sexta-feira, dezembro 06, 2013

TRATADO DO CANTE:

... É ASSIM, PORQUE É ASSIM MESMO!


Do gosto pelos cantes alentejanos, que me vem da infância, nada indiciaria que eu, desse autoria a um livro (Corais Alentejanos, ed. Margem, 1997) que aborda, de forma inventariada, os grupos corais existentes no Alentejo e na zona da grande Lisboa onde a comunidade Alentejana é, fortemente, representada.
No Alentejo, ainda hoje, os cantadores são todos, mas quem canta de forma sentida, conhecedora e ordenada, são muito poucos, considerando o potencial existente.
Dos fatores do desinteresse surtiu a dificuldade encontrada na passagem de tão significativa mensagem que é o cante, para as gerações seguintes, que não estando conciliados com as realidades que as modas abordam, também não se motivaram para o estilo que as modas comportam.
Na zona da grande Lisboa, os fatores que levam, ainda, a que existam grupos corais alentejanos, prende-se, como não poderia deixar de ser: pelo gosto de cantar e pela ligação que tem com as suas terras de origem. Mas, existem comportamentos novos, que dão origem a novas modas e que segundo opiniões diversificadas são e não são toleráveis. É o caso da inclusão de novos poemas, onde muitos deles não se coadunam com a temática "Alentejo", em todas as suas componentes, a não ser no estilo melódico utilizado para suporte.
O Alentejo é cantado nesta “moda” (o cante), por grupos onde a média etária, dos seus cantadores é superior aos 65 anos, mas lá andam, com motivação e com aquela "carga", que eles muitas das vezes conseguem fazer transparecer nas modas que cantam. E, quando isso acontece até provoca calafrios e muitas das vezes lá vêm as lágrimas mal contidas daqueles que os estão ouvindo. Sabem porquê? porque estes homens e mulheres que ainda cantam o seu Alentejo, desta maneira, são os mesmos que ao longo dos anos das suas vidas, guardaram o gado, fizeram as sementeiras, as mondas as ceifas, a apanha da azeitona, trabalharam nas eiras e executaram todos os trabalhos do campo e ainda tiveram alegria para participar, cantando, nas adiafas, nas festas populares, nas tabernas e no fim dos trabalhos, antes do advento da mecanização e do êxodo para a zona da grande Lisboa, nas décadas de 50 e 60, para onde partiram à busca de coisa boa.
No Alentejo e pelo andar da carruagem e com muita boa vontade, os grupos manterão o seu estatuto e representatividade, por mais uns anos. Até quando…
É preciso fazer a escola do cante, mas só uma e com todos os grupos e os seus cantadores. Apela-se para que nunca inventem novas escolas dentro do cante.
Que se juntem as vontades porque todos não seremos demais para contornar algumas desigualdades na forma de cantar, todas elas justas.
E, … é assim, porque é assim mesmo! Como os queijinhos do mestre Colaço (Dito usado na zona de Mértola).

Nota: Um dia que passem por Mértola, tentem saber o porquê deste dito.

José Francisco Pereira

quinta-feira, dezembro 05, 2013


TRATADO DO CANTE

 

1995 (CD): Cante de Natal e Ano Novo (registo sonoro; ed.: ImagemImenso, Lda.

Grupos: Os Vindimadores da Vidigueira; Cubenses Amigos do Cante; As Camponesas de Castro Verde; Alma
Alentejana de Peroguarda; Os Ceifeiros de Cuba.

Modas:   O Menino I; O Menino II; O Menino III; Os Bons  Anos I; Os Bons Anos II; Os Bons Anos III; Quais São os Três Cavalheiros I; Quais São os Três  Cavalheiros II; Boas Festas.

Corais Polifónicos Alentejanos

quarta-feira, dezembro 04, 2013


TRATADO DO CANTE - Cante de Despique e Baldão

"A propósito de... MARIANA MARIA


         Não sou do campo nem da serra
         Eu sou dum lado qualquer
         Não sei aquilo que sou
         Não sou homem nem mulher

Cantos de despique e baldão, sons telúricos, mistura de sonoridades de flamengo e árabe, o mistério do sul, a mística da terra quente, o homem em despique, o pegar do tema, o rimar cadenciado entremeado com o som cavo da viola campaniça: - Dir-se-ia um canto entre o satírico e o desafio entre machos, enfim, na noite quente e calma do sul vem-nos à memória histórias antigas de feiras e ganhões, de casamentos e batizados, de malteses e forasteiros, dos frutos secos, da aguardente de medronho, de serranias dividindo e aproximando Alentejo e Algarve, do barco subindo o Guadiana, o árabe europeizado cantando o seu destino num misto rude e poético, diria mesmo surpreendentemente angelical ...
É nessas noites que nos sentimos mais sulistas e mais agarrados a estas terras surpreendentemente apelativas; silêncio por favor, prometo que não vou cantar mas quero ficar em contemplação, quero ouvir a voz do sul... Agora canta uma mulher cheia de misticismo, Mariana Maria de seu nome, voz ritmada, algum requebro, rosto fechado mas pleno de candura, enfim, mais um mistério... Neste canto há citações curiosas dos mais diversos temas, até se falou em teatro, calculem... Uns melhor, outros pior, mas a mensagem passa e isso é que conta! Mariana é nome de musa do canto baldão, a sua intervenção em espetáculo domina os acontecimentos e a assistência fica atenta, eu diria mesmo agradavelmente encantada..."

Artur Mendonça

terça-feira, dezembro 03, 2013


TRATADO DO CANTE

"OS GRUPOS CORAIS ALENTEJANOS NA DITADURA SALAZARISTA

Uma velha fotografia pendurada numa parede na Casa do Alentejo chamou-me a atenção. Já por ali tinha passado mas só naquele momento, não sei por que impulso, algo me fez parar. É que naquele numeroso grupo de cantadores alentejanos no Páteo Árabe daquela Casa Regional, estavam caras conhecidas e até familiares meus, todos desaparecidos com exceção de um jovem de calça clara, conhecido por "mascote" do grupo, ao centro: o meu amigo e conterrâneo José Santana. ISTO NO QUE TOCA A UM GRUPO.
Posteriormente, consultando velha papelada em casa, que sabia existir, juntei os factos e verifiquei que se tratava dos grupos corais alentejanos de MÉRTOLA, VIDIGUEIRA, VILA VERDE DE FICALHO e da então ALDEIA NOVA DE SÃO BENTO, que vieram a Lisboa há setenta e tal anos participar num «SARAU ALEMTEJANO» (assim mesmo com esta grafia desusada rezava o programa) que a Casa do Alentejo promoveu e realizado no Teatro São Luís na Capital, entremeando as modas alentejanas, antigas, lentas e melodiosas como: "O Raminho de Flores"; "Primavera"; "Ribeira de São Romão"; "A flor que abriu em Maio"; entre outras, com peças de música clássica, onde não faltou a "Suite Alentejana nº. 2" de Luís de Freitas Branco, executadas pela saudosa Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional sob a regência de Pedro de Freitas Branco (nos bons tempos em que a hoje vistosa e rica RDP se dava ao luxo de manter também uma orquestra ligeira... que Deus lá tem, naturalmente na mesma campa) numa estranha mas feliz simbiose na sala do São Luís, onde o cheirinho a esteva, a poejo e a rosmaninho da estepe alentejana se confundia com os eflúvios dos sons suaves e pianos das sinfonias de Freitas Branco, Borodine e Francisco de Lacerda.
Isto aconteceu em 23 de Março de 1937, curiosamente o ano em que Salazar foi confrontado com um atentado à bomba quando ia à missa. Talvez por isso é que raramente passou a sair do Convento de São Bento.
E chorem de raiva, amigos, porque o bilhete de ingresso para um espetáculo desta categoria, custava ao tempo a fortuna de ... dez tostões.
(Sonhando alto, aqui vos digo que gostava de reeditar este espetáculo, mas a RDP não tem orquestra sinfónica... e o São Luís está arrendado a particulares).
Voltando à realidade, este encontro inesperado com os homens do cante ali pespegados naquela parede, tão familiares, teve o condão de me empurrar para trás, para a história do cantar alentejano, para um cenário longínquo, de triste memória para muitos portugueses, especialmente daqueles que não se recusavam a pensar.
Efetivamente e por que andei sempre metido nestas coisas das modas e cantigas da nossa terra (entre outras atividades culturais amadoras), nestas andanças de cantar alentejano a vários níveis, o filme começa a desbobinar-se no arquivo da memória, vindo "à baila" as vicissitudes por que passava a sociedade portuguesa e, por tabela, os grupos corais como expressão popular inigualável, por cantarem nas modas a miséria, da região e do País, as desigualdades sociais cada vez mais injustas (ontem como hoje) a exploração de quem trabalha e os maus tratos nos latifúndios, etc. Inclusive pondo em relevo a pouca vergonha de uma igreja que se dizia dos pobres e alinhava com a política de repressão do Estado Novo de Salazar e do seu partido único, com os poderosos e endinheirados da terra.
E, a melhor "cunha" para arranjar emprego no Estado ou livrar-se à tropa era a sotaina...
Este cenário era generalizado no País e no Alentejo, designadamente o Baixo, terra mais colorida, e politicamente alvo constante de suspeição para o regime ditatorial fascista onde os seus próceres e os apologéticos da situação, com as costas quentes pelas autoridades locais, numa conivência que o povo repudiava, agiam a seu bel-prazer, como se tivessem procuração com plenos poderes de São Bento e acólitos.
Com efeito também a igreja não escapava às alfinetadas, que, como nas críticas nos campos sociais e políticos, tinham de ser feitas nas entrelinhas, com a máxima cautela, tanto mais que Salazar e o supremo chefe do clero, o Cardeal Cerejeira, eram unha e carne, irmãos de seminário e massa do mesmo alguidar, e se um dizia mata o outro dizia esfola.
E Portugal continuou amordaçado durante muitos anos.
Vêm estas considerações a propósito daquela fotografia que lembra uma das muitas estórias que fazem a História do cante alentejano e ainda para rebater injustas aleivosias por parte de certos papagaios parladores em colóquios, sem um mínimo de conhecimento de causa, pretendendo que as nossas modas e cantigas nunca tiveram cariz contestatário, antes - do seu, curto, ponto de vista, - cantariam os amores não conseguidos e lamechiches corriqueiras, etc.
Tais afirmações, que já tive ocasião de debater em colóquio recentemente, são em meu entender, uma ofensa para os alentejanos que, por mais uma vez e no terreno para além do das cantigas, deram provas da sua contestação à ditadura salazarenta, sofrendo disso as consequências, num grau certamente superior aos de outras regiões do País, muito mais acomodatícias como se sabe.
E só pode ter tal opinião quem nunca andou pelos bastidores do cante do Alentejo, quem nunca cantou nem ensaiou grupos corais, nem jamais sentiu a mística do nosso cante, a alma que brota do nosso cantar, das vozes cheias e fortes dos homens que, de braço dado numa expressão de unidade ou a mão sobre o ombro do dianteiro, determinado no antes quebrar que torcer.
Mais adiante e após tecer alguns comentários sobre o assunto, situando a vida dos grupos corais na época politica em que viveram, gerações com problemas bem distintos, terei ocasião de transcrever algumas quadras do cancioneiro alentejano, todas elas contendo cautelosas expressões de protesto, quando era perigoso e temerário fazê-lo. Nelas veremos alusões nas vertentes politica, social e religiosa.
Primeiro convém lembrar que este País esteve culturalmente às escuras durante quase meio século, tanto foi o regime cerceador das liberdades públicas, censura férrea a alguns meios de Comunicação Social adversos à ditadura, proibindo a publicação de livros a autores que sofriam perseguições, prisões e torturas nas masmorras da Pide, com uma grande rede de "bufos" informadores de tudo o que escutavam e transmitiam a troco de dez reis de mel coado, por vezes, por vinganças pessoais inventavam, ganhando assim a dois carrinhos; alguma exceção servirá para confirmar a regra.
A sanha policial, qual polvo, estendia os seus tentáculos a tudo o que cheirasse a cultura, não escapando canções, músicas alegóricas a acontecimentos mundiais de protesto e estreita vigilância sobre os autores e intérpretes, muitos dos quais só depois do 25 de Abril conseguiram ver as suas obras na rua. Ante este cenário apetece perguntar por que carga de água os grupos corais alentejanos seriam exceção, sendo ainda por cima oriundos duma região que estava na lista negra da ditadura? Sujeito às mesmas regras do jogo todo o trabalho dos grupos era feito dentro das maiores precauções como é óbvio. Negar esta evidência só por má-fé.
É fácil protestar em regime democrático em que os cobardes, os medíocres e até os cagarolas o fazem, e sabem escoicinhar. Situar portanto o 25 de Abril como o início da contestação no cante alentejano é estultícia em que não embarcamos. Ele contribuiu, sim, com abertura das torneiras da liberdade, para aparecimento de uma enorme avalanche de protestos de todos os quadrantes há muito recalcados e entre eles também os grupos corais alentejanos atiraram para longe a mordaça da opressão. O que aconteceu foi que, com o 25 de Abril, o Alentejo emergiu através das suas canções, das suas modas, que passaram a ecoar mais longe, ouvidas com mais respeito e dignidade. Parecia o menino bonito do que se convencionou chamar a "revolução dos cravos". Até os que não eram alentejanos de gema se esforçaram, solidários, para cantar connosco como melhor podiam, juntando-se entusiasticamente aqueles que o faziam com o carimbo de origem e que por isso soube compreender estes momentos de solidariedade.
Diferente, muito diferente, é contestar algo num regime de ditadura, repressivo de todas as manifestações públicas não organizadas pelo regime. Algumas vezes assisti à chegada inesperada de um guarda em locais onde mal começávamos a cantar, por vezes perguntando a nós próprios como adivinharam...
Ontem, como ainda hoje, os grupos corais faziam das coletividades de cultura e recreio o seu quartel-general; e estas coletividades, por se tratar de locais de fácil reunião entre sócios, eram constantemente vigiadas pois Salazar entendia que poderiam ser focos de conspiração. Até os tais "bufos" se infiltravam, e de tal maneira se tornavam prestáveis, que chegavam a participar nos corpos gerentes, sem que alguém desconfiasse. Só depois do 25 de Abril muitos foram desmascarados.
Por outro lado, Códigos de Posturas Municipais, revisionados pelos Governos Civis que ao tempo, como hoje, eram funcionários do Governo, proibiam que se cantasse à Alentejana depois das nove horas da noite. Ainda hoje, algumas autoridades, a pretexto da ordem pública, utilizam esta anacrónica e reacionária disposição "legal" numa altura em que as famosíssimas e modernas discotecas, com todo o seu cotejo de barulhos, bebedeiras múltiplas, distúrbios, ambientes de violência e até crimes (como há bem pouco tempo aconteceu no Norte, como estamos lembrados) podem estar abertas até de madrugada.
Comparar estes ambientes e outros semelhantes com as mesmas regalias com a pacatez e a harmonia dos grupos corais alentejanos, não é coisa deste mundo, certamente.
Como prometi vejamos as quadras que respigámos do cancioneiro alentejano compiladas pelo ilustre alentejanista: o Prof. Vítor Santos, que foi Presidente da Direção da Casa do Alentejo:
Neste miserável mundo                            Eu já não tenho alegria
Não se ouvem senão prantos                   Vivo no mundo sem gosto
A desgraça é só uma                                  Nasce o Sol torna a nascer
Os desgraçados são tantos ...                    P'ra mim é sempre Sol posto

Vai para longe a desgraça             Este mundo em que vivemos
Quando estamos a cantar              É um mundo de ilusão
Que o próprio tempo que passa  Só se respeita quem tem
Nem o sentimos passar                 Oiro, dinheiro e brasão

Tu és rico e eu sou pobre              Mais vale um ganhão
Tu vives no esplendor                   Roto e sem camisa
Eu trabalho e tu passeias               Que trinta lirós
Qual de nós tem mais valor?        De marrafa lisa...

Nas próprias Janeiras, cantadas à porta dos mais abastados sente-se o protesto surdo de quem, ano após ano, não passa da cepa torta:
Nam venho cá por boletas             Daqui donde estou bem vejo
Qu'est' ano nam nas houve           Um canivete a balhari
Venho cá por uma chóriça             P'ra cortar a chóriça
P'ra amanhém dêtar na couve      Q'a senhora m'há-de dar.

A igreja dominante, face à sua prática no terreno, contrariando toda a essência da doutrina de Cristo, também recebia as suas estocadas:
Não há flor como o cravo              A senhora lá do monte
Nem lenha como o azinho             Tem um moinho na mão
Nem filhos como os de padre      Para moer as mentiras
Que aos pais chamam padrinho  Das beatas que lá vão

E poderíamos citar muitas mais. Fiquemos por aqui, lembrando que se atentarmos por momentos na época da censura e perseguição politica em que tais modas corriam é mais que contestação. É, sobretudo, coragem dos Alentejanos."

José Pereira Júnior

segunda-feira, dezembro 02, 2013


TRATADO DO CANTE  - Testemunho
 
“Na minha opinião quando se diz que este ou aquele Grupo canta o genuíno, na minha opinião, como disse, o genuíno é todo o grupo que cria o seu estilo próprio. Recordo a experiência que tenho e é verdade: O Grupo Coral da SFRA da Amadora só quando fez as suas próprias modas é que arranjou o seu estilo, que se mantém ainda hoje, porque antes disso era muito confuso e normalmente cantava-se imitando este ou aquele grupo.

Nos anos 50 havia na minha terra (Amareleja) havia três grupos Corais:
Recordação I
O primeiro era o dos «velhos» e era da Casa do Povo. Tinham uma média de 50 anos, mas chamavam-lhe o grupo dos velhos. Tinha como ensaiador o célebre Estêvão Olhicos, autor das melhores modas, que ainda hoje se cantam e recordo: - A Lavoura; O Jardim Florido; Viva Moura das vilas a Rainha, etc.

Recordação II
O segundo Grupo era denominado como o Grupo do Baltazar, composto por gente mais nova, tendo em média 30 anos. Este grupo cantava muito bem e recordo que este grupo tinha dois "altos" do melhor que eu ouvi até hoje. Eram autores das modas que cantavam, salientando aqui: - Ao partir da minha terra; Das povoações que eu conheço; Minha linda mocidade; etc. O ensaiador era o António Baltazar.

Recordação III
O terceiro grupo era jovem, com uma média de 20 anos de idade e era conhecido pelo Grupo do Tatita. Também fazia as suas próprias modas. E, era seu ensaiador o Manuel Tatita.

Havia uma certa rivalidade entre os grupos no sentido de cada um querer fazer o melhor, tanto no desempenho do cante como nas modas. Era bonito ver os grupos a desfilar. Como também era bonito, depois do desfile, ver em atuação os três grupos, no "centro do Povo", onde cada um cantava a sua "moda", bem à laia de desafio, sendo normalmente correspondido. Recordo, com muita saudade, uma passagem: quando o Grupo dos “velhos” fez aquela moda " Viva Moura das Vilas a Rainha". O Grupo do Baltazar respondeu com outra moda "Das Povoações que eu conheço". Ambas falam de várias povoações do Alentejo.”

Francisco Poeira (Grupo Coral Alentejano da Amadora)

domingo, dezembro 01, 2013


 
NO BOLETIM DO CANTE Nº. 2 - OUTUBRO DE 1997

“COMUNICAR ATRAVÉS DAS MODAS

A relação médico - doente é fundamental para um bem estar físico, psíquico e emocional do doente.

Em situações graves em que os doentes estão em perigo de vida, nomeadamente, nas Unidades de Cuidados Intensivos, onde existe um arsenal de equipamento médico que de alguma maneira torna um espaço mais mecanizado levando a situações de maior “stress” emocional, quer ao doente, quer ao médico. Esta situação é minorada quando a empatia médico - doente se torna uma realidade.

 É a propósito de um caso de um doente internado numa Unidade de Cuidados Intensivos cuja relação entre o médico e o doente foi útil para um melhor bem estar físico, emocional e biológico deste.

Trata-se do Sr. José Paixão de 80 anos de idade, natural da Salvada (Beja) que após viuvez, iniciou um quadro clínico sugestivo de doença oncológica (cancerosa). Para um melhor esclarecimento da sua doença e acompanhamento familiar, foi trazido para Lisboa, onde foi submetido a intervenção cirúrgica complicada sendo por isso internado numa Unidade de Cuidados Intensivos de um Hospital Central.

É do conhecimento da classe médica de que os doentes alentejanos são em regra geral pacientes, colaborantes e com uma grande capacidade de sofrimento, por vezes “estóica”.

O “tio” Zé Paixão não fugindo a esta regra, no entanto e perante o internamento do qual não fora avisado estando permanentemente sob vigilância médica, conectado ao ventilador e monotorização cardíaca, envolvido por sistemas “complicados” para um doente que nunca tinha sido internado mostrou - se inicialmente pouco receptivo e com um negativismo marcado por má aceitação da “agressividade” a que fora submetido na tentativa de lhe prolongar a vida.

O médico que o tratava na Unidade de Cuidados Intensivos, também ele alentejano, conhecedor das vivências e da cultura alentejana cedo se apercebeu de que se tratava de uma situação grave, desta forma, adoptou a mesma forma de falar, a mesma pronúncia e expressividade características da sua região (Beja). Assim se iniciou o diálogo:- “ Atão “ti Zéi” vamos até ao Alentejo?”

Este respondeu com os seus olhos expressivos uma vez que não podia falar dado que se encontrava entubado e ligado ao ventilador. O olhar foi a forma mais prática de comunicar entre os dois intervenientes. Perante tal encontro, o ti Zé, apercebeu-se  que estava com a sua gente, tornando-se por isso mais colaborante, e recetivo aos tratamentos aplicados.

Na hora do silêncio, um novo diálogo surge;

-Atão ti Zéi, cantamos a moda?

Ao que o tio Zé responde com um leve brilho no olhar.

O médico começa numa toada baixinha, muito baixinha, a moda:

                   Alentejo, é nossa terra
                   Oh quem nos dera, lá estarmos agora
                   Prà` a mocidade, com saudade,
                   Ouvir cantar, como ouviu outrora...

O tio Zé com a emoção, olhos razados de lágrimas, agarra a mão do médico com força como que estivesse pela última vez ouvindo o mais belo cante da planície. Da mesma forma o médico não teve mais palavras, senão um desvio de olhar com a lágrima ao canto do olho. Ao presencear tamanho acto de solidariedade humana, a enfermeira sente-se sensibilizada e comenta... “ Só mesmo os alentejanos!!” “Só mesmo eles!!!”

Como é habitual em Unidade de Cuidados Intensivos, os doentes necessitam de ambiente anti-stress, pelo que é utilizado música clássica ou outra como forma de bem estar assim juntamente com “Fellinni”, “Bethoven”, “Verdi”, “Pavarotti”, juntou-se um especial CD “É Tão Grande o Alentejo” cantado pelo Grupo Coral os “Ganhões” de Castro Verde, tendo o tio Zé Paixão tido a oportunidade de ouvir o profundo cante do Sul até á sua “última” viagem. Pena é que não tenha sido tocado também um CD do Grupo Coral da Salvada.

Em homenagem ao alentejano...

Que se cante à alentejana!!!”                   

José Simão Miranda