sábado, janeiro 25, 2014

TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE

COMUNICAÇÕ DO DR. MARCOS OLÍMPIO, DA UNIVERSIDADE DE ÉVORA:
- Permitam-me que em primeiro lugar e intervindo a título individual, expresse, enquanto membro da Universidade de Évora, o pesar pelos trágicos acontecimentos que atingiram as populações de Quintos, Garvão, Salvada, Mértola, Sobral da Adiça e outras, lugares deste Alentejo do qual se diz no Cante que “não tem sombra senão a que vem do céu”, céu donde afinal se abateu sobre esta terra sofrida, assolada ciclicamente por secas terríveis, uma tempestade que martirizou um povo que nos abre a porta das suas casas, estou a falar que nos abre a porta das suas casas, como residente numa cidade, estou a falar dirigindo-me ao povo rural como não alentejano, que além de nos abrir a porta das suas casas, nos convida para sentar à sua mesa, e nos oferece do melhor que tem a sua hospitalidade. Enquanto este povo existir, e enquanto houver memória do que foi e do que ainda é o seu modo de ser e de estar, o canto alentejano continuará a ter futuro. Parece-me assim, que tanto quanto a minha imaginação consegue chegar no futuro, o canto alentejano, tal como o conhecemos, nos seus modos e nas suas modas, que herdámos dos nossos antepassados, continuarão a fazer-se ouvir dentro e fora do Alentejo. Os homens e as mulheres irão passando mas o Cante ficará porque representa uma terra e uma cultura que são únicas, a do Alentejo, região que se apresenta no imaginário dos outros, dos não alentejanos mas até nalguns de nós que cá vivem e dos alentejanos, como o que está para além do que é o resto, o que está fora do Alentejo que, sendo embora também único e singular, não tem a magia desta terra, de encanto que é uma paixão e um fascínio mesmo para alguns que nunca lá foram, estou-me a colocar fora do Alentejo, mas que ouviram falar da sua paisagem, do seu povo, dos seus costumes e alguma vez também já ouviram o cante alentejano. As alterações que o Alentejo tem conhecido, umas para melhor, outras para pior, podem levar a que o Cante alentejano conheça um menor interesse junto de algumas camadas jovens e junto de algumas das camadas urbanas desmobilizadas em parte por outras solicitações tais como a televisão. Mas é provável que ao mesmo tempo que se verifique isto, aumente o prestígio do Cante alentejano junto dos forasteiros, junto dos que vivem fora do Alentejo. Vou dizer uma coisa que é polémica mas da qual não gostaria de abdicar, é que não será assim de estranhar que a consciencialização da beleza e o gosto pelo cante alentejano se reforce junto de alguns alentejanos que têm andado afastados desta expressão artística em parte devido à divulgação e implantação do Cante dentro e fora do Alentejo para os não alentejanos, ou seja, alguns dos que vivem cá dentro, aprenderão a gostar também porque muitos de fora gostam e vão proporcionar a oportunidade para que se expanda e se assista à actuação de grupos corais alentejanos e à projecção do Cante nos acontecimentos nacionais e internacionais. Mas o futuro do Cante alentejano não deverá passar só pela actuação dos grupos corais. É importante que se faça ouvir nas tabernas que ainda sobrevivem nas cidades e que se faça ouvir nos convívios, nos casamentos, nos baptizados porque aí também é transmitido às gerações mais novas. O futuro passa também por aí. Relembro a propósito de algumas coisas que foram ditas que no ano dois mil mais de metade da população desta região viverá nas cidades sede de concelho e a menor parte viverá por conseguinte nas aldeias e nos campos. E uma grande parte das crianças viverá na cidade sem saber o que é a vida do campo e o Cante alentejano a ele ligado e algumas das crianças que vivem nas aldeias cedo começam a frequentar a cidade, perdendo também alguns dos vínculos que os ligam ao seu local de origem, vínculos culturais. O Cante alentejano terá futuro e continuará a ser ouvido e provavelmente o interesse por esta forma de expressão irá aumentar, porque a cultura alentejana está a sofrer um ataque forte e continuado devido ao fenómeno da globalização do qual decorrem posições culturais que vêm de fora, e que procuram que o cidadão seja todo igual enquanto consumidor. E neste contexto, o que é único, aquilo que é observado, o que é diferente, contribuirá para o desenvolvimento de uma região. Não há desenvolvimento sem cultura. O queijo, o mel, o vinho, os enchidos, o artesanato do Alentejo, terão uma maior aceitação se a eles estiver ligado o imaginário referente à maneira de ser e de estar do povo alentejano, e para que esse imaginário se mantenha, é imprescindível que, no que se refere àquilo que nos traz, o Cante alentejano seja observado e divulgado nos seus modos e nas suas modas como penso tal como foi herdado. Se não conseguirmos vencer esta batalha é provável que o Alentejo não ganhe a guerra do século XXI e continue a ser das regiões mais atrasadas da Europa comunitária. Para começar a concluir, tenho para mim portanto que o interesse por parte do exterior lá de fora do Alentejo por um lado, a necessidade que as comunidades de alentejanos em Portugal relembro por exemplo que existe uma Casa do Alentejo em Lisboa enfim esta é tradicional já se conhecer, mas existem Casa do Alentejo em Faro, na Marinha Grande, além de outras que eu possa não ter conhecimento. A necessidade que as comunidades dos alentejanos destes locais e no estrangeiro têm de manter vivas as suas raízes de forma a permitir usufruir de uma entidade própria, e partilharem vivências entre si, vivências comuns, e de disporem de um bem inestimável que é a solidariedade, são factores que contribuirão para que o Cante alentejano continue a ter existência no futuro à escala das próximas gerações. Entretanto, três questões se me deparam no seguimento destas reflexões: Quem vão ser afinal os cantadores e as cantadeiras das modas alentejanas? Já se começou a responder a isto, ouvi aqui coisas interessantes que os jovens não estavam interessados, enfim que talvez não se conseguissem mobilizar e atrair para esta actividade mas também já ouvi e ainda bem e muito me satisfez o contrário. Terá por conseguinte e estou de acordo haver um duplo esforço por parte dos grupos corais e de organizações com responsabilidades nesta matéria, e fundamentalmente estes, bem como das entidades oficiais para que o Cante alentejano seja preservado e continuemos a usufruir dele. Se não, poderá verificar-se e talvez isto é outra afirmção polémica, um caso muito semelhante ao que se verifica com os tapetes de Arraiolos. Quer dizer, isto é uma hipótese remota, em que afinal sejam outros de fora a cantar o Cante alentejano nunca tão bem como o cantarão os alentejanos. Lembro a este respeito embora isto é louvável que aconteça, um caso que está a suceder em Évora e nomeadamente na Universidade, em que foi formado um grupo coral no qual participa o nosso amigo Joaquim Soares, e a maior parte dos intervenientes são naturais de fora do Alentejo. Isto é de facto um acontecimento que os que vivem, os que gostam do Alentejo se devem orgulhar mas quer dizer que há uma grande receptividade ao Cante alentejano por parte daqueles que são de fora, e eu como estou em contacto com jovens, moças e moços de fora, noto isso quase todos os dias. Uma outra questão é qual será a expansão e a relação do Cante alentejano polifónico coral, o das modas e modos que herdámos, com as formas adaptadas que incluem o acompanhamento instrumental. Há uma dúvida que se me coloca que é a seguinte: será que cante este acompanhamento esta forma instrumental contribuirá para diminuir embora sem nunca apagar o interesse pelo polifónico, pelo coral ou será que contribuirá para chamar mais a atenção para a importância do canto polifónico e coral. É uma dúvida que se me coloca e para a qual não tenho resposta mas se calhar alguns dos intervenientes (?) poderão dar alguma achega. Uma terceira, qual é que é o papel das Universidades e dos estabelecimentos de Ensino Superior neste processo e no caso concreto da Universidade de Évora. Nesta Universidade e nos Institutos Politécnicos de Beja e Portalegre há e já foi referido há pouco pela colega de Beja, há cursos de Educadores de Infância e de Professores do 1º. ciclo do Ensino Básico. Uma das vias de preservar o Cante alentejano ou pelo menos de manter o seu interesse e de chamar a atenção e de fomentar o gosto, não é só a prática, é também o gosto, é junto dos futuros Educadores de Infância nomeadamente e também junto dos Professores do 1º. ciclo do Ensino Básico. Mas aqui parece-me que é muito importante o papel dos Educadores de Infância que têm um papel talvez muito mais amplo, e têm uma margem de manobra muito mais elevada penso eu que os Professores do 1º. ciclo do Ensino Básico. É junto destes agentes educativos que através de uma via oficial mas também numa via particular e é por isso que estes Congressos são importantes, deve investir também no sentido da divulgação e do gosto do Cante alentejano. Mas como nestes estabelecimentos de Ensino também estudam moças e moços de todo o Portugal, desde a Madeira, Açores, Algarve, Minho, etc., então deverá haver, como não pode deixar de ser, uma chamada de atenção para a importância das genuínas expressões musicais para o equilíbrio socio-afectivo e para a sã convivência das populações. Para terminar, quero manifestar a minha satisfação por este 1º. Congresso se realizar em Beja, terra aonde me desloco com muito agrado, mas espero que, no futuro outros Congressos se realizem mais junto daqueles que constituem razão de ser do Cante alentejano e que mais do que ninguém sabem dar o valor e acarinhar esse seu património: os homens e as mulheres cujo suor e até mesmo as lágrimas têm regado os campos do Alentejo.

Obrigado! É tudo!
Dr. Marcos Olímpio

sexta-feira, janeiro 24, 2014

TRATADO DO CANTE:

Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE

- Ora boa tarde. É exactamente para marcar a presença da Federação Portuguesa das Colectividades Cultura e Recreio que vos trago a mensagem da Direcção, embora tenha posto também um cunho pessoal e queria dizer-vos que sinceramente durante a manhã da minha presença aqui no Congresso e no continuar da sessão tenho aprendido bastante e inclusivamente penso ter feito alguns contactos muito interessantes até em relação às colectividades onde eu estou envolvido. Então eu passava a ler o texto que preparei para esta sessão:

José Gomes Ferreira traduziu magnificamente em verso esta maneira de estar no mundo que caracteriza a alma alentejana.

“Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho”.

Um dia em Tozeur na Tunísia, ao escutar Lotfi,,, e Bosnac cantar em coro, de repente o Alentejo estava ali num café do oásis. Tão familiares eram os sons que emocionaram os meus ouvidos de homem do sul. Alguns meses atrás, imaginem, vim de propósito a Beja para me inspirar e escrever um poema sobre a cidade. Nessa ocasião visitei a Ovibeja e por todo o lado a própria fala era música. Música tão envolvente quanto foi a dos pássaros desta manhã no embalo dos quais acordei para a luz fria e limpa do Outono alentejano. Vim com os pássaros cantores das árvores para mergulhar o coração no conhecimento dos homens pássaros que são como as árvores. Igual às oliveiras resiste-se aos sóis de inferno. Caminhas sem vergonha na tua terra. É tão custoso acariciá-la com brisas de esperança as mãos doridas de tanto amor. Alentejano! A tua gota de suor ensina-me a respirar. Não é fácil erguer um palácio de palavras e sedes, não é fácil viver de pé e cantar. “Represento neste Congresso uma Instituição solidária e que ainda ontem, em conferência de Imprensa na Casa do Alentejo em Lisboa manifestou o mais fundo pesar pela tragédia que feriu o nosso Alentejo. Juntando as mãos com outros organismos nacionais e regionais em prole da reconstrução e entreajuda que as martirizadas populações carecem neste momento. A Federação Portuguesa das Colectividades Cultura e Recreio é também uma casa que ama a música, essência de um povo que através dela sabe expressar e elevar magistralmente em torrentes de sentimento, trabalho e canseira, amor e liberdade, convívio e sonho. A FPCCR através das Casas Regionais sediadas em Lisboa e das diversas associações regionalistas que por todo o país defendem um valioso património cultural, está igualmente vocacionada para conferir à nossa vida colectiva um precioso contributo que possa aproximar através de uma dinâmica de intercâmbio colectividades e associações das diversas regiões de Portugal, levando-as a tomar consciência do seu valor enquanto forças criativas unidas e interventivas. A actuação conjunta no âmbito do departamento do regionalismo manifestou-se por exemplo aquando do dramático acidente que vitimou vários elementos do grupo etnográfico de Mouriscas do Vouga. Mas as várias casas e associações regionais de Lisboa que se puseram à disposição daquela entidade, tal como agora se organizaram na recepção de apoios às vítimas das enxurradas em valores e numa conta bancária, também viveram dias festivos de encontro e de permuta, de artesanato ideais (?), de poesia e de doces, de músicas e sorrisos, sempre em Outubro ao longo dos últimos dois anos durante o desenrolar da Festa das Colectividades. Amigos, trago-vos em nome da Federação a sincera crença na pujança do movimento associativo alentejano. A organização deste Congresso prova que a nossa confiança é plenamente justificada. Uma palavra calorosa a todos os que viabilizaram a ideia, “Que modas, que modos?” Faço votos para que os modos sejam vastos e as modas nunca acabem.

Obrigado.

Dr. Luis Maçarico
TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE
 
Comunicação do dr. António Lacerda, do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Alcácer do Sal:
- Muito boa tarde. Antes de mais, muito obrigado pelo convite que a organização deste Encontro teve a gentileza de me dirigir e eu sinto-me pequeno e modesto perante gente que anda há muito mais tempo nestas lides do cante e que percebe muito mais disto do que eu. De qualquer das formas como penso que é importante o contributo ou seja de todos nós, cá estou. Eu vou-vos pedir desculpa também porque a minha comunicação vai ser extremamente telegráfica, vai ser extremamente breve, mas tenho um outro compromisso em Setúbal às cinco e meia e portanto como vêem estou muito atrapalhado de tempo. E agora, telegraficamente, alguns recados, algumas ideias. Falar do percurso passado ou do percurso presente ou até mesmo perspectivar o futuro do cante é fundamentalmente o mesmo que estar a discutir a questão do mundo rural. São duas matérias que estão intimamente associadas e que dificilmente se compreenderão sem uma abordagem global. O cante existe num mundo rural e porque o mundo rural existe. E é de facto um trabalho, é uma forma de exprimir, é uma arte que tem a sua essência bem enraizada na ruralidade. Se hoje o mundo rural está ameaçado, também o cante o está. Políticas excessivamente descentralizadoras e centralizantes que têm vindo a ser desenvolvidas, têm contribuído de uma forma assustadora para o esvaziamento do mundo rural, para o esvaziamento não só demográfico mas fundamentalmente pelo esvaziamento cultural. Não podemos defender o mundo rural contra essas medidas excessivamente centralistas, se não tivermos consciência da sua essência e do seu contributo na construção da nossa sociedade e na importância que tem na manutenção daquilo que somos. Um povo que não se reconhece no seu percurso do passado, que não se reconhece no seu presente, não é povo. E, se me permitem, enveredando um pouco mais sobre esta duplicidade que existe entre o mundo rural e o mundo urbano, eu acho que hoje já nos podemos confrontar com a desestabilização que nos foi provocada no mundo rural que se prolonga já e que vive e existe com maior premência no mundo urbano. Não se acautelou o futuro da ruralidade, não se acautelou o futuro do campo, empurraram-se duma forma mais ou menos ardilosa e sedutora as pessoas para as realidades mais urbanas, para os polos de desenvolvimento industrial, e a desagregação do mundo rural acabou também por provocar a desagregação do mundo urbano e hoje não se vive bem na área metropolitana, não se vive bem na periferia das cidades. Se calhar, a qualidade de vida mantém-se de facto, onde sempre esteve, no campo. Com este abandono das pessoas que foi imposto por medidas de fomento populacional ou desenvolvimento económico pouco acertadas, e com a sua falência, o Alentejo sobretudo, viu-se despido progressivamente de um contingente muito significativo de pessoas. E ao mesmo tempo, essas pessoas após a saída e quando tinham momentos de retorno e de contacto com a sua comunidade de origem, traziam com eles novas formas de expressão cultural que de alguma forma enjeitavam a cultura do lugar. Ao enjeitarem a cultura do lugar, e aqui no Alentejo em concreto uma das suas marcas mais dominantes que é o cante, estavam a recusar um pouco da sua própria identidade. Há a imperiosa necessidade de inverter esses termos, há a imperiosa necessidade de reafirmar o local enquanto um espaço complexo de relações interpessoais, um espaço onde a produção cultural de facto acontece, por antítese àquilo que se passa no mundo urbano onde a cultura, esta cultura, não se produz, onde a cultura é sobretudo um acto de consumismo e não de produção. Essa é a reafirmação do mundo rural e hoje notamos com bom agrado que há um retorno à origem, que há um voltar atrás e que se procura outra vez o cante, a cultura do Alentejo como símbolo da qualidade e dum determinado estatuto de vida. Não será por acaso que algumas elites do ponto de vista cultural redescobrem o cante agora e o levam a conhecer uma nova vida e uma nova pujança. É bom que isso aconteça. É de facto um retorno, é a reafirmação dessa identidade. Pena é que, ao longo de todas estas décadas, muito se tenha perdido, e como dizia o Manuel da Fonseca, pouco antes de falecer, Portugal a sua melhor discoteca e a sua melhor biblioteca enterrada nos cemitérios porque quando morreram os protagonistas principais na construção desta forma, levaram com eles todo um saber que agora não podem partilhar com ninguém. E não fosse de facto a intervenção de privados, de gente com alguns esclarecimentos, de gente que correu este país de lés a lés e que foi recriando uma memória ou foi registando tudo aquilo que de bom tínhamos, e não vale a pena citarmos muitos nomes, basta falar de Giacometti, de José Alberto Sardinha, de Fernando Lopes-Graça, ou Armando Leça, foram homens que de facto contribuíram para que ainda tenhamos testemunhos não vivenciais, testemunhos documentais para consultar e para percebermos a nossa tradição e a nossa cultura. Pena é que na maior parte dos casos, o espólio valiosíssimo que nos legaram continue em depósito não tratado e sobretudo não divulgado. O espólio de Armando Leça está na RDP, não sei se algum dia sairá à rua, o espólio do Giacometti continua engavetado, e tantas peças importantes que contém, e portanto, é pela ausência de uma política cultural que se contrapõe a este excesso de centralismo que nós temos que pugnar. Essa ausência marca-nos, essa ausência vitima-nos e nós temos que reafirmar a sua necessidade e contribuir para a sua construção. Não pode, no entanto, ser uma obrigação de privados. Podemos ser nós individualmente que iremos construir essa nova dimensão. Tem que ser uma obrigação do Estado nos múltiplos organismos que o compõem, do Estado, poder central, ao Estado local, ao poder local, ou, quando vier a ser criado, ao Estado regional. E neste contexto específico do Alentejo, num contexto de uma região que tem uma identidade própria, que tem formas de produção cultural que são suas, toda esta matéria ganha uma especial pertinência. É de facto uma responsabilidade colectiva e como tal, ao Estado compete, recolher, guardar, divulgar e potenciar este nosso tesouro que é fundamentalmente a afirmação da nossa cultura, a afirmação daquilo que nós somos. Como o vamos fazer? Há muitas ideias que se podem lançar. Este Congresso é um marco. A reedição de alguns materiais que estão perdidos é outro. A recolha, enquanto ainda é possível, é outro, e sobretudo fazer com que, ao nível das camadas mais jovens, compreendam a essência e a forma deste tipo de produção cultural. Que nas escolas do Alentejo se contextualizem os currículos escolares e que não se estudem apenas matérias que a todos de Norte a Sul dizem respeito mas também as matérias que ao Alentejo respeitam de que a esta região fazem parte. Não seria demais pensar que um dia o cante fosse matéria de estudo nas escolas, pelo menos fosse partilhado com os alunos como se partilha a História mais antiga, a presença dos romanos ou dos árabes neste território. Vamos também partilhar o tempo mais recente. Vamos partilhar o tempo em que se cantava que também os contextos locais levavam que assim fosse. Vamos afirmar esta cultura por antítese e por complemento às outras culturas. Não vamos esquecer as culturas mais eruditas ou mais urbanas, mas também não vamos esquecer esta. Não vamos querer formar só rurais, rurais na dimensão cultural do termo. Vamos é municiar estes rurais, vamos municiar estes alentejanos para que, não esquecendo a sua origem e a sua cultura, possam entender de forma crítica todas as outras culturas que lhe quiserem impor pela frente, venham embrulhadas em papel celofane como a da televisão, nos jornais ou nos concertos ou espectáculos de carácter muito populista. E somos de facto um povo com riquezas, com diversidades, com especificidades e se isto é verdade no país, mais verdade é no Alentejo. Muito obrigado e peço desculpa de ser tão breve e aquilo que eu trazia era um pouco mais.
Muito obrigado."
Dr. António Lacerda

quinta-feira, janeiro 23, 2014

TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE

- Boa tarde! Quero saudar a mesa. Quero saudar o Secretariado deste Congresso, especialmente ao Zé Pereira por este trabalho que ele tem desenvolvido até hoje e espero que ele o consiga acabar em bem. Vai-me ser muito difícil explanar aquilo que eu penso sobre o cante alentejano e o tema que está aí proposto “Modas e Modos” porque parece que se tem falado aqui de tanta coisa que eu já não sei o que hei-de dizer. Modas e Modos se calhar não se falou aqui, não? E queria, o nosso amigo Joaquim Soares, agora quando estivemos a comer cantámos ali aquelas duas modas, cantámos bem, uma maravilha! Então por que é que não cantamos as outras? Porque não queremos ou porque não podemos? Porque não podemos porque cada terra com seu uso, cada terra com seu fuso e aí é que está o problema, o grande problema do cante alentejano é esse. Telefonaram-me na quinta-feira e nem queria tão pouco vir aqui ao Congresso só queria vir amanhã, não tenho vida de facto vida para isso nem saúde. Mas como a pessoa que me fez o telefonema tenho grande estima e admiração, resolvi vir e resolvi fazer aqui um apanhado de algumas memórias que me vieram à memória. E então pus-me aqui a relembrar modas e cheguei à conclusão que apanhei o total de 86 salvo erro, que podem ser cantadas por qualquer grupo, em todo o lado. Até 86 peçam lá o número de uma moda! - Catorze! - “Linda jovem era pastora”. Quer que comece? Pronto. Por é que se fazem desfiles, já foi hoje aqui focado isto, e aparecem três e quatro e cinco e seis grupos a cantar o mesmo estilo, a diferença é só talvez na letra e às vezes nem na letra? “Modas e Modos”! Eu estou no grupo coral “Os Amigos do Barreiro” há vinte e dois anos. Ao fim de um ano de lá estar, por ironia do destino, vá lá, passei a ser o mestre, o chefe do grupo. Passei por muita coisa. Mas orgulho-me de ter passado por elas porque já tinha vindo de uma escola desde os onze anos e de maneira que essa escola continuou no grupo coral “Os Amigos do Barreiro”. Mas há coisas que nos marcam. E neste caso do cante alentejano o primeiro concurso, e não se falou disto aqui hoje, não se falou dos concursos de cante alentejano, parece que toda a gente tem medo de falar disso. O primeiro concurso de cantares alentejanos que se realizaram aqui em Beja em 1986, o grupo coral “Os Amigos do Barreiro” foi convidado pela entidade organizadora que foi a Associação do Património de Beja, é assim que se diz. Mandaram-nos todos os documentos como mandaram para todos os grupos, a ficha de inscrição, tudo. Respondemos, mandámos a ficha de inscrição, tudo. E quando chegámos cá para fazermos parte do concurso, estávamos em último lugar e extraconcurso. E qual foi o motivo por que estávamos extra concurso? Porque não éramos considerados alentejanos. Está aqui gente na sala que sabe disto. Como é que isto pode ser? O caso foi posto, batemos o pé, o caso foi posto, e nós fizemos parte do concurso. No ano de 1987 fomos convidados pela mesma organização, o segundo concurso depois do 25 de Abril, que fomos convidados extra concurso. Não viemos porque entendemos que o Alentejo não é só o Distrito de Beja. E os alentejanos que estão fora do Alentejo também têm o direito de cantar. E a prove disso é que naquilo que se chamou a zona industrial de Lisboa e Setúbal que hoje se chama pomposamente a área metropolitana de Lisboa, não é por acaso que teve lá 32 ou 33 grupos. Hoje em dia ainda existem 25 ou 26 não sei bem quantos são, e contribuíram muito para que aqui nesta terra e nestes arredores os grupos sobrevivessem e tivessem mais força. Isto é verdade, tem que aceitar isto como uma verdade. Mas como disse, em 1987 fomos convidados extra concurso e não viemos, dissemos não, o Alentejo não se cingia só ao Distrito de Beja, antes pelo contrário, ao norte também se cantava que é o caso que o Capitão Frasco há bocado aqui focou. Em Reguengos de Monsaraz também há um grupo coral alentejano. Também é Alentejo ou então fazemos o mesmo da rádio Renascença quando diz o boletim meteorológico, “no Porto está tantos graus, chove em Coimbra não sei quantos, depois passa para Évora ou para Faro” o Alentejo que é uma terça parte de Portugal não faz parte desta história. Esses gajos ainda a gente admite, agora os alentejanos...

- Fomos convidados em igualdade de circunstâncias em 1989 (?) por causa desta história que apareceu o Delegado do Grupo Coral “Os Mineiros de Aljustrel” a levantar esse problema que nós não éramos alentejanos, não sei se, o Dr. José Francisco é capaz de se lembrar disto, ficámos atrás dos “Carapinhas”, ficámos em vigésimo quinto lugar e se não cair nenhuma nódoa no nosso fato por causa disso, continuámos. Depois passou a haver os concursos em Castro Verde, fomos a Castro Verde, a gente não lhe interessa, ficarmos em primeiro, em segundo, em terceiro, em quarto, em quinto, a gente quer é cantar. Eu não sou religioso mas se for preciso vou cantar à igreja, já tenho ido, cantamos, vamos cantar lá ao Barreiro, ao Barreiro, não é? Até já cantámos na Igreja do Rosário “o Passarinho”. Portanto, “Modas e Modos”. Há no cante alentejano, ou querem fazer, o rio Guadiana dividir o cante. Canta-se de uma maneira na margem direita e canta-se de outra maneira na margem esquerda. Para mim, canta-se na margem esquerda aquilo que as pessoas da margem esquerda querem cantar e canta-se na margem direita aquilo que as pessoas da margem direita querem cantar. Porque as pessoas da margem esquerda cantam também aquilo que se canta na margem direita se quiserem e as pessoas da margem esquerda cantam também aquilo que se canta na margem direita. Pronto e vice-versa. Isto já foi demonstrado por mim e pelo grupo coral (desculpem lá) Isto já foi demonstrado por mim numa destas palestras que se fizeram aliás. Não é difícil cantar-se, qualquer grupo aqui da margem esquerda ou da margem direita cantar como se canta na margem direita ou na margem esquerdas. Não é difícil. A gente no barreiro, portanto, o Barreiro não tem tradição de cante alentejano senão os alentejanos que lá vivem, tanto no Barreiro como noutras áreas como no Lavradio, como na Baixa da Banheira, e canta-se aquilo que se canta na margem esquerda ou na margem direita. Pode haver uma diferença na música porque não foi bem entendida ou não foi ouvida ou, nestes grupos principalmente na área de Lisboa, acontece que há sempre um elemento que ou é do concelho de Serpa ou é do concelho de Mértola ou é do concelho de Moura, do concelho de Cuba, ou do concelho da Vidigueira. Portanto, determinada moda que é cantada num sítio desses, essa pessoa dá sempre uma achega, portanto essa moda é cantada assim, e a gente cantamos, cantamos, cantamos o “lírio roxo” como se canta mais ou menos aqui na margem esquerda e que é muito bem cantado, embora o final que aparece no “lírio roxo” para mim me diga (ou modifica?) pouco, “chiro-biro-biro patamar meu bem” não sei onde é que vão buscar essa frase “chiro-biro-biro”, pronto, mas cantam, não interessa, cantam, mas o “chiro-biro-biro” é que me parece que sai fora da letra daquela história, pode não sair da história do “meu lírio roxo”, não é, pronto. Cantamos “Alentejo, Alentejo”, cantamos como se canta na margem esquerda que é o ponto cantar a cantiga os dois primeiros versos e depois o grupo entrar a cantar o resto da cantiga e depois entrar-se na moda. Cantamos o “Fui dispor a salsa verde”, talvez não cantemos exactamente como se canta na margem direita porque a pessoa que nessa altura tínhamos no grupo que era dessa área de Serpa talvez não fosse capaz de nos indicar precisamente os pontos em que a música se decifrava, cantamos, por exemplo, “a ribeira do Enxoé”, o Cachola até um dia ficou admirado aqui em Beja de a gente vir a cantar aquela moda, “a ribeira do Enxoé” que é na margem esquerda, enfim, o Barreiro não tem modas, a gente temos de jogar as mãos às modas que há por aqui nesta área. Agora vamos tocar outro tema. Ah! Mas eu ainda queria dizer outra coisa. Por exemplo, na região de Almodôvar, canta-se muito uma moda que eles até dizem que foi feita lá, que é de lá, o Galo. É uma moda bonita. Simplesmente, nós temos outra maneira de entrar na moda. Era uma maneira que eu escolhi, que eu gostei, para cantar esta moda, a gente tem de cantar assim, pronto. Não sei se estará bem se estará mal mas está à minha maneira e como eu é que sou o mestre do grupo sou eu que dou os bons dias. “A Mariana Campaniça” cantamos “A Mariana Campaniça” também, uma moda muito bonita que o Dr. José Francisco em Castro Verde se canta especialmente as violas campaniças, gostamos muito de cantar “A Mariana Campaniça” e assim sucessivamente, cantamos aquilo que podemos, não cantamos aquilo que queremos, cantamos aquilo que podemos que é diferente. Cantamos aquilo que podemos. “Ao romper da bela aurora”, quantas versões há do “ao romper da bela aurora”? “Ao romper da bela aurora”, aquela versão mais tradicional é: “ao romper da “ isto é a versão original, mas depois disso (canta) “ao romper da bela aurora”, e a outra versão (canta) “ao romper da bela aurora” , “eu ouvi um passarinho” também é “ao romper da bela aurora”. Ainda há outra versão do “ao romper da bela aurora” (canta) “ao romper da bela aurora”, também essa, “sai o pastor da choupana”, “sai a pomba do pombal”. Há uma porção de versões. Porque é que os grupos corais se hão-de repetir ou hão-de cantar coisas que não têm determinado interesse? Agora e para ser breve vou focar aquilo que eu penso do musical. No tempo dos tais bailaricos, dos bailes de acordéon, chamava-se ao acordéon a música a metros, porque geralmente as pessoas que apareciam a tocar nesses bailes tinham pouco ouvido ou sabiam pouca música. Sabiam tocar pouco e então lá acertavam o compasso e aquilo a gente chamava “música a metro”. Daí talvez venha o desconforto, se ouvir um grupo ou um grupo musical a tocar e não interpretar devidamente aquilo que é a moda alentejana que eles estão a executar. Mas eu penso que isso talvez parta de um princípio, do ensaio. Se um grupo musical ensaiar primeiro a moda, não fugir do seu ritmo, a parte musical depois vai entrar dentro desse ritmo, não deve fugir dele. Vai buscar o tom que eles estão a cantar, se for isso, se for assim parece-me que está a interpretar fielmente aquilo que será o cante alentejano, as modas alentejanas, porque a música faz parte, a gente estamos aqui a falar, a música é a arte dos sons, a eu a falar estou a dar música a vocês. Não será? O que é que acontece? Tudo aquilo que é falado, cantado, pode ser musicado. O que hé é poucas pessoas que sejam capazes de transportar fielmente para o papel, portanto, para a música, o cante alentejano nas suas várias versões. Isso é que é capaz de ser o grande obstáculo porque qualquer das modas que se canta, sei lá, então os homens fizeram as modas, fizeram também tanta peça, tanta ópera, tanta coisa dessas, então não eram capazes de transportar o cante alentejano para a música? Talvez que interpretam não sejam capazes. Isso é outra coisa. Agora que o cante alentejano, na minha opinião, musicado, deve existir e deve ser conservado, não deve ser adulterado, que é outra coisa. Não deve ser adulterado. Eu tenho pena de não estar aqui o Dr. Francisco Torrão, ele teve aqui na primeira parte, eu não quis intervir, e como ele não está aqui eu acabo aqui a minha intervenção, porque eu queria fazer-lhe umas perguntas, mas como ele não está aqui, não merece a pena eu falar porque a pessoa não está presente e então não merece a pena.

Muito obrigado pela atenção que me dispensaram.
José Coelho

 

quarta-feira, janeiro 22, 2014

TRATADO DO CANTE:
Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE



Comunicação do Dr. José Simão Miranda, do Grupo Coral "Os Alentejanos" da Damaia
- Eu queria dizer antes de iniciar a prelecção, eu queria desde já agradecer ao José Pereira, pois este trabalho ou uma parte deste trabalho, é baseada no livro dele, o livro “Corais Alentejanos”. De resto, é um livro que se recomenda que toda a gente leia. É feita uma análise estatística dos grupos existentes baseada no número de elementos, média de idades, etnografia e depois as perspectivas para o futuro. E lembrando o que já foi dito aqui, muita coisa, os primeiros grupos a aparecerem foram em 1926 mais propriamnete o grupo de Aljustrel. Esta é a primeira formação do grupo coral. Obviamente que já se cantava há muitos anos mas os grupos não estavam formados ainda. Se calhar as minas foram pretexto para que se organizassem em grupo coral. Até 1964, havia apenas 18 grupos corais, 14 no Distrito de Beja, 3 no Distrito de Évora e 1 no Distrito de Lisboa, não contando com aquele grupo que apareceu na Casa do Alentejo por volta dos anos 60, esse grupo foi dissolvido, e aparece posteriormente o primeiro grupo que é o Grupo Coral da Amadora em Lisboa como grupo organizado. No total de grupos até 1997 surgem 107 grupos corais. Pode ter surgido mais algum nestes últimos tempos que não está ali referido mas são sensivelmente 107 Grupos Corais.

Pronto, e aqui se mostra o número distribuído por Distritos. Assim, dos 107 Grupos Corais são 63 no Distrito de Beja, 13 no Distrito de Évora, 6 no Distrito de Setúbal, e 25 no Distrito de Lisboa. Destes, de Beja, 7 são femininos, 5 infantis. Évora existem 2 grupos musicais, em Setúbal, um musical, e um feminino, e em Lisboa, 3 musicais e um feminino. O número de elementos dos grupos corais, isto mobiliza um número significativo: 2.486 elementos, sendo homens 1974, mulheres, 196, e crianças 163, e dos grupos musicais entre homens e mulheres, 151 elementos. Agora referimos os grupos corais por média de idades por Distrito. Assim, temos no Distrito de Beja , a média de idades é 56 anos, as mulheres de 51 anos, e a média de idades dos grupos infantis é 8 anos de idade. O Distrito de Évora a média de idades é de 50 anos e no Distrito de Setúbal, 42 anos, e o Distrito de Lisboa é o grupo etário mais velho que se apresenta com a média de idades de 57 anos. De referir que em Setúbal beneficia um pouco pelos grupos musicais, com a média de idade que faz baixar a média de idades, Évora que também tem um grupo relativamente jovem, que é um com a média de idades à volta dos 35-36 anos, o Grupo do GNR, e Beja acaba também por beneficiar um pouco com os grupos que já estão incluídos, o grupo que já foi aqui referido hoje, de Santo Aleixo da Restauração, cuja média de idades anda por volta dos 30 anos. Também foi estudado, isto foi tudo como já referi, no livro do senhor José Pereira, os grupos Etnográficos, aqui nós tivemos o cuidado, enfim, de ver muito bem até que ponto é que era Etnografia. Aqui pode haver discussão, pode ser polémica, pode ser polémica na medida em que há grupos que se apresentam apenas com fatos domingueiros, e esses não foram de facto considerados. Há aqui  grupos muito velhos, mas mesmo muito velhos, no entanto eles nunca vestiram etnograficamente. Isto é uma questão quente do Congresso e provavelmente vai sair daqui algumas ideias acerca disso. De facto são 19 grupos que representam a Etnografia do Alentejo. No Distrito de Beja, aparece à cabeça como é óbvio, com 11 corais masculinos, 2 nas mulheres e 3 infantis, apresentam representando verdadeiramente etnograficamente. Eu digo etnograficamente porque há grupos que representam as várias classes sociais, outros só as camponesas, outros só os ceifeiros. Esses representam, efectivamente a etnografia. O distrito de Setúbal aparece um, é Grândola, e curiosamente, ou infelizmente, diria eu, em Lisboa, zero. Se calhar muitos vão ficar chocados, ficarão chocados, eu também faço parte de um grupo de Lisboa, mas efectivamente Lisboa não representa nem nunca representou nem quando esteve na Casa do Alentejo, nem a própria Casa do Alentejo quando teve o Grupo Coral, também não representou etnograficamente. Teve sempre um fato domingueiro, um fato de calças pretas, uma camisa branca, que não é etnografia. Tenham paciência! Aqui chamaram-se fardas, eu acho que chamar farda a um Grupo Coral é extremamente grave, na minha opinião. Considero que não é uma farda, é um traje ou trajo, como quiserem, que os grupos devem vestir. Passamos à frente. E assim podemos concluir. Conclusões: verifica-se, portanto, que no pós-25 de Abril há um aumento significativo, até aqui havia 18 grupos corais e há uns que desapareceram. De referir também alguns grupos infantis antes do 25 de Abril nomeadamente na Mina de S. Domingos e em Serpa, que depois terminaram. Verifica-se então um aumento dos Grupos Corais após o 25 de Abril, um aumento em sensibilidades (idades?) que não é muito alta, uma maior participação das mulheres, que até aqui não tinham aparecido, apareciam esporadicamente inseridas em grupos, eu lembro-me do Grupo de Serpa ter duas ou três mulheres, e outros grupos, o aparecimento de Grupos Infantis agora há muito pouco tempo, enfim, graças, já foi aqui referido, à Cortiçol, ao Ferreira do Alentejo e à Margem Esquerda, nomeadamente em Pias, o aparecimento de Grupos Corais, isto é uma questão polémica, apareceram de facto alguns mas são poucos os que eu refiro porque os Grupos Corais, os grupos musicais, antes foi falado o trio Odemira, foi falado o trio Guadiana, era apenas um trio, mas de facto isso é mais discutível porque eles divulgaram muito o cante alentejano. Enfim, não na forma pura, mas de alguma forma também lhe deram a sua divulgação. Mas não são classificados aqui. Por outro lado, uma descentralização dos Grupos Corais para a área da Grande Lisboa, e verifica-se apesar de tudo, apesar dos grupos de facto não se apresentarem etnograficamente representados, mas há de facto uma vontade na preservação das raízes culturais do cante. Não há dúvida nenhuma que os grupos de Lisboa e os outros grupos tentam ou pelo menos esforçam-se para isso, para a preservação do cante. Isto é o que se verifica, embora houvesse uma grande décalage, um grande diferencial durante estes anos todos, tanto mais de referir que em 1966 foi feito um estudo por um professor, Ranita Nazaré, na realidade fez uma tese, já foi aqui referido e ele fez o estudo na altura só com 12 grupos, eles eram 18, mas ele procurou 18 musicando, ele próprio musicando, ele chama espécimes, modas no sentido da letra, músicas diferentes. E em função disto, há que pensar. Estou atrasado? Não estou atrasado. É isto mesmo: o que somos, o que queremos, e para onde vamos. Há que pensar nisto. Vamos então concluir. Só dar umas achegas. Reorganizar os grupos, também já debatido, eu só falo em duas coisas importantes: os mestres! Os mestres são de facto coisa importante, muito importante, na minha opinião. E lembrava que recentemente tive oportunidade de estar em Cuba e assistir a um ensaio do Grupo “Os Ceifeiros de Cuba”, de facto fiquei maravilhado, eu já conhecia o grupo há muitos anos, era eu bem crianças quando os ouvi cantar em Lisboa, numa casa onde trabalhei que se chamava “O Folclore” ligada ao SNI, e de facto fiquei, na minha memória, ficou de facto aquela imagem que eu nunca mais esqueci e vim curiosamente há bem pouco tempo, depois de eu cantar num grupo há vinte anos, assistir a um ensaio dos Ceifeiros. E o Mestre, o Mestre Ermelindo Galinha de facto marcou-me, marcou-me a forma como ele ensaia. E eu, é o exemplo que eu refiro, há outros seguramente, há outros. Mas faço aqui um apelo que se faça através de vídeo, de cinema, como é que se faz um ensaio. É um exemplo que se pode transmitir aos outros grupos, quer enfim às escolas, porque tem de ficar registado esta forma de ensaiar. Em relação aos dinamizadores, outra questão que acho que é polémica, mas eu enfim estou autorizado a fazê-lo na medida em que eu sou um dinamizador do grupo, dinamizador, porta-voz, não sou mestre, claro, sou apenas o porta.voz. Como não sei cantar muito bem, enfim, mas canto, faço o baixo e acho que já é muito, sou o porta-voz, transmito a realidade do grupo, falo do cante em si, mas canto há vinte anos, vinte anos que ando vestido com o traje, com a farda do grupo, porque é um grupo de Lisboa e não tem chapéu, já teve, agora não tem, tem uma camisa branca, enfim, uma coisa que eu não gosto muito, eu defendo muito a etnografia, mas um grupo com dificuldades enfim, temos essas dificuldades, mas a partir de agora somos capazes de pensar mais nisso. E isto a propósito dos dinamizadores, eu conheço alguns, alguns estarão aqui na mesa, provavelmente ali será outro, nós no Secretariado seremos alguns dos dinamizadores dos grupos, e parecem-me que a maior parte deles de facto não vestem o traje, estão aí a minha opinião parece que se dá uma imagem um pouco intelectual e isso em minha opinião não é de bom-tom, eu dá-me a ideia que os dinamizadores deveriam estar vestidos ao lado do grupo nem que não cantassem, cantassem só baixinho, mas que tivessem lá com a farda representando o grupo, dando uma melhor imagem porque o grupo era muito mais valorizado. Raízes etnográficas: mantê-las vivas, amanhã penso que vai ser um tema quente, eu não me vou alargar muito sobre isto, divulgação do cante, eu também queria falar sobre isto, mas já falei de muita coisa, penso que não vamos, divulgação, a divulgação já foi aqui também muito falada, cada vez mais temos que o divulgar, seja através de vídeo, através de gravar coisas que foram aqui referidas, enfim, fazer monitores, de qualquer modo este Congresso se calhar vão sair daqui muitas coisas porque já muitas coisas foram abordadas, e eu não vou repetir-me. 

Um ponto importante que eu penso é trazido para aqui, eu tomei a liberdade de o trazer, enfim, com um, de alguma forma eu posso ser criticado mas porque este estudo, enfim é feito de uma forma subjectiva: a contribuição do cante para a saúde. Até que ponto é que isto pode ser verdade? (…) Se calhar não corresponde inteiramente à verdade há outras zonas do país em que o suicídio é capaz de ser maior ou igual, no entanto, como culturalmente nós assumimos o suicídio com a nossa dignidade que temos e, assumimos e como é de notificação obrigatória habitualmente os Delegados de Saúde notificam sempre porque enfim não se põe o problema da religião, o padre ou vai ou não vai para nós é um pouco indiferente, enquanto no norte não é assim, enquanto no centro não é assim, nas grandes cidades não é assim. Todos os dias chegam aos hospitais tentativas de suicídio e esses números não são notificados. E lá estão os alentejanos a pagar sempre. São aqueles que se matam sempre, são aqueles, enfim, e eu não acredito muito nestas estatísticas. No entanto, o que eu queria referir na minha experiência em Beja, parece ter, não houve um estudo científico mas o colega da psiquiatria, só existe um psiquiatra em Beja, de facto debruçou-se sobre isso, conversámos muito sobre o cante e sobre as coisas, ele não sendo alentejano, estava interessado nessa matéria, e verificou que os grupos como sabem depois da viuvez, enfim depois da viuvez há uma depressão. No primeiro ano da viuvez há uma depressão e se realmente as pessoas ficam fechadas em casa vestidas de luto seguramente estão em maior risco, sobretudo não sendo acompanhadas o suicídio pode acontecer. Os cantadores dos grupos se cantarem, se voltarem a estar activos com a solidariedade dos amigos, dos camaradas do cante, dos colegas, como quiserem, o risco de suicídio é muito menor. Isto significa que efectivamente o cante tem alguma importância na profilaxia do suicídio. Isto o estudo não é feito mas parece ter algum peso, algum valor. A outra parte de que queria falar em relação à saúde é também a minha experiência a nível hospitalar. Eu neste momento trabalho em cuidados intensivos e de resto já fiz um artigo que hão-de receber e tive a preocupação quando me aparecem doentes alentejanos enfim, eu tenho sempre, há qualquer coisa que atrai porque é alentejano, enfim porque está ali um pouco abandonado, não é? E não há dúvida de que, quando me apareceu um doente pela primeira vez alentejano e não era nada receptivo aos tais cuidados intensivos, eu cantei-lhe uma moda baixinho e entretanto depois pensei em introduzir, porque nas unidades de cuidados intensivos ou outras unidades mais diferenciadas, existe música e eu pensei que poderia ser útil aos doentes que estavam naquelas unidades, em vez de pôr outra música, dedicar um C.D. alentejano. E assim nasceu a ideia de introduzir os C.Ds nas unidades de cuidados intensivos, mais na minha experiência, no Curry Cabral, já outra unidade que tem, parece que está a ter algum efeito e os cirurgiões, isto já foi alertado, já foi discutido muito recentemente, parece que estão a querer levar também os C.Ds para os blocos operatórios, independentemente de ser ou não ser alentejanos, o que, a música tocada muito baixinho, parece ser calma e que lhe dá destreza e serenidade. Parece extremamente útil isto eu queria referir isto porque isto é um dado novo e é importante que fique escrito. Por fim, a transmissão dos valores culturais do cante às gerações vindouras é um tema já batido penso que não vale a pena estar a falar nisso, e fico-me por aqui.

Muito obrigado pela atenção.
Dr. José Simão Miranda

 

terça-feira, janeiro 21, 2014

TRATADO DO CANTE:

Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

PAINEL C           PERSPECTIVAS FUTURAS DO CANTE
Francisco Caipirra da Associação do cante alentejano “Os Ganhões” de Castro verde.

- Boa tarde a todos. Tenho a consciência que o que vou dizer nesta comunicação é polémico e poderá de alguma forma ferir algumas susceptibilidades principalmente daqueles que olham o cante e recordam com alguma nostalgia outros tempos em que a sociedade alentejana era mais solidária. No entanto, perante o estado em que o cante se encontra justifica sermos um pouco radicais e até bem irreverentes. As mudanças só se fazem, fazendo-as efectivamente. Em primeiro lugar, uma constatação, os poderes não se encontram neste Congresso, os poderes esses que tanto gostam do cante e tanto gostam da cultura e utilizam essa bandeira quando muito bem necessitam dela. Em primeiro lugar eu gostava de dar os meus parabéns à Casa do Alentejo em Lisboa pelo facto de ter levado a cabo a realização deste primeiro Congresso do cante. É uma iniciativa louvável que irá certamente credibilizar o cante e valorizar o papel de alguns milhares de homens e mulheres que neste momento dão corpo e alma aos nossos grupos corais. Digo isto do fundo do meu coração sem quaisquer preconceitos, pese embora sempre tenha defendido que nestas como noutras questões que nos dizem respeito, o protagonismo terá que emergir de dentro das fronteiras da pátria alentejana. Só que nesta como noutras questões, somos pouco protagonistas. Trata-se obviamente de um comportamento pouco convincente em que todos nós deveríamos meditar principalmente os poderes regionais, aqueles que nos representam e em quem nós entregámos a nobre tarefa de decidir. É que para sairmos do rabo da Europa, não basta apregoar aos sete ventos que é necessário que nos liguem e que invistam em nós. É acima de tudo necessário nós próprios não menosprezarmos o nosso maior património, aquilo que mais nos identifica como povo e como pátria, a forma pouco digna como o cante tem sido tratado nos últimos anos olhado como peça de museu e muito pouco como uma realidade que envolve mais de uma centena de grupos no nosso país, exige de todos nós que alteremos as regras do jogo e definitivamente lutemos para que ele não saia do seu habitat natural ou seja da mente e do comportamento do povo. Fernando Lopes-Graça definiu com algum rigor a verdadeira paixão dos alentejanos pelo cante. Vamos então recordar. “Esta gente canta com verdadeira paixão e todas as ocasiões são boas para dar largas ao seu lirismo ingénuo. Não há trabalho, folga ou reunião de qualquer espécie sem um rosário infinito de cantigas. A alma do alentejano é profundamente musical e o cante é o elo vital que liga aqueles seres primitivos no sentimento de uma comunidade telúrica. Em qualquer parte o alentejano se reconhece e identifica reconhecendo e identificando em mesmo passo os seus irmãos em carne e em espírito mediante o viático das suas canções. Por vezes fico deveras assustado. Oiço muitos intelectuais e outros pensadores elogiar de forma exagerada aquilo que se passa além-fronteiras, em especial na Córsega, na França e na Irlanda. Até quase nos fazem crer que é nesses países que melhor se defendem as raízes tradicionais mormente a sua polifonia popular. Esses senhores talvez não saibam que essas raízes estão a sair do seio do povo. Cada vez mais esse comportamento está a fechar-se dentro das quatro paredes da Universidade. É verdade! O que para aí vemos e ouvimos são grupos de estudantes universitários que se organizam e dão corpo aos inúmeros grupos de música étnica que calcorreiam esse mundo fora. E aqui é que reside a grande questão. Todos temos que lutar para que essa situação não aconteça na pátria alentejana. No Alentejo se o povo é que tem até agora cantado, então o povo é que deverá continuar a cantar. Neste tipo de comportamento devemos dispensar representantes. Este é o que orgulhosamente chamamos o cante da terra. Quando se deixar de cantar nas vilas e aldeias do Alentejo então o cante passará a ser canto, os grupos serão coros, os homens e mulheres serão artistas, o povo deixará de ter pátria serão pessoas iguais a todas as outras só diferentes pela língua ou pela cor da sua pele.” (Será fim de citação?) O ano de 1997 tem sido o ano da graça do cante. Desde os anos 50 que não assistíamos a tanta manifestação, tendente a valorizar e credibilizar o cante. O tempo do prato do feijão está a ficar nublado e a meter água por todos os lados. Aproxima-se outro tempo muito mais aberto com o sol a espreitar a planície. Chegou a hora de todos juntos encontrarmos as melhores soluções para que o cante continue vivo e se mantenha no coração dos alentejanos. Um dos maiores entraves à renovação dos nossos grupos corais é o enorme fosso cultural e de mentalidades que existe entre os homens e mulheres que os constituem e a juventude. Por isso, é errado continuar a acusar os jovens de desinteresse. Os tempos são outros, as motivações dos jovens são diferentes. E nós estamos aqui desde manhã a falarmos das mesmas coisas, a acusar praticamente os jovens de manifestarem algum desinteresse pelo cante como nós próprios não fazemos nada para que essas coisas aconteçam e estamos muito no nosso pedestal à espera que os jovens venham ter connosco onde devemos ser nós a ter que ir ao pé deles. O que mais motivava o cante era o trabalho agrícola, o entretenimento ao fim da tarde nos largos e nas praças. Hoje o Alentejo já não é uma pátria agrícola. A sociedade alentejana tem vindo a desenvolver outro tipo de motivações. O cante tem que ser dinâmico, tem que acompanhar os velhos tempos, tem que ter poesia actual, tem que falar nos tempos que correm, e ocupar novos espaços. Um pouco nesta linha de pensamento, venho defendendo que é urgente retirar o cante da pré-história e situá-lo na História. Com isto não quero dizer que temos que renegar o nosso passado. Nada disso! O que pretendo transmitir é que se a sociedade evolui, se o pensamento também evolui, então o cante não pode ficar estagnado. Mesmo na componente etnográfica, o cante também tem que evoluir. Não podemos continuar agarrados à samarra e aos safões, ao chapéu de aba direita e às botas caneleiras. O aparecimento de um grupo hoje não deverá ter esses preconceitos. Hoje o homem e a mulher alentejana já não se vestem com esse tipo de vestuário. Não quero com isto dizer que os grupos não possam continuar a utilizar trajos antigos. Quero simplesmente dizer é que veria com bastante naturalidade o aparecimento de um grupo com um traje actual sem chapéu e com sapatos, com jeans e tea-shirts . As nossas mondadeiras hoje já não usam as saias até aos tornozelos, bem pelo contrário, vestem-se com uma mini-saia atrevida. Só quem defende que o cante é um comportamento folclórico é que rejeita esta evolução. Existem diferenças substanciais entre o folclore do norte do país e o cante do sul. No norte, só se dança para o turista ver. No sul, o cante brota da alma do povo. Noutros tempos a juventude estava em casa e no campo. Hoje está na escola. A família nos dias que correm é uma estrutura cada vez menos influente na formação e orientação dos jovens. Cada vez mais a escola substitui a família. E eu diria também, cada vez se fala menos em casa. É com este novo contexto social que deveremos construir o futuro. E falemos então do futuro. Na realidade, este Congresso devia ser conclusivo no que se refere à criação de uma estrutura que possa daqui para o futuro ter um papel de apoio aos grupos corais e em simultâneo desenvolva um conjunto de actividades que visem a preservação e dignificação do cante, não só deste. Penso que essa estrutura deveria também preocupar-se com outras formas de cantar como seja o despique e baldão e a viola campaniça. Associado a tudo isto, deveria também ter um papel fundamental no estudo dos usos e costumes e sua preservação. Poderão existir dois caminhos para se concretizarem estes objectivos. E até aqui há um caminho que ainda não foi falado e eu tenho pena que o Dr. Henrique Pinheiro aqui não esteja. Um considero-o indispensável, seria a criação de um Departamento dentro do Conservatório de Música do Baixo Alentejo que visasse a formação e sensibilização dos alunos em relação ao cante. É no Conservatório que se formam os professores e o actual contexto estes têm um papel fundamental a desempenhar. Estamos a falar em professores de música. Os professores que saem do Conservatório deviam ter um conhecimento profundo de cante e de outras formas de cantar do Alentejo. Não podemos permitir nas escolas desta pátria ainda se continue a ensinar a “loja do mestre André” e se omita ou se desconheça “Ó rama, ó que linda rama”. E isto é o que acontece e continuamos a falar das ceifeiras do passado e dos pastores do passado. E queremos que a juventude venha para os grupos vestidos de pastores e vestidos de ceifeiras. A realidade do Alentejo é outra. Temos que começar nestas pequenas coisas. Outro caminho seria a criação do Instituto das Tradições com personalidade jurídica e com sede na cidade de Beja. Eu estou a falar no Instituto das Tradições, não estou a falar numa Federação de Folclore. O Alentejo não merece uma Federação de Folclore. O Alentejo merece um Instituto das Tradições, um Instituto de Cultura, qualquer coisa assim parecida. Como eu disse há pouco, aqui não se canta para os turistas, canta-se porque o cante brota da alma do povo. Era uma estrutura que fosse o polo aglutinador, coordenador, dinamizador e um trabalho sistemático e científico em relação ao cante e aos usos e costumes da pátria alentejana. Esse organismo deveria ser constituído essencialmente por Grupos Corais, evidentemente, mas também por esse organismo ou associações às quais se reconheça legitimidade. Por exemplo, autarquias locais, passou por aqui muito pouca gente, associações de Municípios, não vi ninguém, regiões de Turismo, Conservatório de Música, representações do ensino aos vários níveis para integrar este ensino nos projectos de área-escola como foi muito bem dito, pessoas individuais de comprovado prestígio intelectual. Este é um conjunto, são medidas práticas que o Congresso deveria determinar. E não pode ficar a ideia que para se implementar este tipo de estruturas que é complicado ou que demora muito tempo. Como eu disse no início, só há uma forma de se fazerem as coisas, é fazendo-as efectivamente.

Muito boa tarde a todos.

Francisco Caipirra

segunda-feira, janeiro 20, 2014

TRATADO DO CANTE:
.......Congresso do Cante Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997

11H15 - PAINEL B              SITUAÇÃO ACTUAL DO CANTE
 

 
"Como devem ter percebido eu não sou alentejano e o que sei ou que tenho reflectido sobre o canto alentejano devo muito a algumas pessoas que estão aí e ao Sr. Manuel Gaspar, meu conterrâneo de Oeiras, alentejano de gema, e também a umas viagens que tive a sorte de fazer quando tinha 18/19/20 anos com a Juventude Musical Portuguesa e onde pela primeira vez dei conta de que existia cante alentejano. Eu pensei que dado o tema em que me integrava, apeteceu-me mais fazer uma reflexão sobre uma série de condicionantes para a situação actual do cante e também aquilo que eu penso que poderá contribuir para uma transformação desta realidade e portanto são mais os enunciados do que as respostas, mas se os enunciados fizerem sentido entusiasmam-me a mim e provavelmente a muitas outras pessoas para organizarmos a estratégia e os modos de levarmos por diante toda uma questão que é evidente. Interessa a muita gente e ainda bem. Eu vou tentar ser muito conciso e pensei que a intervenção devia ser tão curta quanto possível para depois poder haver um certo tempo de diálogo. Como vos estou a roubar já tempo de almoço e nós estamos muito atrasados, provavelmente o diálogo ficará para outra oportunidade. Por um lado, eu tive a necessidade de quando eu estou a falar de música, neste caso do cante, dizer o que é que eu estou a entender por ele e como é que me situo, e em relação a uma outra questão que eu por vezes vejo muito longe destes debates e que me parece fundamental que é a questão do gesto musical, penso eu, tal como eu digo ali, tentei pôr da forma mais simples. Para já a música para mim e penso que para muita gente, é sempre qualquer coisa de relativo e reconhecido como tal por um grupo de pessoas que acham que aquilo é música e que o resto que os outros chamam música por vezes não é. O considerar que uma determinada realidade sonora é música ou não depende muito de um grupo de pessoas que lhe atribui esse significado e é de facto um universo de sonoridades e estruturas sonoras e aqui as sonoridades têm que ver por exemplo com o timbre especial que eu penso que o cante alentejano tem e digamos com a forma que nós reconhecemos imediatamente se se trata ou não desta ou daquela região, quer dizer há sonoridades muito próprias que eu penso que seria muito boa ideia tentar começar a fazer um pouco mais do que eu penso que está feito. Vamos lá a ver então o que é que caracteriza esta ou aquela região e que só para vos dar uma ideia eu assisti e vivi por dentro a situação dos encontros que de alentejanos de diversas regiões para formarem um grupo em Lisboa e como é que aquilo se casava e o que era preciso fazer de conversa e de cedência e de entendimento para admitir o timbre de um, a forma de cantar de outro e a ornamentação de outro, até aquilo fazer sentido e como foi possível, reinventar um canto, que é o canto dos grupos da região de Lisboa é qualquer coisa de espantoso e que eu penso que foi das melhores lições que eu tive sobre o cante alentejano. Em relação ao gesto musical, porque eu penso que não se pode falar de canto alentejano sem perceber que ele está intrinsecamente ligado a uma determinada colocação da voz, a um determinado timbre, a uma determinada forma de respirar e não há livro que descreva isso, quer dizer nós podemos fazer uma descrição literal mas a única forma de aprender e de fazer passar este conhecimento, que é o conhecimento, por vezes, muito complexo, é do contacto dos cantadores com quem está a aprender, que era uma situação que eu penso que o Alentejo teve até aos anos 50, antes dos grandes movimentos migratórios, antes da guerra colonial e da movimentação grande que houve e era portanto uma situação de aprendizagem presencial, quer dizer, em comunidade, como os grupos estavam juntos, nas situações em que eram permitidos, as mulheres com as mulheres, os homens com os homens, como sabemos que era e aprendiam porque estavam l‡, porque havia tempo, tempo ˆ noite para as pessoas se encontrarem, haviam longos tempos de Inverno em que havia muito tempo em casa para as pessoas estarem e portanto esta tradição não era preciso considerá-la ela passava-se de uma forma natural o que não acontece hoje e eu diria que, talvez, o mais importante que haverá no cante pode-se perder, exactamente, por não estarem criadas condições para serem transmitido isso que é mais que o repertório, quer dizer eu como Lisboeta ou um grupo de Coimbra podemos aprender um repertório mas vamos ter muita dificuldade e temos que fazer um trabalho que alguns amigos nos fizeram e que resulta mas Ž um trabalho de grande mergulho em profundidade na cultura, mas vamos lá a ver como é que isto se canta de facto, como é que é a ornamentação, como é que são os princípios das frases, como Ž que eles respiram e isso Ž o mais complexo. Os temas que eu queria trazer e que eu penso que são temas que interessarão, e que eu enunciei, naturalmente seria melhor chamar-lhe motes, como nas modas, mas o tempo e os espaços adequados ao desenvolvimento da identidade músico/gestual, quer dizer como era sabemos nós como há-de ser agora como é que nós conseguimos criar condições para que haja esta transmissão é que eu penso que está tudo para reinventar. É evidente que o papel dos grupos é fundamental, mas normalmente os grupos apanham pessoas crescidas, já, e são os que eu conheço onde há uma integração, o caso de Castro Verde é um exemplo espantoso e um exemplo a seguir, penso eu, são poucos os que eu conheço onde o grupo, a associação, aquele pequeno grupo de gente conseguiu arranjar maneira de fazer a transmissão às gerações mais novas e portanto é preciso arranjar o tempo e os espaços adequados. Eu penso que só os grupos não chegam e digamos a segunda parte quando eu destapar a folha, são algumas possíveis hipóteses de trabalho. Por outro lado quem são os transferidores e aferidores das competências músico/gestuais, quer dizer, porque nisto do transmitir tem que haver alguém que transmita e alguém que veja se a coisa está a correr bem e o que eu sinto Ž que muitas das pessoas que são os detentores do conhecimento do cante alentejano, são desconsideradas em termos de conhecimento quando por exemplo vão a uma escola ou quando por exemplo vão a um sítio onde, digamos, há pessoas com outro estatuto: de professores de licenciados, etc. que reconquistaram esse lugar e portanto eu penso que há que com abertura, ver quem de facto são os transmissores e ver quem de facto tem capacidade para fazer essa aferição, quer dizer o que é que se está a fazer, como se está a fazer como é que isto está. Um dos problemas (estou a passar por eles talvez rapidamente, mas espero que eles fiquem claros) que se põe hoje é que digamos, os jovens e as pessoas que estão a aprender o cante vivem numa outra realidade, em princípio aberta, onde todos provavelmente ficariam a comer hambúrgueres, caso não houvesse outra alternativa e alguns jovens ficam mesmo e vestem só calças de ganga ou as saias curtas, conforme o nosso amigo de há pouco, mas de qualquer forma há um aspecto que é impossível ignorar, há uma expressão pessoal, que é fruto do crescimento e da maturidade e desse confronto de influências que há que não pode ser ignorada, quero dizer, por exemplo, quando eu vejo alguns grupos, obrigam quem lá entra imediatamente a vestir o trajo para entrar no espectáculo se para alguns jovens isso pode ser até um estímulo pode ser qualquer coisa que é muito normal, para outros é o ponto de bloqueio final, quer dizer: e mais uma vez um exemplo que eu achei de boa solução, quando o grupo de jovens de Castro Verde "Os Carapinhas", assim chamados, gravaram, eu reparei que eles estavam com um à vontade enorme, eram os mesmos jovens que nós encontramos nas escolas preparatórias ou nas escolas secundárias, eram exactamente os mesmos com o mesmo tipo e também cantavam e de que maneira, quer dizer o cante é uma boa acho que nós não podemos fazer tábua rasa, digamos do que eu chamarei uma sensibilidade pedagógica e um perceber que a época é outra que é preciso que as coisas se "casem" que não haja uma recusa de certas formas de expressar dos jovens que podem impedir totalmente o trabalho. Há questões que no fundo decorrem destas que é: em que medida é que nós conseguimos criar sentimento de pertença e desenvolvimento progressivo da capacidade de assumir papéis músico/gestuais e de dança na comunidade, o que Ž que eu quero dizer com isto? Quando nós damos a oportunidade a um jovem de se integrar num grupo de cante temos que lhe dar também a oportunidade de que isso corresponda a uma subida gradual do estatuto, tal como acontece se a pessoa pratica um desporto ou se integra num outro grupo qualquer, quer dizer, o estar, o trabalhar vai dar-lhe o lugar de ser reconhecido isso, digamos que há uma série de graus que têm que ser criados quando não existem e que eu sinto, por exemplo, que os grupos que eu conheço normalmente essa liderança do grupo é desempenhada por uma ou duas pessoas e digamos que, um jovem que entra, não será mais do que um cantador durante muito ano e raramente é chamado a assumir responsabilidades, sejam responsabilidades de tipo organizativo, sejam responsabilidades de ele próprio..... a cantar, etc. porque é a única maneira do jovem perceber que ele está num grupo que daí a algum tempo será seu e que não acabará quando aqueles senhores de idade que lá estão e que cantam muito bem, por algum motivo, por este motivo ou aquele se retirarem, quer dizer esta sensação que eu por vezes tenho e vivi por exemplo com o Grupo de Casével agora há pouco tempo numa situação que eu diria quase traumática, que é um grupo que canta maravilhosamente bem que fez uma gravação, em que eu estive presente, à primeira, sempre, só quando havia um ruído exterior é que era preciso parar porque  a segurança, o rigor eram espantosos e no entanto nós olhamos para aquele grupo e é de uma média etária, não sei de 55/60 anos, portanto as pessoas têm essa idade. Há qualquer coisa, quando eu olho para um grupo destes, que me diz que houve ali qualquer coisa que falhou, conseguiram integrar um senhor alemão, por exemplo, mas por motivos vários falta lá gente jovem. Pronto, isto depois o resto decorre não é, a capacidade de aceitação da mudança nos referendos culturais próprios de integração de influências externas e de abertura a outros modos de pressão de outros grupos culturais, quer dizer por vezes eu sinto ao fazerem a restituição do repertório que recua ao início do século e ao enquistarem nele, embora tenham as modas ligeiras, nós sabemos que são mais recentes, por vezes é quase como se fosse a sobrevivência, se o grupo não fizer isso é como se o grupo se auto destruísse, mas eu penso que se não for possível haver uma renovação, aquilo a que eu chamaria uma renovação sustentada, quer dizer, o grupo fazer experiências, por exemplo, no sentido de integrar novo repertório, seja o reportório antigo que vai conhecendo, seja tentativas e experiências de novo reportório, quer dizer o grupo está condenado a ser uma espécie de vitrine que pode ser excelente, estou-me a lembrar do grupo de Almodôvar a cantar todo o reportório sacro, que Ž dos grupos que mais gostei de ouvir, mas no entanto Ž uma vitrine, é um grupo que talvez tenha parado no tempo e eu não sei se os grupos não terão que enfrentar com coragem com determinação uma renovação sustentada ou então novos papéis, novas funções que os ajudem, que os aguentem de facto. Eu passaria agora para algumas dificuldades e para algumas vantagens, nas dificuldades eu penso que por vezes inconscientemente, mas eu sou da geração em que muita gente tentava disfarçar, por exemplo o seu modo de falar quando ia viver para Lisboa ou quando ia para uma faculdade, hoje já não é assim, hoje felizmente isso já não acontece, eu tenho alunos beirões, tenho alunos do sul e os açorianos e madeirenses que fazem gala e têm uma enorme afirmação nas suas particularidades regionais, mas nem sempre foi assim, e se isso não acontece, tanto, com gente que tem os 19/20 anos e que tem acesso ao ensino eu posso-vos dizer com toda e tenho a impressão que posso generalizar, embora não esteja sustentado em nenhum estudo que a geração que tem 11, 12, 13, 14, 15, 16 anos, tem todas as condições, tal como está organizado o sistema de ensino para disfarçar e para mudar para um outro registo ou para um outro padrão de comportamentos, ou seja quando se tem 12, 13, 14 anos estar no rancho ou estar no grupo pode ser qualquer coisa que o jovem sente extremamente aviltante, digamos assim. Isto tem consequências dramáticas e digamos na situação por exemplo das comunidades migrantes que vocês saberão com certeza a dificuldade que os filhos de emigrantes têm em conciliar uma vivência que é uma vivência muito diferente, uma outra cultura, com a vivência de registo materna ou paterna e quando isso não é resolvido, as consequências que têm, as coisas aqui poderão ser um pouco mais atenuadas mas eu penso que isto é um dado que as pessoas têm que considerar, por vezes o grande problema de fazer passar um determinado conhecimento ou uma determinada prática é porque há à partida condições complicadas para este assumir os referendos culturais da sua comunidade. Por outro lado, a somar a isto por vezes os jovens, ou as pessoas, até adultas, tentam aderir a novas normas e a outras situações e não conseguem, digamos, há um falhanço e então ainda é mais complicado, porque para além de não recusarem as suas têm dificuldade em assumir as novas e evidentemente a dificuldade de um crescimento e aceitação de outros grupos culturais, por exemplo pode acontecer que haja a contrária, também, quer dizer uma pessoa estar na sua cultura, por exemplo, tudo o que há à volta é como se fosse a barbárie e portanto há um enquistamento, se quiserem e uma recusa completa de olhar para o outro e de o compreender e de o aceitar e eu diria mais, até de o integrar quando lhe interessa, porque eu penso e muita gente pensa assim que as culturas não são estanques, as culturas estão em permanente evolução e que estes contributos e estas tentativas que são feitas de integração e nós sabemos bem no nosso País que a movimentação dos trabalhadores, dos alentejanos para o norte os beirões para aqui, contribuíram e modificaram e trouxeram muita coisa que hoje está integrada tanto no Alentejo como nas Beiras como no norte do País e que ao fim de um certo tempo se provaram ficam, se não provaram caem, murcham, como a planta que se deita à terra que se não tem condições para crescer... Nas vantagens há um consenso hoje em todo o trabalho de desenvolvimento comunitário, em todo o trabalho de educação que quando se adquirem normas e procedimentos culturais isso é do mais significativo para o crescimento pessoal permitindo o reconhecimento do indivíduo como pertencente a uma comunidade, isto dito assim desta maneira pode ser um bocado longo, mas no fundo é isto é a pessoa sentir-se bem na sua pele e no sítio onde está e no sítio onde nasceu e com os seus parentes próximos e amigos e isso, digamos, ser uma referência para a sua vida, o que não impede nada de ir para onde quer que seja neste mundo. Mas essa matriz de referência das pessoas, há muita gente que diz que é fundamental para nós sermos felizes e maduros. Por outro lado, esta transmissão destes valores, desde conhecimento eu estou em crer, eu e não s- eu, outras pessoas com quem tenho falado, que existem habitualmente recursos humanos e materiais em todas as comunidades para a sua transmissão, a questão é organizá-lo e fazê-lo bem feito. As actividades artísticas eu penso que o cante se pode integrar neste domínio, é um dos domínios menos dependentes do desenvolvimento tecnológico e onde há um maior aproveitamento e de inovação a partir dos recursos locais. O que é que eu quero dizer com isto? É que felizmente para cantar não é preciso uma parafernália de sistemas eléctricos e de amplificações e de máquinas complicadas, quando eles existem é mais, mas digamos para o cante, as pessoas dependem do seu corpo e da sua voz e capacidade de organização e de encontro e portanto não estão dependentes de outros meios. Por outro lado, a prática do cante deve ser considerada como um factor de distinção, quero eu dizer, o cantar bem como foi deve ser considerado como um privilégio, uma honra e não como qualquer coisa que se passa só num grupo fechado e que está lá naquela associação. Uma constatação que aliás a Professora Salwa Castelo-Branco abordou muito bem e problematizou no sentido do desenvolvimento e organização que é hoje nós termos um enorme acervo de publicações, estúdios de gravações e imagens que nos permitem conhecer e analisar os aspectos mais significativos do cante alentejano, ainda agora ouvia... Está feito e todo este material que está recolhido, mas no fundo é, como diz a Professora Salwa, é preciso é juntar isso e cruzar a informação, isto está tudo disperso e não adianta, ainda falando com o Francisco Pereira, eu mandei-lhe a listagem das gravações, que neste momento estão no museu de Etnologia, do Alentejo e Algarve feitas por Michel Giacometti e que são digamos 80% mais do que aquilo que foi publicado nas antologias dele, quer dizer, que tem as conversas com as pessoas, que está ali e está parado eu suponho que pouca gente saberá o que lá está. E agora talvez o mais importante, e era talvez mais para a outra mesa que se vai acontecer hoje à tarde ou amanhã, e que é, hoje há abertura nos currículos escolares para a inclusão de temáticas regionais, há abertura, está na lei, está escrito em todo o lado e toda a gente ouviu publicamente, agora urge organizar.

Escolhendo reportório para os diferentes grupos etários mesmo incorrendo no risco de errar alguém tem que dizer e é preferível que fosse alguém com conhecimento de cante, que para um grupo etário, por exemplo a nível do primeiro ciclo do ensino básico, que viva no Alentejo, deveriam saber 34 modas ligeiras e mais não sei quê. É preciso dizer quais e escrevê-las num sítio e fazer um pequeno texto a dizer de onde é que são e se ninguém o faz isto não anda, é um pouco a sensação que eu tenho. A par de cursos de formação dos professores, quero eu dizer: para os professores que ainda não sabem que o devem fazer é preciso sensibilizá-los é preciso que eles abram de facto as suas aulas quer a eles próprios quer a pessoas que vêm de fora e fazer a divulgação realizada por pessoas e grupos com conhecimentos adequados e sensibilidade pedagógica, quer dizer o Alentejo tem, como sabem, um enorme manancial de cantadores, gente que sabe estar, que sabe contar, que sabe divertir e tanto quanto eu vejo o sistema de ensino aproveita pouco ou muito pouco, e é uma pena, quer dizer: há gente que poderia dar um contributo imenso e muito importante para a permanência e renovação do cante, desde que isso seja organizado e possa fluir. Eu vou terminar e agradeço terem-me convidado e desculpem ser ao fim da manhã e entrei pelo almoço dentro.

Obrigado!"
Dr. Domingos Morais