lhe dado o título de Congresso do cante alentejano, mas eu aqui deixava talvez uma ideia, um repto de que em posteriores organizações, em posteriores eventos se alargasse talvez o âmbito e se fizesse talvez um Congresso ou um Simposium ou o quer que seja ou um evento, alargando o tema ou à música tradicional no Alentejo, em que seja possível abranger outras práticas musicais. E portanto é aqui que eu venho dar o meu contributo. Não existem segundo há pouco foi falado um padrão de cultura o cante alentejano. Pela realidade que eu tenho observado não é apenas o cante alentejano a única prática musical que existe e que sempre existiu no Alentejo, existiam outras formas, outros géneros e que realmente foram sempre colocados, marginalizados quase. Isso talvez tenha havido dados históricos que têm estado a ser estudos, o porquê de tal acontecer, mas realmente não existe apenas a polifonia, o canto polifónico que é executado pelos grupos corais mas existem as modas, os bailes lançados, as modas de bailes, existiam as modas campaniças das zonas, existem não existiam só no passado, mas existem modas campaniças na zona de Castro Verde, tal como existiam práticas e ainda estão a ser executadas em Vila Verde de Ficalho que realmente nunca são focadas, tal como existiam as modas de Carnaval de Selmes e da Amareleja, que estão neste momento a tentar ser revitalizadas, como existiam os desafios por todo o lado e várias formas de desafio, os cantes das gralhas, o canto do ladrão, o cante do baldão e inclusivamente as décimas cantadas que neste momento é difícil encontrar mas ainda é possível, décimas cantadas que portanto tinham uma componente musical. E essa é a minha interrogação e foi daí que eu parti para os meus estudos e para o meu interesse e para a minha motivação ao nível da investigação na etnomusicologia, foi perguntar: “mas será que só existe o cante alentejano como única forma?” Claro que ao fazermos uma pequena pesquisa e não é preciso ir muito longe começamos a encontrar outras formas. E é nesse domínio que eu me debruço, nesse domínio que eu venho dar aqui um pouco a minha tónica, não venho falar do cante alentejano, venho falar de uma outra prática, do cante do baldão, uma forma de cante ao desafio que está neste momento a ser praticada e com muita força, com muito vigor, e que tem um relacionamento, uma articulação com o cante alentejano com uma série de processos extremamente interessantes que é necessário estudar, é necessário verificar, e que existem, não algo que desapareceu, não é algo do passado ou não algo de marginalidade. O que nós nos interrogamos é porque é que realmente há esta força tão grande do cante alentejano e este poder que se tenta dar como única forma representante do Baixo Alentejo, representante de todo o Alentejo, quando se fala no Alentejo e se pretende introduzir um representante fala-se no cante alentejano. Talvez neste momento os estudos apontam para que desde a política de António Ferro, a política do espírito, foi talvez aí que tenha sido um dos elementos, um dos factores históricos que mais contribuiu para que tal tenha acontecido ou necessidade da parte da política da altura de mostrar que o povo alentejano, apesar uma ditadura, que as pessoas em todo o Portugal eram alegres, estavam felizes, estavam contentes e portanto era necessário mostrar isso quer para fora quer internacionalmente quando vinha cá qualquer Chefe de Estado, quer para qualquer evento mais oficial que existisse e portanto foi dado muita importância ao chamado de folclore e foram, existiram uma série de práticas a que foi dado uma grande relevância tal como no Algarve “O Corridinho”, “O Bailinho da Madeira”, ou o “Vira”, e no Alentejo o “Cante Alentejano”. A partir daí foi dado um relevo muito grande, foi focalizada toda a atenção e foi a forma estereotipada que foi encontrada para mostrar o representante do Alentejo a nível do cante da forma tradicional, da música tradicional, era o cante alentejano. Mas realmente se nós tentarmos fazer uma pesquisa mais ou menos científica, nós observamos no dia-a-dia que existiram, existem outras práticas musicais e foi portanto como disse a partir daí que me interessei por etnomusicologia, foi tentar ver que outras formas existem na minha área, portanto, no Alentejo, e esta parte, portanto interessei-me principalmente, comecei por uma determinada prática que foi o cante ao baldão, realmente é necessário para qualquer estudo que se queira fazer tentar reduzir o campo de estudo, não é possível repentinamente ou num ano ou em dois anos fazermos um estudo sobre o Alentejo inteiro, é preciso realmente reduzir a unidade de estudo e o campo, e eu comecei por esta prática do cante ao baldão que talvez muitas pessoas conheçam, outras não, e que os dados analíticos que vou apresentar nesta comunicação são parte de um trabalho de investigação a decorrer desde Fevereiro de 1996 para uma tese de mestrado em etnomusicologia sob a orientação da doutora Salwa Castelo-Branco da Universidade Nova de Lisboa. Portanto trata-se de uma análise que está ainda em curso, portanto não tem dados conclusivos, talvez nunca os terei, mas que prevê ter como resultado a elaboração de uma etnografia musical em torno de uma prática musical caracterizada por uma quase total ausência de documentação até ao presente momento. Pretende-se com este estudo analisar o papel actualmente desempenhado por esta prática formativa na construção, manutenção e revitalização de uma identidade cultural local específica duma zona geográfica do Baixo Alentejo, “da serra” que a música actua, como é que o cante ao baldão desempenha um papel fundamental na identidade local, não estou a falar na identidade regional, na identidade alentejana, estou a falar de uma identidade local entre dois tipos de povoação, se é que se pode considerar assim, os da serra considerados os serranos e os campaniços da Castro Verde. Portanto, o que é que o cante ao baldão é? Começo por descrever. Apresenta-se como uma prática performativa que se pratica numa área geográfica situada entre os concelhos de Ourique, Almodôvar, Odemira e Castro Verde, no qual vários indivíduos intervenientes se desafiam ou despicam, é o termo mais frequente muito utilizado pelos cantadores. O cante ao baldão é considerado como uma forma de canto a despique, um despique mais balda, foi um dos termos utilizados por um dos meus entrevistados, e que, dizem eles, apareceu na zona geográfica de S. Martinho das Amoreiras. Corte Malhão e Aldeia das Amoreiras. Segundo as informações dos meus entrevistados, o cante a despique era a forma de cante ao desafio que mais frequentemente se praticava até aos anos quarenta, cinquenta deste século XX, não só nos concelhos de Odemira, Ourique, Almodôvar e Castro Verde, mas também nos de Ferreira do Alentejo, Cuba, Vidigueira e Portel. O canto ao baldão portanto surgiu, eles pelo menos até à data situam-no como tendo surgido após os anos quarenta. Como é que eu posso descrevê-lo? É constituído por duas componentes: a componente musical e a componente verbal. A componente musical, designada pelos cantadores como estilo, corresponde a um modelo fixo, um padrão rítmico-melódico que é sempre igual e repetido ao longo das várias cantigas. Nas execuções actuais do cante ao baldão o padrão utilizado é o de uma moda campaniça, a moda “Marianita és baixinha” que portanto a moda donde vem, donde parte esta componente musical é uma moda muito cantada na área de Castro Verde, Ourique “Marianita és baixinha/ arroja a saia pela lama/ tenho-te dito mil vezes/ e levanta a saia - Mariana/ levanta a saia Mariana/ e não a deixes arrojar/que a saia custa dinheiro / i o dinheiro custa a ganhar”. Portanto esta é a moda que existia e existe, não há dados históricos mas é uma moda muito antiga e que aproveita a música, a componente musical. Desta componente musical, portanto nós chamamos-lhe melódico-rítmica desta moda, para improvisarem novas cantigas. Os cantadores das Amoreiras e Corte Malhão referem que antigamente os pais deles cantavam não s- no estilo da “Marianita és baixinha” mas também noutros estilos que foram abandonados com o tempo e que hoje em dia nenhum dos cantadores consegue cantar nem os próprios tocadores de viola campaniça tocar. Através do cantador António José Bernardo, consegui algumas referências sobre esses estilos. Falou-me no “Passarinho” e na “Margarida Brejeira”, seriam outros dos estilos, outras das componentes musicais utilizadas. A componente verbal ou cantiga traduz-se por um enunciado improvisado e que deverá obedecer a certas regras de construção poética. Estas regras são aprendidas e deverão ser praticadas pelo indivíduo que se queira tornar um bom cantador. Contudo, todos os cantadores que entrevistei consideram que o cante ao baldão é um canto que exige dotes naturais. Não é constituído apenas por regras aprendidas que por esse motivo nem todos os indivíduos podem ser cantadores. Para o cante ao baldão é uma forma de falar cantando e poder comunicar, criticar-se, debater qualquer assunto apenas com uma regra: tudo o que se disser tem de ser a cantar. E segundo eles dizem, isto são frases tiradas de entrevistas minhas, o que dá gozo é falar cantando durante horas a fio. Em relação aos temas, aos assuntos do cante ao baldão são referidos dois tipos: por um lado a discussão de um afundamento, expressão que significa dar uma opinião acerca de um assunto, que é colocado por um cantador e como exemplos eles referiram com frequência que debatem o tema sobre as diferenças entre a serra e o campo, entre os homens da serra e do campo, ou as diferenças de valor do ouro e do ferro. Portanto, isto é um tipo de tema. Outro tipo é o fazer cantigas uns aos outros. Portanto esta é a expressão utilizada “Fazer cantigas uns aos outros”. É um tipo de tema que implica uma crítica recíproca. Neste tipo de cantigas há duas espécies de situações, no mesmo cante haver vários diálogos que se cruzam, portanto o indivíduo x critica o indivíduo y e este defende-se e noutro sector, um indivíduo z critica o outro e esse defende-se, noutros casos, realizam-se verdadeiros duelos em que se formam grupos a favor e contra aquele que está a ser criticado. Aquele que é criticado deverá sempre responder ao outro quando chegar a sua vez. Nestas cantigas não é fácil para um público exterior aos acontecimentos e ao contexto social dos cantadores conseguir acompanhar e apreender os temas em discussão. No cante ao baldão alguns dos elementos são considerados obrigatórios ao desempenho do cante. Por exemplo, os cantadores é um dos elementos que deverá existir. Se não houver cantadores não poderá haver cante. Mas existem outros elementos facultativos, por exemplo os tocadores de viola campaniça e do público presente nos locais de desempenho. Os cantadores referem que o acompanhamento à viola campaniça no cante ao baldão não é nem nunca foi elemento indispensável. Eles podem cantar mesmo sem acompanhamento. Contudo preferem cantar com um bom tocador a acompanhá-los. Um outro elemento que se constata e se observa quando vamos assistir a um destes eventos é o da competição em termos de competência musical entre os indivíduos participantes. Os indivíduos têm que dominar as regras deste género e em simultâneo criticar algum aspecto ou facto da vida dos outros indivíduos ou seja despicar os outros. Um bom cantador possui um forte prestígio social. Mas para se conseguir ser um bom cantador, têm que se Ter uma boa fala, o que significa uma voz afinada e com bom volume, o saber cantar no estilo que significa cantar a música da base do baldão, portanto saber a componente melódico-rítmica, e saber fazer as cantigas. O saber fazer as cantigas é saber construir o texto poético. Portanto, sempre houve, em todos os eventos podemos observar uns cantadores que são considerados os bons porque conseguem dominar estes três aspectos e esses conseguem um forte prestígio e são exemplos de imitação. Muitos dos outros pretendem imitá-los para conseguirem ser bons cantadores porque um bom cantador, vários referem isso, eram sempre convidados para todas as festas, para os casamentos, para as festas das aldeias e tinham muitos amigos. Vários cantadores me referiram que o Senhor Alagoa era um senhor que tinha milhares de amigos porque sabia fazer as cantigas, porque era um bom cantador e portanto levava fins de semana, levava três e quatro dias em festas e era convidado para fazer as festas da zona. Factores importantes e determinantes deste género são o local e o ambiente que proporcionam o seu desempenho. Os locais mais frequentes destes cantos são as adegas ou seja, um ambiente envolve por um lado a bebida, petiscos, e por outro lado, um número de pessoas reduzido cinco ou sete cantadores e algumas pessoas a assistir. Outros locais de desempenho são casas particulares em contextos de festas privadas, pagamento de promessas, casamentos, baptizados das famílias dos cantadores e ainda nas feiras: a feira de Castro Verde, a feira de Casével, a feira de Garvão, a feira de Santana da Serra, ou romarias: a de S. Pedro da Cola, por exemplo é dos locais quase histórico, se podemos considerá-lo “histórico” destes eventos. Em qualquer destes locais, a disposição dos cantadores é sempre idêntica. Eles estão sentados à volta de uma mesa e enquanto cantam bebem e comem. Os tocadores de viola campaniça que acompanham o cante são dispostos num lugar da mesa apropriado de modo a que todos os cantadores consigam ouvir a viola. Ao assistir-se a um cante ao baldão, portanto são estes aspectos acima descritos que numa primeira observação se podem constatar como relevantes desta prática performativa. Agora a partir desta observação e desta descrição etnográfica eu comecei a constatar e a tentar analisar o que é que se passava para além de tudo isto, para além do que se observa numa primeira abordagem em contacto com esta gente. Dos contactos mantidos com cantadores surgiu um elemento inesperado e que desencadeou a motivação para este trabalho de investigação: a hipótese de se estar a observar nos últimos anos um processo de revitalização de determinados aspectos contextualizados no cante ao baldão. E eu explico porquê. Em primeiro lugar, a existência de um número de cantadores muito superior ao que havia à cerca de 10 anos. O número de cantadores tem vindo a aumentar. E aumenta quase de acontecimento para acontecimento. Em segundo lugar, o número de encontros de Baldão. Dos eventos em si, ser cada vez maior de ano para ano. Em terceiro lugar, as modificações na forma de apresentação do cante e dos cantadores. Em relação a estas mudanças os informantes aludem ao papel desempenhado por um programa de rádio local, Rádio Castrense, e ao “Programa Património”, inclusivamente, especificamente ao seu produtor José Francisco Colaço Guerreiro. O Programa Património é um programa de rádio iniciado há dez por José Francisco Colaço Guerreiro e tem por fim a preservação da tradição e da identidade cultural alentejana segundo me foi referido na entrevista. Trata-se de um programa em directo, constituído essencialmente por telefonemas de pessoas e pela presença em estúdio de indivíduos ou grupos que são entrevistados, que cantam ou recitam poesia e quadras. O programa é por vezes transmitido fora do estúdio quando é convidado a gravar algum espectáculo especial como é o caso de Encontros de Baldão. No Programa Património surgem participantes por via telefónica dos vários concelhos do distrito de Beja. E entrevistas informais que realizei a pessoas em Peroguarda, Vidigueira, Cuba, Aldeia das Amoreiras e Conceição, surgiam sempre referências a este programa. Em relação ao cante ao baldão especificamente a influência deste programa parece relevante. Em primeiro lugar o Programa Património tornou-se uma fonte de diálogo entre os cantadores. Um telefona e canta uma cantiga a outro, mais tarde o outro telefona a responder. Em segundo lugar o programa começou a organizar algumas destas ocasiões de desempenho, mas introduziu um termo novo para as nominar chamou-lhes “Encontros de Baldão”. E este termo existe neste momento a par de um termo utilizado pelos cantadores “O cante ao baldão”. Em terceiro lugar, o número de ocasiões de desempenho, portanto o número de acontecimentos dos eventos aumentou pois para além daqueles promovidos pelo Programa Património as associações das aldeias, as Juntas de Freguesia e a Câmara Municipal de Castro Verde e até cafés particulares começaram também a organizar os seus encontros de baldão. Em quarto ponto, o número de cantadores tem vindo a aumentar. E donde é que eles vêm? Como é que eles apareceram? Foi uma das minhas perguntas. Cantadores que tinha aprendido a cantar em jovens mas que tinham deixado de cantar começam a surgir nestes encontros com o objectivo de se fazer ouvir na rádio. Outros casos, cantadores dispersos e alguns a residir no Algarve, surgem neste momento com maior frequência nestas ocasiões. Por último, um aspecto relacionado com a forma de apresentação do cante e dos cantadores. Nos encontros gravados pela rádio, iniciam o cante com uma cantiga onde se apresentam e referem a sua proveniência. Portanto eles dizem que isto é um elemento essencialmente novo. Antigamente eles conheciam-se todos, não era preciso estar a apresentar-se e agora é transmitido pela rádio ou passa-se em público que não conhecem o ambiente. Portanto, a primeira cantiga que eles fazem, que inventam, que improvisam, é a cantiga a apresentar-se. Dizem o nome, dizem de onde vêm e às vezes outros elementos. Outras das questões que constituíram a base da problemática da investigação é o papel do cante ao baldão na negociação ou reforço da identidade cultural local: a serra. Existe uma forte distinção e até mesmo rivalidade entre os serrenhos e os campaniços ou seja, entre os cantadores residentes entre a área da serra de S. Bernabé, das Amoreiras, Corte Malhão e S. Martinho e os das planícies de Ourique e Castro Verde, da Estação de Ourique, de Grandaços, de Casével, da barragem do Monte da Rocha. Esta distinção é manifestada quer através dos contextos sócio económicos dessas zonas: os serranos são na maioria proprietários de pequenas extensões de terras e dos montes onde habitam; os campaniços trabalham, trabalhavam e trabalharam sempre como assalariados nos latifúndios dos concelhos de Castro Verde e Ourique. Portanto esta distinção é manifestada nos contextos sócio económicos mas não só, também nas discussões temáticas do cante ao baldão. Surge com frequência o afundamento da serra e do campo com as suas vantagens e desvantagens. Este é um tema que provoca uma maior discussão, discussões inclusivamente acaloradas. Os da Serra querem forçosamente e tentam manifestar-se como serrenhos, que as suas terras é que são as boas, as suas terras é que são as mais ricas, e os campaniços tentam portanto na zona da planície demonstrar quais são as vantagens de viver no campo e as desvantagens da serra e ocasionam horas a fio de discussão em torno deste tema. Mas para além das questões sócio económicas e dos temas ainda no próprio estilo, o que eles chamam o estilo do cante, ou seja na componente musical, esse têm sido a última parte do meu estudo, é verificar até que ponto é possível algo que me surgiu e tenho estado a analisar neste momento, até no próprio modo de cantar entre os serrenhos e os campaniços há distinções visíveis e que eles pretendem, portanto, continuar e demarcam a sua identidade. Pretendem vincá-las, pretendem demonstrar e explicam mesmo porque é que não querem cantar como aquele, mas cantam na sua forma e ocasionam momentos de disputa e de, nos próprios cantes uns dizem que os outros é que cantam bem e os outros não, explicam porque é que s- eles é que cantam bem. Em torno destas questões que orientaram a estratégia metodológica escolhida ou seja, a construção de uma etnografia musical do cante ao baldão iniciei o processo de análise de todo o universo de informação recolhida durante o período de trabalho de campo e espero poder chegar em breve a elementos cada vez mais conclusivos e pertinentes. Contudo, quero insistir que se trata de um estudo de carácter sincrónico, dos aspectos que caracterizam actualmente o cante ao baldão e no qual se pretende examinar como a música pode ser uma elemento influenciador ou até mesmo negociador da identidade e fazer parte da construção da manutenção e revitalização dos processos sociais. Neste sentido eu parto para este trabalho de um pressuposto de que a música não é processo estático, mas sim dinâmico e em construção, e são esses processos que tento analisar no meu trabalho, e no qual as fronteiras estão continuamente em mudança. E são essas fronteiras que também me fascinam e ver até que ponto é que tudo isto se articula e tudo isto se constrói. Música e o cante ao baldão tem neste núcleo ou pelo menos dentro daqueles eventos, um papel preponderante. Portanto isto foi um esboço do trabalho que estou a realizar como digo ainda está em curso e até espero dentro de uma ano concluir.

Obigada!

Drª. Maria José Barriga