terça-feira, maio 31, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“A CRIAÇÃO DA POESIA POPULAR PORTUGUESA

(…)
Havendo selecionado as cantigas deste livro em dezenas de cancioneiros regionais ou locais e em cerca de sessenta mil trovas, mais ou menos diferentes, tivemos ocasião de constatar que o acervo das mais belas quadras, das que em si guardam mais sabor e expressão popular, se canta de norte a sul e leste a oeste, em todos os cantos de Portugal. Constitui uma espécie de Bíblia lírica, de Evangelho do amor, adotado e aperfeiçoado por todo o povo português.
Duas outras razões nos convenceram dessa predominante origem e genuinidade popular das trovas cantadas pelo povo. Primeiramente, o talha e a fragância rústica dessas pequenas flores. Dalgumas a beleza e o primitivismo formal são inseparáveis da linguagem do povo. Ouça-se esta quadra alentejana que reproduzimos, sem alteração de sinal gráfico, do “Cancioneiro Alentejano” de Victor Santos, tão pura de forma, tão cheia de côr e pitoresco desgarre:

S’és galo alivanta a crista,
S’és frango larga a pinuge;
S’o desafio é comigo,
At’os sapatos e fuge.

A beleza plástica da quadra é, como se vê, inseparável da prosódia popular, como nesta outra, reproduzida das “Cantigas Populares Alentejanas”, de Pombinho Júnior, onde abundam casos semelhantes:

Água clara não se turva
Sem haver quem a ennode;
Amor firme não se muda:
Ainda que queira não pode.

E esta outra ainda:

Contrabandista valente,
Corri campinas e vais;
E os guardas na minha frente
Com pistolas e punhais.

Outras vezes, sente-se na pequena trova uma maneira tão simples e direta, tão isenta de todo o artifício literário e, por isso mesmo, tão empolgante, de exprimir o sentimento, que, só por si, exclue toda a ideia da origem culta. Ouça-se:

Já os atalhos tem erva
Depois que aui não vieste;
Dize-me, amor da minh’alma,
Que agravo de mim tiveste?!

Ou:

A minha amada morreu,
Eu já não a torno a ver;
A flor no campo renasce,
Ela não torna a nescer!

(…)”

In: “O que o povo canta em Portugal”, de Jaime Cortesão. Coleção Clássicos e contemporâneos. Edição de Livros de Portugal, Lda. Agosto de 1942. Págs. 21 a 30.



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