sexta-feira, junho 08, 2018

TRATADO DO CANTE – Almanaque:


SOU O ALENTEJO

Dedicatória

A quem devo este homem e poeta (José-António Chocolate) que vos apresento:

. A minha mãe, Maria, lutadora decidida e determinada, noite e dia desbravando os caminhos do futuro;

. A meu pai, António, corpo abnegado e sofrido, feito de trabalho, sempre moirejando sob sol e chuva o acrescento à sua parca jorna;

. A minha avó, Mariana, doce carinho, dedicada na construção sensível dum mundo de pormenores e afectos.

(…)
Sou o alentejo

Sou feito de planície
venho da terra chagada
onde cresce cedo
                 a madrugada
e ao sol, o olhar
                 a custo resiste.

Trago no ventre
searas loiras
e o travo quente
de rubras papoilas…
Estou na madrugada
que rouba às raparigas
o bafo morno
                das cantigas.

Sabe-me a boca a amoras
                silvestres
amadurecidas à hora da sesta.

Faço da noite lençóis de
                relento
que o vento soão rasga
                sedento…

Tenho o eco das cigarras
das noites quentes de verão
e uma cor de giesta amarga
                que me grita
                que me espera agreste
no fim de cada estação.

Sou o Alentejo!…
Sou o Alentejo
fecundado na imensidão
do olhar que se embrulha
                 no horizonte
entre um céu de fogo
                 e o chão.”



In: “Todos os Afectos – 30 anos de poesia| Antologia”, de José-António Chocolate. Edição de Estuário. Foto da capa de Ricardo Fonseca. Maio de 2012. Pág.s 35/36