sábado, outubro 08, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO




"(...)

Minha mãe amassa os passos
De quem passa à nossa rua –
Corta-se o pão em pedaços,
E o rumor lá continua.

Ó pão feito com medronho,
Fermento de embriaguez,
Nesta quadra aqui te ponho,
Pra levedar outra vez.

(Mãe, integraste o negrume
Que atrás de nós se arrasta –
Esse carvão virou lume,
Minha alma ficou mais vasta.)

(...)"

de António Simões

quinta-feira, outubro 06, 2016

TRATADO DO CANTE - Referências:

ARTISTA PLÁSTICO DO CONGRESSO DO CANTE ALENTEJANO REALIZADO EM BEJA EM 8 E 9 DE NOVEMBRO DE 1997:

ANTÓNIO GALVÃO  
Nasceu em Moura, 1945. 

Está representado em diversas colecções nacionais e estrangeiras. 





(…)

“... Em António Galvão a primeira pincelada de cor que lança na tela é um espaço branco de esperança, o encontro do seu coração em ardências frescas e mutações azuis... A gala de amar a sua Moura ... Esta preocupação é um caso impar na pintura portuguesa.”
Artur Bual
                 
“... António Galvão é um poeta que, justamente por ser poeta e alquimista, não se limita ao inventário, à recenção ou ao testemunho do real, mas sim e principalmente à criação ou recriação que não sendo cópia nem retrato do real, é, por isso mesmo, a sua mais exacta (e bela) imagem.
Traduzido para o papel ou para a tela, o Alentejo (e não só) é, na interpretação deste pintor de traços circulares, o camponês onde a vida desliza com o invencível movimento dos mundos num recolhimento de eternidade.
Na circularidade dos traços, o labirinto das esferas.”
Miguel Serrano

“No flagrante sentido de a pintura ser sempre uma "imitação" ou "reinvenção" do real que se projecta na realidade visível e imediata do mundo e das coisas, toda a arte pictórica se revela, aos olhos de quem a observa, como profundamente humana e nada a pode substituir na vitalidade própria que manifesta. Portanto, pode dizer-se que o pintor se impõe na escolha dos pormenores, imagens ou fragmentos mais expressivos da vida e depois os sabe combinar e harmonizar na composição dos quadros - e nessa forma de categorizar os seus "modelos" ou "alquimias" como matéria pictural, desdobra intencionalmente esse mesmo e pessoal "discurso" nas razões da sua emotividade e entendimento do mundo.
Ora, ao olhar-se estes últimos trabalhos de António Galvão, patentes nesta exposição, na natural expectativa de mostrar a sua pintura e saber das reacções e gostos de quem a aprecia, na profusão de tintas e aproveitamento dos fragmentos pictóricos destas "têmperas", numa mistura e osmose de outros sonhos ou espaços que a dimensão destes quadros não deixa "respirar" com maior nitidez, o que sobressai deste "discurso" é (ainda) a intenção primeira de ronovar o seu diálogo com os outros, ou ainda e sempre o acto de fazer com que a pintura seja o lado "visível" do que se não diz ou se esconde. Por isso, nas sombras, imagens e manchas destes quadros, de um claro sentido pictórico «bualesco», António Galvão percorre as veredas dos mesmos sonhos e nostalgias de uma constante memória alentejana, nitidamente evidenciada na imagem fugaz de uma tourada, na sugestão de sóis e figuras de um idêntico e longínquo Alentejo que se não cansa de fixar e reviver.
No sentido pictórico destas "alquimias", na presença de um surpreendente Pessoa ou de figuras femininas escondidas ou disfarçadas em manchas mais escuras, nessa propositada e labiríntica combinação de azuis, amarelos, ocres, vermelhos, o que importa ver nos trabalhos de António Galvão é a atitude de quem leva a vida a pintar, na permanente canseira dos trabalhos e dos dias, redescobrindo por entre esses sonhos de pintor a "verdade" de uma arte que só descobre ou deixa olhar o que os nossos olhos puderem e quiserem ver. Porque se trata de uma pintura que não inquieta e permite sossegar os olhos, imaginar o que está para lá das sombras e manchas, mesmo no aproveitamento pictórico do seu suporte final (pinturas sobre cartão ou "alquimias" procuradas de outros sonhos picturais), os trabalhos de António Galvão reafirmam o empenhamento do pintor em persistir na sua linha de rumo, como verdadeiro e coerente sentido da sua pintura.”
Serafim Ferreira

“A António Galvão
- Companheiro-poeta de patrícia memória, esta emoção telúrica de uma tela revisionada)

                   Uma quente paisagem
                   Um horizonte exangue:
                   Sobreposta, a imagem
                   de um rosto sem nome:
                   - Nem sulcos de sangue
                   nem sinais de fome

                   Que quadro perfeito
                   visão e raiz
                   de um conceito
                   da mesma matriz.

                   Por isso, o abraço,
                   A breve ternura
                   ressalta do traço
                   da luz, da pintura.

                   É casual o espaço,
                   madrugada pura.”

Domingos Janeiro

in: "Boletim do Cante Alentejano". nº. 2. Outubro de 1997.


terça-feira, outubro 04, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:


“Pode lá deixar de ser belo um entardecer de Outono, quando o tom ocre dos restolhos é já cinzento e o verde das azinheiras e silvados se dilui também nessa meia-tinta, nesse tom incerto que não sendo azul não é cinzento, por cima do qual o céu se mostra ainda em fogo, enquanto ao longe, do “monte” perdido entre os montados de azinho, vem uma voz que entoa uma canção dolente, o “cante” alentejano, hino que louva e chora o sol que morre...”

Transcrito de um jornal militar da então portuguesa Guiné-Bissau:

In: Boletim do Cante Alentejano, nº. 0. Agosto de 1997.