sábado, novembro 04, 2017

TRATADO DO CANTE - almanaque:


“A chuva a cair em barros abrasados como os meus, faz bem. Dá sorte à terra e tira-nos um pouco de fadiga na mente.
(…)
Lembrem-se que, a sonhar, uma pessoa resiste à fome de liberdade, goza a sua vida, e a minha valentia é esta: não tremer quando cai uma pinga de chuva no meu chão de raiz. Nem de raios e coriscos. Uma aventura sem nomeada, embora, mas tão apaixonante e feliz, tal como uma criatura abrir os olhos na manhã e ficar a ver o Sol pendurado nas abas duma barragem nova. É tão belo!”
(da nota introdutória)

“(…)
Após bebermos uns tintos de Colos, um néctar, cantámos modas da nossa terra:
Ó minha pombinha branca
Onde queres, amor, que eu vá?
É de noite, faz escuro,
Eu sozinho não vou lá!

O Direitinho não cantava mal. Fechava os olhos como os fadistas, tinha uma voz de baixo, um tudo nada arrastante, mas de bom volume. O Vilhena berrava como um anojo com falta de leite, desafinando conjunto, mas já o Chico tinha trinados de rouxinol, de peito ovante, parecia que se estava a preparar para fazer uma pega… a um chibo!

Nesta altura apareceu um moço de olhos azuis muito abertos, a rir. Baba ao canto da boca. Dava a impressão de um débil mental. E era, segundo o Loução. Punha-se sério e compenetrado quando acompanhava, e muito bem, os parceiros nas modas:
Mal não uses, mal não cuides,
Não de apresses na subida:
Nós somos os alcatruzes
Da grande nora da vida!

Que ideia: alcatruzes, nora, cuides, para cuidar de algo, vocábulos sonoros na expressão dos alentejanos, palavras bastantes para se compreender um pequeno mundo de costumes às cavalitas do sonho…
(…)” (Pág. 65)


In: “Uma Pinga de Chuva”, de Antunes da Silva. Edição de Círculo dos Leitores, 1983.

sexta-feira, novembro 03, 2017

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

É rica, tem nome fino


Mote:
É rica, tem nome fino
É pobre, tem nome grosso
É rica, teve um menino
É pobre, pariu um moço.

I
Não sabes quem é aquela
Quem além vem pé ante pé?
É a menina Cadé,
Vem da vivenda Quintela,
E a outra que vem com ela
É a Dália Tolentino,
Andam ensaiando um hino
A da Didi Serafim,
E a seguir é sempre assim,
É rica tem nome fino.

II
Não vês aquela sopeira?
É a Antónia Bucherca,
Vive à da Ana Macaca,
À da Zefa Cadeireira,
Foi lá que o António Lameira
Lhe deitou a mão ao troço,
Houve até um alvoroço,
A Brites veio ao postigo,
O mote diz como eu digo,
É pobre tem nome grosso.

III
Aquelas pelos salões
Trajando à última moda,
Ouvindo da alta roda
Desusados palavrões,
Todas têm emoções,
Todas vão ao seu destino,
Um galã, um dançarino,
E ei-las na maternidade
E depois, com suavidade,
É rica, teve um menino.

IV
As outras pelos passeios,
Nas ruas e nos mercados,
Têm com os namorados
Inflamados paleios,
Um pequeno toque nos seios,
Mais dois dedinhos no troço,
Um toque, um pequeno esboço
E ei-las de barriga inchada
E a seguir, dia a gajada,
É pobre, pariu uim moço.


 In: “As Deixas”, de Manuel António de Castro (pesquisa e comentários de Cristóvão Enguiça. Recolha de familiares e população de Cuba). Capa e ilustração de António Carrilho. Edição da Câmara Municipal de Cuba. 1987. Pág.s: 27/28.