sábado, junho 04, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:


“(…) O primeiro Portugal foi o Portugal continental, o da defesa contra a Espanha, ou melhor, contra Castela, (…) o Portugal lírico e guerreiro das cantigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; nele estiveram as raízes mais profundas da nacionalidade (…).
(…) Terminada a fase de expansão, outro Portugal entrou em jogo e muito mais adaptado à sua tarefa do que o Portugal do Norte (…): é esta a vez do alentejano, andarilho de estepa, algarvio, barqueiro de porto a porto, ambos já, por subditos mouriscos, colonos e crioulos. Também, por símbolo, Raposo Tavares nasce no Alentejo, e vão das Ilhas, com raízes alentejanas e algarvias, os casais do Sul do Brasil. (…)”
In: “Um Fernando Pessoa”, de Agostinho da Silva, Guimarães Editora, 1ª. Ed. Em 1959, escrita no Brasil. Lisboa, 1988, pp 29-30.
….
“As Mulatinhas
(…)
Estando eu à porta assentado/ Gozando do fresco sem ser namorado/ Passam certo as mulatinhas/ Cabelo ondulado todas catitinhas/ Ponho o meu chapéu eu vou atrás delas/ Fazendo melguices chamando por elas/ Venham cá eu não vou lá/ Já fui à Baia, meu bem ao Pará.
(…)”


sexta-feira, junho 03, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO



"(...)

Minha mãe amassa e sonha
Com a paz de um mundo novo,
Sem essa vida tristonha
Que era a vida do seu povo.

Minha mãe amassa e canta –
Duma coisa está segura:
Um dia, o sol se levanta
Sobre o fim da ditadura.

Minha mãe amassa e crê
Na  grande família humana:
Que o pão a todos se dê,
E toda a gente se irmana.

(...)"

De António Simões

quarta-feira, junho 01, 2016

TRATADO DO CANTE - Ser do cante pelo toque da viola:

"O CÍRCULO DO BALDÃO








Depois de pastorear o olhar pela paradisíaca macieza multicolor da planura alentejana, sobrevoada de cegonhas a anunciar novo ciclo, eis-nos a refrescar a garganta na tasca da Mariana Maria na estação de Ourique, Casével, Castro Verde.

Foi fácil a nossa entrada, mas se calhar não serão tão fáceis os motivos que ali nos levaram por quem éramos e por quem somos. Envolvidos como estamos com a problemática do cante alentejano, apanhar o rastro à viola campaniça leva-nos a considerar a travessia feita por Colaço Guerreiro, presidente da cooperativa “Cortiçol”, homem de paixões fortes e de sentir eficiente, homem de amor à arte e de intervenção persistente, homem de princípios com vocação para concretizar. É bom estar com homens desta têmpera que já rareiam. No entanto, os nossos objectivos eram assistir ao ensaio do conjunto das “Modas Campaniças” que é apoiado pela cooperativa “Cortiçol” e é constituído por quatro violas, por uma voz masculina, a do Francisco António, também tocador, e por três vozes femininas: a de Mariana Maria, a de Alice Maria e a de Maria Inácia.

Chegámos no meio do ensaio e encontrámos Colaço Guerreiro a orientar o grupo, sempre dando possibilidades a todos os elementos de se autoconduzirem e de se disciplinarem.

O ensaio, como é hábito, acontece naquela taberna num recanto a que o sol não chega. Não é da sombra que nasce a luz?!...

Mariana Maria aproximou-se da porta, único foco, naquele espaço, susceptível de ser exposto à luz natural.

Mal o sol entrou sóbrio e divertido na escuridão, o grupo organizou-se para o ritual do baldão, ocupando o centro da tasca. Sentados ao pé uns dos outros, formaram um círculo. Notava-se-lhes na postura um alto grau de concentração, ao mesmo tempo, porém, uma disponibilidade e confiança no inesperado que se preparavam para receber e exprimir, numa sintonia ancestral.

Começaram as violas: Amílcar Martins, homem do silêncio, todo ele uno com a sua viola e com todas as que vai construindo com meticulosa dedicação; António Bernardo, mais impulsivo e senhor de uma bela voz; o Mestre, Manuel Bento, a quem a vida levou a casa nas cheias de Novembro e a companheira, Perpétua Maria, depois de terem imortalizado o seu trabalho conjunto num LP a que foi dado o título “O outro Alentejo” e no C.D. “Viola Campaniça”, gravado em Castro Verde em 1991; e ainda Francisco António, também ele um excelente colaborador como tocador e como cantador nos discos anteriormente referidos.
Das vozes irrompeu sumptuosa a magia, no cante dolente e espontâneo que de cada um saía em quadras quer já conhecidas quer criadas naquele instante.

Mariana Maria, com sua voz cava, telúrica, Alice e Assunção com timbres mais altos treinados na serra, e António Bernardo, alternavam o cante sem que nunca houvesse engano ou até mesmo hesitação na entrada.

(...)
Mais uma vez se encontrámos
Aqui na estação de Ourique
Mais uma vez se encontrámos
Aqui na estação de Ourique
Eu tenho que me ir embora
Quem quiser ficar que fique
Eu tenho que me ir embora
Quem quiser ficar que fique.
A treinar o que lhe digo
E aquilo que costumamos
É nesta estação de Ourique
Mais uma vez se encontrámos.
(...)
(António Bernardo)

Não fora alguém da assistência lembrar o dever a cumprir, o baldão prolongar-se-ia em festival de criatividade noite fora. Como ele é poderoso e imponente!

Os olhos de Manuel Bento derretiam de brilho no intenso manto azul das pupilas, e o sorriso de misteriosa fundura prenunciava esperança. Agora iria suportar melhor o lar em Ourique. A Páscoa (passagem em hebraico) vinha aí! A vida é feita de mudança. E já há candidatos inscritos para aprenderem com o Mestre a dedilhar a viola campaniça!"

Casével, Primavera de 1998
Rosa Pereira.

terça-feira, maio 31, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“A CRIAÇÃO DA POESIA POPULAR PORTUGUESA

(…)
Havendo selecionado as cantigas deste livro em dezenas de cancioneiros regionais ou locais e em cerca de sessenta mil trovas, mais ou menos diferentes, tivemos ocasião de constatar que o acervo das mais belas quadras, das que em si guardam mais sabor e expressão popular, se canta de norte a sul e leste a oeste, em todos os cantos de Portugal. Constitui uma espécie de Bíblia lírica, de Evangelho do amor, adotado e aperfeiçoado por todo o povo português.
Duas outras razões nos convenceram dessa predominante origem e genuinidade popular das trovas cantadas pelo povo. Primeiramente, o talha e a fragância rústica dessas pequenas flores. Dalgumas a beleza e o primitivismo formal são inseparáveis da linguagem do povo. Ouça-se esta quadra alentejana que reproduzimos, sem alteração de sinal gráfico, do “Cancioneiro Alentejano” de Victor Santos, tão pura de forma, tão cheia de côr e pitoresco desgarre:

S’és galo alivanta a crista,
S’és frango larga a pinuge;
S’o desafio é comigo,
At’os sapatos e fuge.

A beleza plástica da quadra é, como se vê, inseparável da prosódia popular, como nesta outra, reproduzida das “Cantigas Populares Alentejanas”, de Pombinho Júnior, onde abundam casos semelhantes:

Água clara não se turva
Sem haver quem a ennode;
Amor firme não se muda:
Ainda que queira não pode.

E esta outra ainda:

Contrabandista valente,
Corri campinas e vais;
E os guardas na minha frente
Com pistolas e punhais.

Outras vezes, sente-se na pequena trova uma maneira tão simples e direta, tão isenta de todo o artifício literário e, por isso mesmo, tão empolgante, de exprimir o sentimento, que, só por si, exclue toda a ideia da origem culta. Ouça-se:

Já os atalhos tem erva
Depois que aui não vieste;
Dize-me, amor da minh’alma,
Que agravo de mim tiveste?!

Ou:

A minha amada morreu,
Eu já não a torno a ver;
A flor no campo renasce,
Ela não torna a nescer!

(…)”

In: “O que o povo canta em Portugal”, de Jaime Cortesão. Coleção Clássicos e contemporâneos. Edição de Livros de Portugal, Lda. Agosto de 1942. Págs. 21 a 30.



segunda-feira, maio 30, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

“O “Monte” Alentejano




O Alentejo é inconfundível com outras terras de Portugal. Uma planície, ou quase planície, em que o relevo apenas contradiz a platitude, e tira a monotonia, com o variado acidente. Tudo é vasto e largo. E parece desabitado, tanto a terra sobra. Quem vem do norte, onde tudo é dividido, e murado, espraia-se, distende-se na amplidão. O carro rola, quilómetros e quilómetros à hora, sem uma casa… A presença do homem é sensível nas culturas, trigo, cereais, olivedos, azinho, sobro… Récuas de porcos. De espaço em espaço, lá no horizonte, uma mancha branca, caiada, que esplende ao sol: um «monte»…
Monte é montanha, serra, ao norte; aqui é casa, é casario, em torno da casa grande… onde se recolhem os produtos da lavoira, os instrumentos da agricultura, os animais domésticos, os trabalhadores, os donos…
De perto, o «monte» está numa pequena elevação, a casa alvinitente, sua chaminé alta com um penteado de andaluza, uns frisos azues com barras, e em torno das portas e janelas… O celeiro, a casa dos manteeiros, as dos homens e mulheres de jorna… tudo limpo, asseado, irrepreensível.
O monte difere do montado, da herdade, da fazenda: estas são expressões gradativas da propriedade rural; essa é a agremiação humana do ruralismo. Em torno, as criações. As dependências. As medas de feno. As cegonhas, um par, que nidificam sobre o colmo. As flores do campo, rosas albardeiras… O azambujo silvestre, que será «cavalo» da oliveira. Há ermos, ao longo das estradas, o tojo aberto em oiro, e a esteva, cujas flores alvas são turíbulos de incenso… À distância sobro… de sobreiros nus, cor de ferrugem ou burel intenso, ou vestidos lentamente, nove anos, até se despirem da cortiça, que lhes arrancam. Ou azinho… de azinheiros, que dão bolota, com que se criam os suínos… Suínos que, no Alentejo, são inteligentes… ruivos como sobreiros descortiçados, são, às vezes, de procedência diversa, vários donos e levados fora do povoado, para as adúas ou logradoiros, terra de todos, onde pascem e dormem… Quando, à tarde, o adueiro dá o sinal de partida, é uma debandada… Os porcos tresmalham, em direções diversas e vertiginosas, derrubando transeuntes, cada uma à sua casa, ao seu quintal, onde a pitança de lavagem, ou trávia, os espera. Nenhum porco se engana; é como gente, como nós.
Essa gente, rapazes e raparigas, são, no Alentejo, os ganhões, à jorna, empregada nos montes, montados, herdades, para os serviços agrários. As mulheres são aptas para o varejo e apanha da azeitona, e para a monda às ervas daninhas ao trigo. O poeta da terra, o Conde de Monsaraz (Macedo Papança), na Musa Alentejana, canta:

As mondadeiras andam nas mondas
De rego em rego, sempre a cantar,
Troncos curvados, ancas redondas,
Braços roliços e o peito às ondas
Que não se quebram como as do mar…
……………………….
Saias, roupinhas de chitas claras,
Chapéus redondos, lenças de cores,
……………………….
Que rico assunto para pintores!

E na sacha, na vindima, na espalhação dos estrumes, na ceifa… colaboram com os homens.
Cântaro alentejano ao ombro, vão teorias de raparigas, robustas, caminho da fonte, - a água não bastaria, se fosse para lhes apagar o fogo dos olhos ramalhudos…
Os homens, fortes e esbeltos, tostados do sol, têm uma fala quente e rude, que lhes reflecte a alma robusta. Arrancam a cortiça ao sobreiro, são pastores para o gado; no lagar fazem o azeite, recolhem o pão aos celeiros; o feno levanta-se com garfos, nas medas; correm com os malteses vagabundos; carregam cortiça, o azeite, e trigo, uma vida de indústria e de trabalho… Protegem-se contra o frio com os çafões, calças ou perneiras de pele de borrego, (não filho de burro, porém de carneiro…), a simarra ao peito, e, se mais qualificados, o capote alentejano, de boa roda, de lã negra, de triplo pano no busto, e peliça ao pescoço… Um grande chapéu de abas largas e direitas, jaqueta amelada de alamares, calça justa sobre botas de salto de prateleira, está o rapaz abonado…
Cantam e bailam, rapazes e raparigas, com lentidão triste… O amor é profundo e austero… O amor que cria e, por isso, não brinca: é sério e rude:

S’ó meu amor me quer baim
É só cum el’e e cummigo;
Nã se meta na cumbersa
Quê nã mi meto consigo…

Uma delas, dessas belas mulheres, delicada flor de poesia, Florbela Espanca, não é diferente, e define-se:

Meu rude coração de alentejana.

Ainda quando amam, o coração não se lhes amolece, como os das outras; ficam como o de Mariana de Alcoforado: «Como é possível que lembranças de tão doces momentos… sirvam somente agora para dilacerar-me o coração? Pobre dele! Tais saltos me dava no peito, que parecia forcejar por arrancar-se de mim e voar para ti».
Concluo que, quem goste de amar, profunda, fortemente, deve viver no Alentejo… Amar de rijo, como aqui se diz.
De amar, e de viver, a vida integral…O céu límpido verte fogo no verão, verte frio às noites e, no inverno, frio ainda mais frio, porque é seco e duro. As estrelas têm um brilho fascinante nesses céus sem nuvens. O espaço distende-se, trigais, azinhos, olivedos, sôbros, e mais sobreiros, azinheiros, oliveiras, pão, até que a vista descansa num monte… muito longe de outro monte… A solidão é companheira do homem, companheira dura e austera. Por isso, em casa, há o agasalho, a limpeza, a lareira, a açorda, o guisado de porco, a gaita de boca, que eles chamam, ironicamente, «piano de cavalariça», e o balho em que as saias se sacodem desenvoltas, turvando o juízo aos homens:

Estas é são as saias,
Estas mesmas é que são;
Bem cantadas, bem balhadas,
Batidas de o coração!

Depois, a música e a dança cessam, e a noite começa, a noite que é o dia, o calor, o trabalho dos que amam…

Hauri, num «monte» do Alentejo, onde me levou a Amizade, no Barrocal, junto a Montemor-o-Novo, toda a poesia rude e simples, meio moura, meio cristã, do Alentejo… Compreendi como a terra plana fez o montado, o trigal, o pastoreio. Fez, sobretudo, o homem que fica em Portugal… O norte emigra. A praia é um convite a fugir da terra… O Algarve, ao sul, também pesca, também vai lá fora… O Alentejo, como o Ribatejo, são os que ficam: celeiro dos outros, que trabalham para a exportação. O Alentejo faz pão, e azeite, e carne, para a casa. Se não fosse o Alentejo, Portugal ter-se-ia ido embora… Em má hora. Graças ao Alentejo, Portugal ficou, e os outros voltaram. Não preciso de outra razão para amar a mais nossa das minhas terras…”


In: “Viagens na minha terra – Portugal I”, de Afrânio Peixoto. Desenhos de Alberto de Sousa. Edições da Livraria Lello & Irmão. 1938. Págs. 199/202.



TRATADO DO CANTE - Porquês do Alentejo:

Setúbal! 
Almoço num restaurante a ver o rio Sado. 
Vista grada e grata! 
O café, com açúcar! - Coisa doce com porquês do Alentejo. 
Bem hajam!




domingo, maio 29, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO



"(...)
Minha mãe amassa o vago,
O que indefinível for –
Nós come-mo-lo de um só trago,
Esse pão não tem sabor.

Minha mãe amassa os seus
Olhos, cegos de outra luz,
Pra fazer o Pão de Deus,****
Para Deus dar a Jesus.

Minha mãe amassa crente
Na bondade desse Deus –
Só que às vezes não entende
Que desígnios são os seus.

**** Pão de Deus – é um tipo de bolo.

(...)"

de António Simões

TRATADO DO CANTE - À minha moda:

Diz a laranja ao limão

Diz a laranja ao limão
Qual de nós será mais doce
Sou fiel ao meu amor
Assim ele p'ra mim fosse

Assim ele p'ra mim fosse
Fiel ao meu coração
Qual de nós será mais doce
Diz a laranja ao limão.


Letra e música: popular: Alentejo


In: Cota FaiAlentejo: FF CA K7-0146
1991 (K7): “Não há terra que resista”
- Edição: Movieplay.
Vitorino