domingo, novembro 13, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“EM TERRAS DE SERPA 


 (…)
Pelas paredes caiadas de branco há escritos com petições a Nossa Senhora, como por exemplo: … esta dos encantos do amor: Aqui esteve Zé Pinto e sua namorada Helena Verdocas, a pedirem a Nossa Senhora saúde para se casarem.

«««!»»»

OLHA A NOIVA SE VAI LINDA

Compadre já te casaste
Já o laço te apanhou
Deus queira que sempre digas
Se bem estava,
Se bem estava melhor estou 

Olha a noiva se vai linda
No dia do seu noivado
Também eu queria ser, (bis)
Também eu queria ser casado

Ser casado e Ter juízo
Acho que é bonito 
Também eu queria ser, (bis)
Também eu queria,
Também queria ser casado


À luz daquela candeia
Foi feito o meu casamento
Ó candeia não t`apagues
Hás-de ser,
hás-de ser um juramento

«««!»»»
(…)
Furando o silêncio portentoso da noite mulçumana, cantam dois serpenses uma moda em louvor das estrelas. Os seus vultos recortam-se ao longo de uma rua de casas caiadas de branco. Ouvem-se as suas vozes asseadas na calidez da noitaça, roubando poesia às sombras e a pouco e pouco as cantigas sobem de volume, arrastam outras vozes, forma-se um rancho coral de genuínos cantadores de lendas e martírios:
Ó Serpa, pois tu não ouves
Os teus filhos a cantar?

Serpa ouve muito bem, e às janelas assomam cabeçasa humanas, dando as boas-noites à melodia.
Estamos no coração do folclore alentejano, nos lugares acolhedores onde se murmuram as canções da saudade e do autêntico amor português à terra e à grei:
Enquanto os teus filhos cantam
Tu, Serpa, deves chorar…

Não chora, mas cisma. Serpa é uma vila (hoje cidade) de casas de muita história. As crianças entoam cantigas ao poial das casas, ou em qualquer recanto da vila. Cantam também os adultos serenas melopeias arrancadas à quietude da terra.
Mulheres embiocadas em lenços de algodão ouvem as estrofes dos seus homens e acompanham-nos em surdina. Desde Ficalho, ao rés da raia, até à linda vila (hoje cidade) de Moura, Pias, Santo Aleixo da Restauração, […] e Aldeia Nova de São Bento, os camponeses cantam o seu destino vário, em versos de esperança e de angústia, de alegria e tristeza, cantam por vocação e por necessidade.
Às quatro da manhã, ainda não tinha rompido a bela aurora, uma voz perdida iniciou um canto mavioso:
Já lá vai a nau prás Índias
Já lá vão os navegantes …

É um poema de harmonia a música desta moda. No silêncio perfeito da madrugada responde o rancho de almocreves, em companhia de duas puras vozes femininas:
Choram as mães pelos filhos
E os filhos pelas amantes …

Quebra o enguiço do calor, que toda a tarde durou, o bruxedo das cantigas. Dá vontade de chorar e de sorrir, ao mesmo tempo. O canto alentejano ouvido pela telefonia perde, porém, quase toda a sua grandeza épica. Aqui, sim, na própria raiz donde a sensibilidade se transfigura e desentranha em vida fulgurante, se evolam para o espaço e entram direitinhos no coração do povo os castos versos do amor e da saudade:
Dei um ai entre dois montes
Responderam-me as montanhas.
Ai de mim que já não posso
Sofrer de ânsias tamanhas …

Terras de Serpa ao luar! Serpa bebendo água nas lágrimas cetinosas do rio Guadiana! Serpa dos restolhos e dos olivedos, Serpa das grandes lavouras, das rimas inesperadas e dos poetas – que vais cantar amanhã?”




In: “Alentejo é sangue”, 2ª. edição revista e aumentada, de Antunes da Silva. Capa de Luiz Duran. Livros Unibolso. (p.123 a 126).