quinta-feira, janeiro 26, 2017

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“CANTO


(…)
- Quando, há anos, revelámos, num trabalho quase esquecido a extraordinária fonte lírica, notável sob os pontos de vista mais exigentes, que são os Cantos Alentejanos, corrigindo uma informação leve, gratuita, de Oliveira Martins, que, algures havia afirmado que o Alentejo não sabia cantar, - escrevíamos sob a impressão do orfeão mais vivo, natural e maravilhoso, que em terras portuguesas, nos fora dado ouvir!
Ah, o orfeão alentejano é bem o transporte, o êxtase, do homem em canto, sua expressão mais alta e mais funda, como só a encontramos no habitante da estepe eslava; alguma vez, no coral da misteriosa gente dos Alpes.
O Canto Alentejano é belo no seu escuro ou suave tumulto, tal como vem, se despega da índole: se é do génio nativo, do instinto!
Misteriosos cantos! Como Oliveira Martins, quase sempre o cronista do sonho, como dos nossos pesadelos, errou desta vez a figura do alentejano, ao informar-nos, na sua História de Portugal, de que ele só rarissimamente cantava! Bem pelo contrário, podemos afoutadamente dizer, o alentejano, e sobretudo o natural do Baixo Alentejo, rarissimamente deixa de cantar.
(…)”

In: “Alentejo cem por cento”, de Prof. Joaquim Roque. Edição da Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo. 2ª. Edição. 1990. Págs. 81/82.


Joaquim Baptista Roque, Prof. Joaquim Roque como ficou conhecido, nasceu a 26 de Janeiro de 1913, em Peroguarda, concelho de Ferreira do Alentejo e faleceu a 2 de Dezembro de 1995, em Lisboa. Filho de Maria Carolina Pedras e de João Baptista Roque. Casou-se em 1938 com Carmen Rocha Raposo. Professor, escritor, jornalista, etnógrafo e folclorista português dedicou muito da sua vida aos estudos etnográficos do Alentejo tendo recolhido milhares de quadras populares da região transtagana. Foi professor primário em diversas localidades alentejanas, foi adjunto do diretor escolar de Beja e diretor escolar de Lisboa.

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segunda-feira, janeiro 23, 2017

TRATADO DO CANTE - Escrito:

UM ERMO QUE NÃO O ERA
Martinho Marques
Edição de autor
Capa (ilustração): António Paisana
Capa (foto): António Cunha
Setembro de 2015



 “(…)
Apesar do pouco rigor astronómico que tínhamos no monte, celebrava-se a mudança do ano, com serão mais prolongado do que os serões de outras noites, geralmente acompanhado de bebidas doces, de bolos e de um bom jogo de cartas que, no fim, também se acompanhava com bocejos. As horas eram passadas, não só à espera do futuro ano, mas também dos janeireiros, que era costume voltarem algumas noites mais tarde, na noite de reis, cantando as suas janeiras, com versos frequentemente originais, que aludiam aos habitantes da casa, desejando-lhes boas festas em voz alta, e desejando, em surdina, que eles correspondessem com avultada comida para o seu alforge à ousadia do seu canto em coro, quase sempre com interesse, seja qual for o sentido que se atribua à palavra. Naquelas gélidas noites, os cantores, que compreendiam homens e mulheres, tapavam-se com mantas e com xailes, que os abafavam a eles, mas não abafavam vozes, algumas delas tão impressionantes como os seus cantares. Ainda recordo a noite em que o meu pai, se deitara mais cedo, trocando o calor do lume da lareira pelo das mantas da cama, não resistiu à toada dos janeireiros e foi ao seu encontro, erguendo-se, abrindo a porta e levando-lhes as janeiras em forma de moedas, pão e enchidos. Esqueci a sonoridade dos cantores e a qualidade das quadras que arrancaram o meu pai da cama, mas, se eles me pudessem ouvir hoje, eu dir-lhes-ia:

Só sai debaixo da manta
Deixando a cama que é quente
Quem sente no frio quem canta
Fazendo aquecer quem sente

(…)”

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