sábado, maio 21, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“ALENTEJO

- QUÃO DESCONHECIDO É AINDA ESSE TRECHO MARAVILHOSO DO MUNDO...


TERRAS DO SUL – CANTARES ALENTEJANOS:
- QUANDO HÁ ANOS REVELÁMOS, A EXTRAORDINÁRIA FONTE LÍRICA, NOTÁVEL SOB OS PONTOS DE VISTA MAIS EXIGENTES, QUE SÃO OS CANTOS ALENTEJANOS...

MISTERIOSOS CANTOS!

- (...) PODEMOS AFOUTADAMENTE DIZER, O ALENTEJANO, E SOBRETUDO O NATURAL DO BAIXO ALENTEJO, RARISSIMAMENTE DEIXA DE CANTAR.”


IN ”O POETA DA AUSÊNCIA” Revista Águia – Porto 1916/17 - (Visconde de Vila Moura)

sexta-feira, maio 20, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“(…)
P. S. (Post Scriptum)

Tu conheces avô, um coro alentejano? 
Rostos marcados, queimados
Braço no braço
Cadência no passo
Os olhos lançados longe
Do espaço do horizonte
E o coro baloiça firme
Ritmado e a voz que se agita
Que galga aflita a onda
Redonda e o som que dobra
Redobra ecoa retoma
O compasso atordoa
E enche o corpo dum grito
Que nasce do fundo do tempo
Da esperança do mundo…

É este o mar destas paragens!


Évora, Março de 1982”


in: P. S. do poema “Carta com Post Scriptum”, de Artur Goulart do livro No fio das palavras, pág. 76 a 78. Edição da Santa Casa da Misericórdia de Velas, S. Jorge. 2010.

segunda-feira, maio 16, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

"A CANTIGA


(...) 
Par o povo a cantiga é uma expressão de alegria, de tristeza, de sofrimento, de entusiasmo e de glória. Não há movimento popular em que não entre a cantiga, ou precedendo ou acompanhando, ou seguindo. Ordinariamente precedendo por que tem bravura, generosidade e entusiasmo o canto é fortificador, é o livre respiradoiro das almas abafadas. Os que cantam consolam-se, parece que a música quando sai dos lábios tem o poder de arrastar, para se dissiparem no ar, todas as tristezas do peito.

O povo sentiu isto quando inventou aquele adágio jovial: «quem canta seus males espanta».

Nas lutas populares ela ouve-se primeiro do que o rufar dos tambores; e depois não há luto ou triunfo na vida dos povos que ela não tenha deplorado ou celebrado. Alguém disse já que a canção tinha morrido; ora a canção não pode morrer porque é um dos instintos do homem.

(...)

Ainda que morresse como género literário, nunca morreria como influência e expressão popular.

Os tristes e os deserdados, os pobres, os oprimidos quando tudo lhes falta, o pão, o lume, o vestido, têm sempre no fundo da alma uma cantiga que os consola, que os aquece, que os alegra. E então a cantiga vale mais que todos os poemas!"

Lobato Adegas (Terra Nossa, nº. 3-1916)
in: "Cancioneiro Alentejano". Edição especial do Grémio Alentejano. 1938.

domingo, maio 15, 2016

TRATADO DO CANTE - Figuras do Cante:

MANUEL JOÃO MANSOS


Então que é isto, Manuel João? Então agora prensam-te num disco, espalmam-te dentro desta capa? Já não chegava terem-te metido num livro fininho de menos de 80 páginas? Eu sei que não é isso, eu sei que não foi assim mas não é para ti que escrevo estas palavras. Elas são para quem te não conhece, ou para quem te conhece mal. Elas começam assim para puxarem outras, para me levarem a dizer que não senhor!, que nem tu cabes em livros e discos, que nem te meteram lá, nessas “moengas”. Tu não esperas. Tu comandas. Quando muito dão-te uma ideia e tu, Manuel João, avanças. Até a ideia ser vida e entregue aos outros. Como este disco. Este disco… Não me posso esquecer de bem salientar que é um LP. Para o Manuel João Mansos isto é muito importante. E sabem porquê? Claro que é (também) porque o Manuel João não quer dúvidas, não quer ser homem de pequenas coisas, mas é (sobretudo) porque assim estará mais tempo com os outros. Connosco, a dizer-nos os seus versos. E como ele gosta que os ouçam! E como é preciso que os ouçamos. Mais do que tudo, pela força que quer ter a sua voz pelo pedaço vivo em sangue que Manuel João quer ser do seu Alentejo dos alentejanos, do nosso Portugal dos portugueses de aqui e dos que deixámos abalar.
O Manuel da Fonseca, num dos prefácios ao primeiro livro de Manuel João Mansos, escreveu que as surpresas são para os outros. Mas os outros começam a não se surpreenderem quando começam a conhecer o Manuel João. Depois deste LP, ele ainda ficará mais vivo, mais perto de nós, trazendo-nos o amor às gentes, a paixão pelo que não pode ver deserto, a procura do verdadeiro nesta embrulhada em que nos querem. E a coragem da simplicidade que não podemos deixar perder. A coragem. Ah, grande Manuel João! Apanhaste-me numa curva e não pediste, impuseste-me duas palavras para a capa do teu disco. Elas aqui estão, em respeito pelas grandes palavras que, em ti, readquirem força, e uma pureza, e uma simplicidade que sabe bem (e é preciso) ouvir. Como tu dizes, “juntemo-nos todos, que homens sinceros mesmo de credos vários são iguais”.”
Sérgio Ribeiro.


FF CA LP-012
- 1972 (LP) vinil “Alentejo Maior (poemas)” (registo sonoro).
- Edição: Valentim de Carvalho
- Poemas: O meu livro, Quadras, O homem que bem se regre, Nunca te dês por vencido, Um só ideal, Depois do dever cumprido, Dor vencida, Quem nem há-de ter paixão, A uns que não reparam, A um sujeito feliz, A um hipócrita, Para certos conterrâneos, O jogo, Toda a noite sem dormir, A clara razão, A verdade, A Jesus, Ao coração na tristeza, Quem tem um amigo guarda-o, As flores do meu jardim, Não julgues por cantar rosas, Canção do emigrante, Fraternidade, Ser cristão, Poesia, Prece, Ausência sem presente, Na dor do correr das lágrimas, Rosas de sangue.
Manuel João Mansos.