quarta-feira, fevereiro 05, 2014


TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia
 
Alda Casteleiro de Gois, natural de Beja e iniciou os seus estudos musicais na classe da professora Ernestina de Brito Pinheiro. Iniciou o curso geral de violoncelo na Academia de Música do Centro Cultural de Beja, que continuou na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. Licenciou-se em Ciências Musicais e é mestrada em Ciências Musicais na área da etnomusicologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É musicóloga da Fonoteca musical do pelouro da cultura da Câmara Municipal de Lisboa, desde Outubro de 1994.
 
Boa tarde, vou tentar ser o mais breve possível, dado o adiantado da hora, queria no entanto agradecer o convite que me foi dirigido para participar nesta sessão e queria dar os parabéns aos organizadores deste Congresso e a todos os seus participantes. Este painel tem como tema subjacente “A divulgação do cante alentejano” e é exactamente sobre esta palavra “divulgação”, sobre este conceito que eu gostaria de dirigir a minha reflexão. Eu estou aqui um pouco na qualidade de musicóloga da Fonoteca Municipal que é um equipamento de cultural da Câmara Municipal de Lisboa dedicado à música. Pode dizer-se que enfim com aquelas características é único no país, e que tem grandes responsabilidades na área da divulgação musical e não s- em relação ao cante alentejano mas com responsabilidades muito grandes no acesso à informação bibliográfica e discográfica de todas as práticas musicais portuguesas em primeiro lugar e estrangeiras em segundo. Portanto é um pouco nesta qualidade que também gostaria de falar e de reflectir sobre este conceito. Também enfim porque realizei um pequeno trabalho de campo com o grupo coral de Tires portanto sobre o cante alentejano numa disciplina de etnomusicologia aquando da minha formação, licenciatura, uma, enfim, uma das ideias que surgiu sempre não s- naquele grupo mas foi veiculada por todos os grupos que participaram em inúmeras actuações a que eu assisti na altura do trabalho de campo, foi uma frase sempre sempre presente: “nós estamos aqui para divulgar a cultura alentejana e o cante alentejano em particular”. Então a palavra divulgação, divulgar, o acto de divulgar tem-me perseguido sempre desde o trabalho de campo e enfim na minha vida profissional e gostaria de começar por definir este conceito de divulgação pegando em cinco termos que lhe são sinónimos. Um deles é mostrar, divulgar é mostrar, é revelar, é publicar, é difundir e propagar. A quem? Com que objectivos? Como? e Porquê? São algumas das questões que podemos colocar a quem tem responsabilidades na área da divulgação. Podemos divulgar a um público em geral, a um público muito específico, que pode ser enfim, podemos ser todos nós aqui amantes do cante alentejano, mas que pode ser um público ainda mais específico, digamos especializado que pode ser uma comunidade científica, por exemplo, e podemos divulgar a vários níveis. Podemos divulgar a um nível digamos local, ou regional, podemos e devemos divulgar a um nível nacional mas também temos necessidade de divulgar a um nível internacional, tendo sempre em vista a valorização do cante alentejano em particular que é isso que nos reúne aqui, mas de todas as práticas musicais portuguesas tradicionais rurais ou urbanas ou outras. E eu gostaria enfim de identificar nesta minha reflexão quais são os grandes modos pegando também um pouco na legenda do Congresso. “Que modas? ... que modos?”, nos modos de divulgação que existem formas de divulgar, e identificar os agentes dessa divulgação. Portanto eu já referi cinco termos importantes sinónimos da palavra divulgação: mostrar, revelar, publicar, agregando estes três eu refiro-me concretamente a uma revelação através da escrita, e não aqui enfim maçar-vos com a importância que foi por exemplo a invenção da imprensa porque eu acho que toda a gente tem a noção do impacto que isso teve no acesso à informação enfim de toda a gente mas enfim gostaria de enfatizar a parte da difusão e propagação a um outro nível que tem a ver com os media e que tem a ver com a invenção do fonógrafo essencialmente que permitiu a gravação de som. Antes de reflectir enfim muito concretamente sobre estas coisas gostaria de traçar uma breve perspectiva histórica em relação às formas de divulgação da música tradicional, das músicas tradicionais portuguesas em geral do cante em particular, identificando os agentes de divulgação que foram aparecendo. Como referem Salwa Castelo-Branco e Toscano no artigo insert of.... documentation Traditional Music of Portugal publicado em 1989 no ....Book  for Traditional music nº. 20, que é uma publicação do Conselho Internacional para a Música Tradicional, o interesse local pelo estudo e pela divulgação da música tradicional portuguesa remonta à Segunda metade do século XIX. Desde os anos 70 que alguns aspectos relacionados com a música tradicional portuguesa desempenhada nas zonas rurais foram investigados e documentados por musicólogos portugueses como os professores, antropólogos, folcloristas, entusiastas e eruditos locais. Estes, movidos e inspirados pelos ideais do Romantismo português, procuravam nas zonas rurais o que era puro, autêntico e genuíno do mais arcaico na cultura popular e como as tradições musicais portuguesas são em sua maioria tradições rurais orais, através da escrita e particularmente pela técnica da transcrição musical que procuravam registar, recolher, estudar e em última análise divulgar a autêntica música tradicional portuguesa. E foram estes os propósitos que levaram aqueles estudiosos a realizar inúmeras transcrições musicais, as primeiras foram publicadas em 1872 por Neves e Melo, harmonizações de melodias recolhidas através da técnica da transcrição, harmonizações essas para piano, piano e canto e versões estilizadas de melodias tradicionais para bandas militares, orquestras e coros amadores. Portanto tomemos então estas três publicações de transcrições musicais, harmonizações e versões estilizadas como as primeiras formas de divulgação das músicas tradicionais portuguesas em geral como os primeiros agentes de divulgação dessas músicas estudiosos como, por exemplo, foram José Leite de Vasconcelos, Neves e Melo, César das Neves, Claudino Campos, António Rui entre muitos outros. A partir dos anos vinte deste século, a investigação e a documentação aumentaram quantitativamente. Surgem várias publicações sobre géneros musicais e instrumentos onde aparecem tradições musicais que funcionam agora como complemento a determinadas análises. Preocupados com a necessidade de salvaguardar e preservar as tradições musicais sobreviventes de práticas culturais pensadas como arcaicas e tidas como autênticas, os principais estudiosos e entendamos mais uma vez como divulgadores de um período que vem portanto dos anos vinte e que vai estender até ao 25 de Abril de 1974, o Padre Marvão no Alentejo, muito concretamente, Sampaio Pires de Lima, Rebelo Bonito, Veiga de Oliveira, Rodney Gallop, Armando Leça, Mário Dias e Jorge Dias, Michel Giacometti e Lopes Graça. Mas foi nos anos quarenta que se aplicou em Portugal uma outra técnica que não s- regista como divulga, e divulgar neste sentido tendo presente a palavra difundir, que divulga e difunde toda e qualquer informação oral que é a técnica da gravação que dá origem a outro tipo de documento que é o registo fonográfico. E o registo fonográfico pode ser encarado como documento passível de publicação ou edição, e aqui estamos no nível da divulgação enquanto publicação, e como um suporte ou meio de grande difusão não apenas em si próprio mas por ser vital para qualquer um dos mass media, o rádio ou a televisão são os principais. Nenhuma arte tradicional foi tão revolucionada pela natureza e pelos modos de prática e de comunicação pelos novos media, e pelas tecnologias de gravação de retransmissão e sínteses como o foi a música. A gravação possível graças à invenção do fonógrafo por Charles Crosson e Thomas Edison, proporcionou a conservação do objecto sonoro e a sua reprodução quase ad infinitum. O objecto sonoro não volta a desvanecer-se após a sua emissão como acontecia a todo o fenómeno audível antes da invenção do fonógrafo. A gravação, e agora não me refiro apenas à gravação áudio mas também à gravação visual, ou audiovisual combinadas, é a grande alternativa à transcrição musical que foi o primeiro modo de divulgação que eu referi, ser enfim mais fidedigna, mais completa, na ilustração de uma prática musical ou de um evento seja de que natureza for. E há várias gravações de música tradicional portuguesa que foram levadas a cabo por exemplo por Rodney Gallop, por Armando Leça nos anos 40, Artur e Túlia Sents, concretamente nos Açores e Giacometti e Lopes-Graça que publicaram uma antologia da música tradicional Portuguesa em cinco volumes onde está incluído o Alente como toda a gente sabe, e que também tiveram uma acção importante na edição de uma série televisiva que tem como título “O Povo que canta”. Também penso que muita gente conhece. Se calhar muita gente não viu ainda na íntegra mas toda a gente tem a noção que foram importantes formas de divulgar não apenas o cante alentejano mas a música tradicional no seu conjunto. Hoje em dia temos, a partir de 1974, vários estudiosos, chamemos-lhe locais que tem contribuído imenso para a divulgação do cante alentejano em particular e de outras formas de práticas musicais que foram por exemplo: Manuel Joaquim Delgado, Padre Marvão, Padre Cartageno, Padre Aparício, Victor Santos, Lopes-Graça pelas suas publicações sobre a canção popular portuguesa e no artigo publicado nas suas obras literárias Disto e Daquilo, onde tem um artigo intitulado “Acerca do cante alentejano”. Temos uma contribuição muito importante dada por Ranita da Nazaré com as publicações: Música Tradicional Portuguesa, Cantares do Baixo-Alentejo, publicado em 1979 e Os Momentos Vocais do Baixo-Alentejo publicados em 1986. Mas Ranita da Nazaré não fez apenas livros, não escreveu só sobre cante alentejano, também realizou inúmeras gravações que eu não sei se existem cópias em Portugal mas sei que pelo menos estão depositadas em três instituições, uma delas é o arquivo do departamento de etnomusicologia do Musée des Arts et Traditions Populaires, estas datas de 1966, umas outras que estão no Laboratoire de líInstitut de Musicologie de la Faculté des Lettres et des Sciences Humaines, em 1967, e no Arquivo do Departamento de Etnomusicologia do Museu do Homem, gravações efectuadas em 1968. Portanto estão em Paris, em França. Depois houve uma publicação muito importante que foi editada em 1982 e que disponibilizou muita informação aos estudiosos locais e a outros investigadores, que foi a “Tradição de Serpa, revista mensal de etnografia portuguesa ilustrada”. Nos anos 80 foi criado o Departamento de Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, e foi criada também a disciplina de Etnomusicologia da qual a professora Salwa Castelo-Branco, que está aqui presente, é responsável e que tem realizado também um importante trabalho de investigação em relação ao cante alentejano, trabalho esse que se tem centrado essencialmente sobre o fenómeno da imigração para a bacia industrial de Lisboa e Setúbal, estudando os grupos actuantes na Área Metropolitana de Lisboa e também os grupos residentes no Alentejo, como foi o Grupo “Os Ceifeiros” de Cuba, por exemplo. Tem publicado alguns artigos, enfim vamos considerá-los de divulgação, porque divulgar é publicar, sobre o cante alentejano e sobre as músicas tradicionais portuguesas em geral. São artigos de síntese de referência obrigatória, cito por exemplo em relação ao do cante publicado em 1992 que tem a ver com alguns aspectos do cante da tradição de Cuba, publicado num livro que foi editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, para citar apenas um. Tem também tido uma acção muito importante e interessante que se pode ver e testemunhar ou seja a edição do disco “Músicas tradicionais de Portugal” publicado pela “EMI SONY Recordings” onde o cante alentejano também teve lugar e ocupou uma presença muito forte com a gravação de várias modas e uma outra acção de divulgação em que o cante esteve presente graças à acção desta investigadora que foi o festival sobre a voz que teve lugar na Figueira da Foz e Leiria que foi patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian e aí o cante teve também um papel muito importante. Está também em elaboração com a colaboração de algumas entidades mas coordenado pelo Instituto de Etnomusicologia, a elaboração de um CD Rom de músicas tradicionais portuguesas onde o cante alentejano com certeza vai ter o seu lugar. Identificando os grandes agentes de divulgação e aqueles que tem responsabilidade em divulgar o cante alentejano concretamente, tem-se falado aqui muito dos grupos corais e esses realmente têm uma grande responsabilidade a este nível, estou-me a referir aos que estão naturalmente organizados, ligados ou não a associações recreativas, porque eles são os portadores, são eles que desempenham o cante alentejano. São eles muitas vezes que organizam encontros, com outros grupos que incluem actuações, desfiles, debates, são eles que participam em concursos, são eles também, além de divulgarem o cante alentejano desta forma, produtores e editores de cassetes áudio com as suas modas. E digo cassetes porque esse é o suporte principal de divulgação neste momento embora já existam muitas gravações em CD que incluem cante alentejano ou especificamente sobre cante alentejano. Não são s- os grupos que tem responsabilidades na divulgação do cante alentejano. Todos os investigadores, estudiosos locais ou não, tem, uns a nível local, outros a nível nacional, e também ao nível internacional, grandes responsabilidades na divulgação desta prática musical, desta e de outras mas vamos concentrar-nos nesta, eles são mediadores de diversos universos sociais e culturais, através das suas publicações, quer sejam de artigos, livros, ou através de outros suportes documentais sonoros ou visuais como o filme etnográfico ou a cassete, fonograma, seja cassete ou CD, e por isso eles têm grandes responsabilidades na divulgação e na promoção daquilo que estudam porque a valorizam. E eles, se forem agentes culturais, a sua responsabilidade é duplicada na medida em que, conhecendo as várias práticas musicais e se têm acção na área da animação cultural, devem integrá-las sempre, criar programas, criar espaços para que elas continuem a ser divulgadas. Aqui também poderia referir o papel das bibliotecas, das fonotecas realçando a de Lisboa, onde estou e a da Biblioteca Municipal de Beja. Nós, enquanto bibliotecários, documentalistas, musicólogos, investigadores, temos sempre muita responsabilidade nesta área da divulgação. É de louvar a Casa do Alentejo de Lisboa que tem sido incansável na divulgação do cante alentejano, nos inúmeros encontros que organiza, nos colóquios, nos debates, na organização deste Congresso, no Dia do Alentejo que se viveu há bem pouco tempo em Lisboa, nas publicações periódicas de divulgação que edita e na página da Internet por ser mais um veículo para que muita gente conheça o cante alentejano. Tenho de referir também o Directório de Grupos Corais publicado pelo senhor José Francisco Pereira que é uma ferramenta imprescindível a qualquer investigador, estudioso, agente cultural, interessado no cante e o papel dos media. E aqui gostaria de me referir sobretudo ao papel das rádios locais ou regionais, fundamental na revitalização, manutenção, divulgação e mediatização de qualquer prática musical que no Alentejo têm grandes responsabilidades a nível do cante e outras práticas. Tivemos aqui um testemunho do cante ao baldão e eu sei que existem outras. E os jornais regionais que criem espaços de debate, de diálogo e que promovam e divulguem estes eventos sempre. Depois há um outro agente de divulgação muito importante que são as editoras discográficas e agora estou-me a referir à gravação das músicas tradicionais e do cante em si. Há uma grande actividade local que é preciso referir: A ImensoSul que editou o CD “Cante e de Natal e Ano Novo, Corais polifónicos Alentejanos” em 1995 e que apoiou a edição do disco “É tão grande o Alentejo”, pelo Coral polifónico “Os Ganhões de Castro Verde”. Ao nível nacional tem aparecido algumas etiquetas interessantes como por exemplo a EMI Terra que tem 2 discos de cante alentejano: “Castro Verde, Vozes das Terras Brancas”, pelo Grupo Coral “As Camponesas de Castro Verde”, editado em 1996, e o “Pias, Cante da Margem Esquerda”, pelo Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias”, com edição do mesmo ano. Depois houve uma outra colecção que saiu publicada pela Moviplay, uma outra editora discográfica muito importante em Portugal e que é a colecção “Folclore Português” que também tem um título dedicado ao Alentejo e aí estão representados mais do que o cante alentejano há outras práticas, mas é uma referência importante na divulgação do reportório musical do Alentejo. Terei que referir obviamente a contribuição de José Alberto Sardinha na elaboração da colecção “Portugal, Raízes Musicais”, no volume dedicado à Estremadura, Ribatejo e Alentejo, que foi publicada pelo Diário de Notícias, este ano, e referir por último nesta área das edições discográficas um caso muito curioso que é o disco “Por minha dama” da Ala dos Namorados, editado em 1995 pela EMI – Valentim de Carvalho que tem na faixa 13 uma tema que se chama “Canção de Ida e Volta” que imaginem é interpretada pelo Grupo Coral e Etnográfico de Pias e esta é uma colaboração muito interessante. Porque a Ala dos Namorados é uma Banda que se move na área do Pop português. Este trabalho irá divulgar o cante alentejano. Além destes há o disco das “Músicas Tradicionais de Portugal” que já referi coordenado pela professora Salwa Castelo-Branco. Há também um disco publicado pela Unesco em 1988 “Portuguese Traditional Music” onde o cante alentejano está presente, e dois editados lá fora uma pela Player Sound “Portugal Music Traditionnel de l’Alentejo” e outro pela New Ton, “Modas, Polifonias Vocais do Baixo-Alentejo”, este publicado em Itália, exclusivamente sobre cante alentejano. Mas toda a divulgação s- é possível se houver apoios e há várias instituições ou organismos que devem ser geradores ou patrocinadores de actuações, de concursos, de publicações periódicas, de edições discográficas ou que proporcionem tempo de antena ao cante alentejano. E ao nível nacional verifica-se uma grande lacuna que é a inexistência de uma fonoteca nacional, ou melhor, de um arquivo fonográfico nacional com ou sem delegações distritais, e o não existir legislação que aplique a lei do Depósito Legal aos meios audiovisuais é outra lacuna brutal e essa afecta-me directamente a mim enquanto musicóloga da Fonoteca Municipal de Lisboa. Nós temos de comprar tudo por não existir uma lei de determine o Depósito e isto devia ser obrigatório tal como a criação do Arquivo Fonográfico Nacional. Este arquivo não deve apenas proceder ao levantamento sistemático das edições fonográficas das músicas tradicionais portuguesas, o cante alentejano em particular, já existentes, mas também deve reunir e sistematizar todos esses documentos fonográficos originais ou cópias porque há muitos que estão fora do país, fruto do trabalho de campo de investigadores ou estudiosos portugueses (como por exemplo as gravações de Ranita da Nazaré) ou estrangeiros em Portugal e que estão inacessíveis por se encontrarem dispersos em instituições nacionais ou estrangeiras, locais ou em mãos particulares. Esse arquivo também devia proceder ao levantamento e registo sistemático com base em critérios válidos e metodologias sólidas e todos os eventos expressivos portugueses relevantes ao estudo da música tradicional portuguesa e aqui refiro-me claramente a encontros desta natureza, a actuações importantes, a concursos, porque não? Esse arquivo também deveria tratar, classificar, analisar, conservar e difundir e sempre que possível permitir o acesso ao espólio a seu cargo, não devendo funcionar apenas como um repositório com funções de preservação mas ter um papel dinamizador desse mesmo espólio, promovendo edições discográficas e bibliográficas especializadas ou de carácter generalista e a par da organização de eventos que promova o diálogo entre grupos corais, entre investigadores e o público em geral. Ao nível local, estas responsabilidades recaem necessariamente nas Câmaras Municipais, nos seus pelouros da cultura, em associações a que eventualmente os grupos estejam ligados ou não e nas rádios. A nível nacional, a televisão tem um papel importante não necessariamente a nível regional e se falei no arquivo fonográfico nacional terei que referir a professora Salwa Castelo-Branco da necessidade da criação de um centro de documentação ou de um arquivo regional onde sejam depositados todos os documentos produzidos sobre o cante alentejano, sobre o baldão, sobre todas as práticas musicais do Alentejo. Que fiquem ali guardadas, que sejam preservadas e que estejam acessíveis a todos os interessados, investigadores ou não, para que o debate continue e seja profícuo. Os grandes responsáveis que estão ausentes nestas questões são as rádios nacionais que não divulgam nem o reportório gravado nem dão publicidade ou cobertura aos grandes eventos relacionados com o cante alentejano ou com as músicas tradicionais portuguesas, da televisão que tem responsabilidades a nível nacional, e reparem que não é só no reportório gravado é publicitar estas coisas, e os jornais de distribuição nacional muitas vezes não encontram um espacinho na sua folha para um artigo, um pequeno cartaz para divulgação destas iniciativas e sobre isto têm que ser chamados à atenção. Para terminar, gostaria de alertar para que todos tivéssemos consciência que todos os documentos escritos ou audiovisuais, todas as acções de animação cultural que se promovam, sejam actuações, desfiles, encontros, concursos, contribuem por um lado para a manutenção do reportório musical tradicional e promovem por outro a revivificação e recriação desse mesmo reportório. É extremamente importante criar espaços de reflexão e debate como é o caso deste Congresso, e eles devem reflectir a música sempre como um processo dinâmico devidamente contextualizado do ponto de vista sociocultural e devem abordar problemáticas actuais e emergentes como são por exemplo o estudo do impacto da mudança político, cultural e social da tradição do cante alentejano, o impacto do contexto urbano no desempenho de uma tradição musical que é originalmente rural e o impacto das indústrias da música no desempenho do cante alentejano e ao mesmo esses espaços de reflexão e debate devem promover a colaboração entre os diversos agentes de divulgação tendo sempre por objectivo último a valorização das músicas tradicionais portuguesas e do cante alentejano em particular
Obrigado!
Drª. Alda Gois

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

TRATADO DO CANTE:

Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997
 
PAINEL D VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia



Comunicação do Eng. Manuel Ramalho

Eu não tinha intenção de falar hoje mas fiquei bastante emocionado, é o termo, com a homenagem que o senhor Cónego Aparício prestou a um homem da minha terra, a um mestre do cante. É coisa que nós nunca ouvimos de facto nestas coisas sobre o cante e de cultura popular falar nas pessoas que fazem as cantigas porque alegadamente e de facto com toda a justiça, quando uma coisa vem para a rua pertence ao povo, é de toda a gente, mas esquecemos de facto estas pessoas. Conheci muito bem, foi um homem que privei muito com ele, o mestre Estêvão Branco, um homem extraordinário que fez coisas lindíssimas que algumas delas temos gravadas e que não conhecidas das pessoas, outras tenho-as na memória. Esse é de facto o meu agradecimento pela homenagem que prestou a este homem. O que eu vejo aqui “Que Modas, que modos” como legenda deste congresso e de facto algumas das coisas que eu irei aqui dizer já se falaram ontem, peço desculpa se isso for repetição, s- como eu não estive cá ontem enfim ... vou começar por cantar uma moda que ilustrará o que eu vou dizer, é assim: “Ó lampião, lampião/alumeia rua abaixo/eu perdi o meu anel/às escuras não n’o acho/às escuras não n’o acho/ deixei-o cair da mão/alumeia a rua abaixo/ ó lampião, lampião”. Ora bem, aqui à cerca de 50 anos, eu tenho 52, nasci ali num monte entre Amareleja e Moura, e quando se trabalhava no campo com muito mais gente nas mondas, havia um homem que veio à Amareleja que tinha por incumbência buscar o avio para aquela gente toda que estava lá, um exército de gente à monda. Era o mano Ca Cau. Na Amareleja não chamo “tios” aos mais velhos, chamam “manos”. O mano Ca Cau lá veio num carro de parelha à amareleja buscar o avio. Trazia uma série de encomendas: de feijão, de massa, de arroz, de azeite, de carne, disso tudo. Passou-se um, dois, três, quatro dias e o mano Ca Cau não aparecia. E o lavrador lá se meteu no carro e foi à busca dele e encontrou-o já na estrada nova quase a entrar no monte estiraçado em cima de uma quantidade de sacos, cantarolando. O senhor, claro, todo zangado, disse assim “então só a uma hora destas é que chega?!...” e ele desce por ali abaixo e quando chega: “senhor compadre, não se zangue comigo eu venho atrasado mas trago uma moda nova”. Era esta do Lampião. Há cerca de três ou quatro anos em Lisboa com uma quantidade de amigos que nos juntámos para almoçar, pessoas dos Serviços Florestais, onde eu trabalho, às tantas propuseram: vamos lá cantar uma cantiga alentejana, vá começa lá tu, vamos cantar “Menina estás à janela”. E eu: “Menina estás à janela/com o teu cabelo à lua/”. Começou logo tudo a gritar: “é pá isso não é assim” “mas então isto não é assim?” – até me assustei – “então não é assim, então como é que é?” e ele então ensinou-me: “Menina estás à janela/com o teu cabelo à lua” ... Ora bem, isto é o que eu posso chamar “cultura de ricochete, isto vai lá para fora, depois vem cá para dentro. É preciso ver quando agente fala “que modas e que modos” que modas sobretudo eu não direi que o cante terá os dias contados, de maneira nenhuma, mas há necessidade absoluta de preservar aquilo que existe para que ele fique guardado e não lhe façam mal. Será com um Instituto, como já foi proposto e acho muito bem, será com outros organismos, enfim, possivelmente milhentas propostas foram feitas e de toda a validade. Seria muito importante recuperar... – julgo que estará em Cascais todo o espólio de Giacometti, coisa de muita vali, homem com quem privei algumas vezes -  enfim, para que não haja adulteração das modas (e não se pode chamar a isso uma modificação, uma evolução do cante). O cante é como foi feito, com uma certa vivência no campo, com os trabalhos, cantigas de bailes, cantigas de namoro. Tudo isso se perdeu, essa forma de viver no campo. Portanto, tudo isso terá que ser preservado para não ser adulterado como vemos muitas vezes por aí. Outras será talvez a maneira de vestir do cante, a forma das pessoas se apresentarem. Vemos grupos que aparecem vestidos de uma forma ... As pessoas nunca se vestiram assim. Haverá grupos que têm esse cuidado de se apresentarem, de parecerem com os ceifeiros, o porqueiro, o cabreiro, tudo isso tem muita valia, outros com o seu trajo domingueiro. Mas depois põem um lenço, sabe Deus como, que não terá muito a ver com a forma como as pessoas se vestiam. Então haverá que ter esse cuidado, penso que, não só o cante ser representativo daquilo que se cantava como a forma de vestir também era assim. Portanto isto foi só uma ilustração destas coisas que eu aqui disse. Mas primeiro que tudo e foi para isso que eu aqui vim e repito, o meu agradecimento ao senhor cónego pela homenagem que prestou a um homem a minha terra, o mestre Estêvão Branco.

Obrigado!
Eng. Manuel Ramalho
TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL D VALORIZAÇO DO CANTE ALENTEJANO
-         Ensino e Etnografia
 
COMUNICAÇÃO DE RUI BEBIANO
Boa tarde. Ainda integrado na questão da divulgação eu queria chamar a atenção de uma nova tecnologia que é a Internet. Este meio dá acesso a uma grande quantidade de informação e dá a possibilidade de acesso imediato a nível mundial Numa página da Internet eu posso colocar imagens dos grupos, o seu historial e uma lista de edições fonográficas. A divulgação que vos estou a mostrar foi feita para uma apresentação do 9º. Congresso do Alentejo e dentro do projecto Alenet que começou em Abril deste ano e que não é só dedicada ao cante alentejano mas também à divulgação e centralização de informação sobre o Alentejo. Tem uma agenda de acontecimentos culturais e desportivos, tem um roteiro que pretende ter informação breve sobre todos os concelhos do Alentejo. Por outro lado também tem uma listagem sobre todas as páginas que existem na Internet sobre o Alentejo feitas ou não por alentejanos e também fez, em colaboração com a Casa do Alentejo, a divulgação deste Congresso do Cante Alentejano. Aproveito para pedir desculpa ao António Cunha por ter usado uma fotografia dele sem autorização mas espero que ele não me vá processar por isso. Há duas coisas que são importantes além da divulgação e da constituição de um arquivo do cante disponível a nível mundial. Há dificuldade em localizar a informação que está dispersa mas, através da Internet, pode saber onde está a informação. A Direcção Regional de Educação do Alentejo criou uma rede de Escolas Básicas do Ensino a nível de todo o Alentejo e um dos objectivos do projecto é uma ligação através da criação de páginas para a Internet das crianças e dos jovens à comunidade. Estou-me a lembrar da Escola Básica de Vila Nova de São Bento que já tem músicas do Grupo de Aldeia Nova que se podem ouvir em todo o lado. Acho que é uma oportunidade que se pode aproveitar para motivar a juventude e fazê-los regressar aos valores culturais locais e redescobrir as suas origens. Deixo um apelo a todos os grupos e pessoas que tem apreço pelo estudo do cante que colaborem para se criar um arquivo em que cada grupo esteja representado com fotografia, historial e pelo menos duas modas.

Obrigado!
Rui Bebiano