segunda-feira, outubro 22, 2012

O CANTE, expressão monumental do Ser alentejano



A Paixão do cante

Nascido e criado na bonita vila alentejana de Montoito, concelho do Redondo, distrito de Évora, foi-me dada, logo na infância, a possibilidade de poder participar na lógica do cante. E que lógica!
Ainda hoje não me consigo separar desta forma de Ser Alentejano.
Foi “bichinho” que ficou para todo o sempre.
Ao longo dos anos e sempre com o sentido no cante e na forma de o entender melhor, empreendi em 1995, uma cruzada, sem apoios, que ainda não está concretizada, mas que já deu alguns frutos.
Em 10 de Novembro de 1995, pedi apoio à então Secretaria de Estado da Cultura que deu este parecer:

“O projecto apresentado não garante a solidez científica de um trabalho que só pode ser feito com um enquadramento institucional adequado (designadamente universitário) e por profissionais devidamente habilitados para o efeito. 18-12-95, ass) Rui Vieira Nery”.
Então, depois de exaustivo trabalho presencial junto de todos os grupos corais existentes (nalguns casos, mais do que uma vez), depois de assistir a muitos encontros de grupos corais, em todo o Alentejo e na zona da grande Lisboa, resultou:
• Foram inventariados todos os grupos existentes no Alentejo e na zona da grande Lisboa;

• Participação em colóquios sobre o cante, por tudo o que era sítio;

• Finalmente foi editado o livro Corais Alentejanos (Edições Margem, 1997), onde estão fichados 104 Grupos Corais.
Estatística do trabalho feito
Numa análise estatística dos grupos existentes baseada no número de elementos, média de idades, etnografia e depois de perspectivar o futuro pode-se concluir que o primeiro grupo constituído aparece em 1926. Estamos a falar do grupo do Sindicato dos Mineiros de Aljustrel.
Obviamente que já se cantava há muitos anos mas os grupos não estavam constituídos ainda. Se calhar a mina de Aljustrel foi pretexto para que se organizasse o grupo coral, no Sindicato.



Até 1964, havia apenas 18 grupos corais, 14 no Distrito de Beja, 3 no Distrito de Évora e 1 no Distrito de Lisboa, não contando com o que apareceu na Casa do Alentejo por volta dos anos 60. Esse grupo foi dissolvido, e deu origem ao primeiro grupo organizado da zona da grande Lisboa, o Grupo Coral Alentejano da Amadora.
O total de grupos até 1997 era de 107.
Por distritos, dos 107 Grupos Corais eram 63 no Distrito de Beja. 13 no Distrito de Évora. 6 no Distrito de Setúbal. E 25 no Distrito de Lisboa. Destes: de Beja, 7 são femininos, 5 infantis. Em Évora existem 2 grupos musicais. Em Setúbal, um musical, e um feminino. E, em Lisboa, 3 musicais e um feminino.
O número de elementos que os grupos corais mobilizavam era número significativo: 2.486 elementos: homens 1974, mulheres 196, crianças 163, e dos grupos musicais entre homens e mulheres, 151 elementos.

Os grupos corais, por média de idades e por Distrito: no Distrito de Beja, a média era de 56 anos, as mulheres de 51 anos, e nos grupos infantis era de 8 anos. No Distrito de Évora a média era de 50 anos. No Distrito de Setúbal de 42 anos. E o Distrito de Lisboa, com o grupo etário mais velho, a média era de 57 anos.
De referir que Setúbal beneficiou um pouco pelos grupos musicais, que lhes fez baixar a média de idades. Évora também tinha um grupo relativamente jovem, com a média de idades à volta dos 35-36 anos então representado pelo Grupo da GNR. Beja acaba também por beneficiar um pouco com os grupos novos então constituídos como era o caso do Grupo Os Restauradores de Santo Aleixo da Restauração, cuja média de idades era de 30 anos.
Também foram estudados os grupos etnográficos, onde houve o cuidado de ver muito bem até que ponto é que era Etnografia. Poderia ter havido alguma discussão, na medida em que havia grupos que se apresentavam apenas com fatos domingueiros, e esses não foram de facto considerados. Havia ainda grupos muito velhos, que no entanto nunca vestiram etnograficamente.
É de reparar na verdde que eram 19 os grupos que representavam a Etnografia do Alentejo: o distrito de Beja, à cabeça, como é óbvio, com 11 corais masculinos, 2 femininos e 3 infantis, que representavam verdadeiramente a componente etnográfica. Havia grupos que representavam as várias classes sociais, outros só as camponesas, outros só os ceifeiros. Esses representavam, efectivamente a etnografia. No distrito de Setúbal apareceu um, em Grândola, e em Lisboa, nenhum.
Incentivo

Por força deste trabalho sobre os grupos corais então existentes, foi criada uma nova dinâmica que veio alterar o rumo decadente e pouco significativo que então vigorava. Era mesmo aterrador, para quem ama o cante, ver o estado em que o cante e alguns grupos se encontravam.
Em Novembro de 1997 foi organizado pela Casa do Alentejo de Lisboa o 1º. Congresso do Cante Alentejano, onde podemos sintetizar em seis pontos as grandes conclusões deste Congresso:
1. O incentivo à investigação da génese, ainda desconhecida, em certa medida, do cante alentejano, havendo quem sustente a sua origem gregoriana, eclesiástica ou cristã e quem advogue a sua origem arábica ou islâmica.
2. O desenvolvimento de esforços no sentido da constituição de um organismo que seja depositário da memória da idiossincrasia do cante alentejano - um arquivo audiovisual do Alentejo. Neste deverão figurar as gravações sonoras (comerciais ou de campo); os registos visuais dos grupos de cante entoando as melodias, narrando estórias da vida, etc.; os livros e diverso material iconográfico; os trajes; os objectos de artesanato, de trabalho, mineiro, rural, etc.; a colaboração com as Universidades ou outras escolas, onde leccionem especialistas do cante, poderá e deverá existir. Poderá este arquivo estar incluído num futuro Instituto Alentejano da Cultura e Desenvolvimento.
3. A inserção da teoria e da prática do cante alentejano nos programas escolares, havendo quem sustente essa incorporação nas escolas de ensino público e quem defenda a criação de escolas de cante independentes do poder do Estado.
4. A preservação da etnomusicologia alentejana como um todo (o cante, o despique, o baldão a viola campaniça), nesta matéria as opiniões dividem-se, os mais fixistas sustentam que os espectáculos de cante se devem realizar com o traje a rigor tradicional; outros evolucionistas advogam que o cante deve manter a sua genuinidade musical, mas as letras das canções e os trajes podem evoluir e ser adaptados a este final do século XX e a inclusão no cante da voz feminina.
5. A vinculação das autarquias em todos os concelhos alentejanos, na defesa e propagação do cante. As câmaras municipais deverão dar apoio logístico (transporte, sedes para grupos corais, imprensa, etc.) e financeiro aos grupos e escolas de cante, sem que estas caiam no domínio da política partidária.
6. A formação de uma federação de folclore alentejana - a Federação de Grupos Corais Alentejanos que poderá ser a força motriz da formação do arquivo audiovisual do cante alentejano e dos próximos Congressos do cante alentejano.
Foram editadas as actas do congresso no livro: Que modas? Que modos? – 1º. Congresso do Cante - Actas. Ed. FaiAlentejo. 2005.
Sugestões de trabalho a fazer

Hoje as coisas estão diferentes: foram criados novos grupos, com forte implantação dos grupos femininos; ficaram pelo caminho alguns grupos, dos então existentes; alguns destes grupos deram força à expressão etnográfica, etc.
Para além de se fazer a actualização dos dados sobre os grupos corais penso que se deve dar forma a alguns aspectos, que considero importantes, para que se consiga a tal dignificação do cante. Assim tem que se:

. Criar a figura do animador(s)/pronto socorro, aceite(s) por todos os grupos e instituições, com a missão de levar o nosso Cante até às … “estrelas”.

. Sensibilizar/dotar os Grupos corais de capacidade organizativa: estatutária, nos trabalhos nos ensaios e nas participações em eventos públicos;

. Organizar encontros/concursos onde se possa fazer a avaliação dos desempenhos dos grupos, no seu todo e em, pelo menos, 6 atuações, por ano.

. Fazer sensibilização/escola do cante aproveitando o saber dos mestres, junto dos mais novos que estão no ensino escolar obrigatório, ou de outras formas. De salientar que já existem resultados com algum significado em alguns concelhos do Alentejo.

. De forma plural e por entidades competentes e nunca esquecendo os grupos, fazer a divulgação/valorização do cante a nível regional/nacional e internacional.

. Estimular a criação de novas modas considerando os tempos que vivemos e o contexto actual e social do Ser alentejano.

. Recolher/preservar/disponibilizar os registos que existem sobre o cante e a sua história, através dos meios que existem. E são muitos!
O espólio doado à Biblioteca Municipal da Moita – Pólo da Baixa da Banheira

As razões que nos levaram a doar o espólio à Biblioteca Municipal da Moita, pólo da Baixa da Banheira, assentam fundamentalmente nos seguintes considerandos:

1. É uma zona onde existe uma forte comunidade alentejana, capaz de fazer a ponte, tão necessária ao cante, para a sua implantação e divulgação. Está ao pé de tudo!

2. Ter sido na biblioteca Municipal Bento de Jesus Caraça, da Moita, o local onde foi lançado o livro Corais Alentejanos, integrado na iniciativa “Viver o Alentejo” que se realizou de 27 de Junho a 8 de Julho de 1997, neste concelho da Moita. Em tempo, recebi um ofício de agradecimento assinado pelo então vereador José Manuel Figueiredo que a certa altura referia “Com a participação de todos, foi possível demonstrar que o Alentejo, seus alentejanos residentes e não-residentes, continuam vivos e unidos (of. 6859 de 15.07.97).

3. O interesse manifestado pela Câmara Municipal da Moita na aceitação deste espólio, cujo entendimento consta do protocolo, celebrado entre as partes em 28/2/2011. Das obrigações acordadas se salienta a cláusula terceira:

1. …

2. … providenciar o tratamento técnico qualificado dos documentos entregues e a disponibilizá-los localmente para audição, garantindo a preservação dos originais;

3. … assegurar a sua divulgação através dos meios disponíveis, nomeadamente através do catálogo online das bibliotecas municipais.
Tratado do Cante

Gostaríamos de terminar em grande o nosso trabalho com a feitura de um tratado sobre o cante alentejano.
Esta situação não nos será facilitada uma vez mais pelas razões óbvias, já aqui referidas: falta de perfil académico e de apoios financeiros. Não nos devemos esquecer do que disse o prof. Manuel Joaquim Delgado: “Ai dos académicos se não fossem os curiosos”.
Não iremos desistir e tudo faremos para em breve trazer boas novas.
Bem Hajam!
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"Humanos cantes, sagradas crenças

A voz humaniza o silêncio grandioso, chorando a solidão dos campos, no estertor de uma terra abocanhada por sóis insaciáveis.

Misturados com o rumor de searas e insectos, espalham-se no vento, os queixumes melodiosos da ceifeira.

Entre balidos e chocalhos, sobre caminhos de espigas e papoilas, nas longas horas de pastoreio, a garganta é flauta.

Para exaltar o oiro dos seus trinados de amor à vida, pássaros e homens abandonam aconchegos.

São de água e sonho alguns versos cantados,

Semeiam sagradas crenças de pão e liberdade.

E insistem.

Até o coro se derramar nos largos horizontes do sul, onde nascem manhãs de esteva e esperança."
28/5/98
Luís Filipe Maçarico