quinta-feira, outubro 20, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

TERRAS DE FOGO - Prólogo


“(…)
Depois carecemos surpreender as eiras na faina ardente do meio-dia …; assistir à abalada dessa gente que, mal a madrugada lampeja, lá vai em coros matinais, caminho das ceifas e apanha de legumes, e vê-la no regresso, à noitinha, transpondo as muralhas do burgo, braços dados, cores garridas, caras morenas e vermelhas bocas a cantar; atentar nas suas festas, bailes, fogueiras de São João, arraiais, romarias com touradas bravas, e esses opulentíssimos certames de movimento e cor, que são as feiras e mercados, onde todos os cambiantes da vida moral e social alentejana denunciam costumes, paisagem, e tudo absorvido do mais pitoresco tradicionalismo.
Passando um dia por esta região, mais ao Sul, notei que havia uns poços empedrados e outros com pesadas tampas de ferro. Não sei bem porquê, mais do que se fossem sepulcros, me impressionaram aqueles poços cerrados…
Perguntei o motivo, e entre as razões que me deram avultava a de suicídios – suicídios de gente moça que se apaixonava com violência por qualquer contrariedade vulgar ou detalhe de amor.
Compreendi, assim, toda a dolência e melancolia que eles emprestam às suas modas e cantares por essas noites cálidas, calmosas, misteriosas noites de levante e de queimadas…
(…)”

In: “Terras de Fogo” – 2ª Edição. De Julião Quintinha. Desenhos da capa de Bernardo Marques. Edição do autor. 1923.


quarta-feira, outubro 19, 2016

TRATADO DO CANTE - Escrito:

“QUANDO O CANTE ERA PROIBIDO
(Exercício de escrita e decalque sobre peças do processo de querela que correu termos na Comarca de Almodôvar contra José Caetano da Ponte e outros pelo crime de sedição (revolta) cometido na mesma vila em 26 de Janeiro de 1901)




Naquele ano de 1901, a invernia tinha-se instalado penosamente dentro das vidas das gentes do sul.
Nos finais de Janeiro, com a mudança da lua, o céu abriu, a borrasca abrandou e houve anúncios de trabalho, uma boa nova que se repetiu de boca a boca: - “Amanhã, se o dia aclarear bom, os lavradores querem mulheres para a monda”.
Rua fora foram-se juntando mulheres e alguns moços de olhos ainda pregados e corpos entenguidos que iam tentar a sorte de um dia de trabalho.
Só lá adiante, já fora da vila, começaram o cante.
Tinha de ser assim, porque o Administrador do concelho, António Furtado, andava a ameaçar as experimentações vocais dos mais atrevidos e tinha reforçado o efectivo de guardas da polícia civil, para rigorosa observância do Novo Regulamento do Governo Civil do Distrito de Beja que lhe havia chegado às mãos na véspera de Natal.
Este Novo Regulamento era ainda mais proibitivo que o anterior, datado de 3 de Fevereiro de 1866 e que já tanta contestação tinha merecido e tanta tareia tinha motivado, porque para além de proibir os adjuntos, obrigava ao silêncio os cantares que o povo de um modo natural gostava de fazer despontar nas ruas e nos largos por onde circulava.
Na caminhada, já nos descampados, vingaram a vontade sustida de cantar e soltaram as gargantas, entoando do rijo a moda “Olha a laranja da China”.
Mas nessa manhã, o cantorio era, de hora em vez, entrecortado pelo falatório, pela novidade, pela notícia contada, dita e redita sempre em tom crispado, num misto de desânimo e revolta, numa mescla de contenção e ímpeto.
Ao sol postinho, largaram o trabalho e fizeram-se ao caminho direito à vila, intercalando o cante com o tal falatório, alternando as vaias com a insatisfação desmedida que sentiam e tentavam sublimar com as carcachadas que se seguiam às pragas rogadas aos guardas que tinham feito do Caetanita um frangalho.
Já se avistava o casario da vila recortado no entardecer, quando a Mariana Capacheira se susteve no andar, pararam as outras e a moçada estacou de boca aberta como que a adivinhar que vinha aí polvarinho.
- Esperem aí? Se fossem todas da minha opinião, agora íamos direito à praça cantando a moda, disse em tom de desafio a Mariana Capacheira. E se bem dito, melhor feito.
Mas, à sua espera, rondando o hotel, andavam três patrulhas dos guardas de polícia que de imediato, alçando os cavalos marinhos e aos empurrões, desfizeram a moda. Acto contínuo, surgiram na praça o Presidente da Câmara Municipal António Alves da Costa e o filho deste, Bernardo António Alves, escriturário da Repartição da Fazenda. Por alí já circulava também há tempo o comerciante abastado José Caetano da Ponte que no flagrante começou, em altas vozes, a vociferar contra o procedimento do Administrador quanto à proibição dos descantes e a insinuar culpas para o Delegado do Procurador Régio, dizendo: - “estamos em estado de sítio; isto assim não pode ser; isto não pode continuar; isto é obra do Delegado; isto tem de acabar; o Povo há-de levantar-se; o cante é costume antigo em todo o Baixo e Alto Alentejo”.
O Guarda Francisco António Gato, por ser mais espevitado ou por ter aprendido melhor a lição, respondeu-lhe que se cumpria com a determinação do novo Edital do Governo Civil e que o Administrador procedia em obediência a essa determinação.
Mesmo assim, cumprindo quase um ritual, o Delegado, o Administrador e o Escrivão saíram de tarde a dar o seu passeio. Quando voltaram, recolhendo ao hotel, já encontraram a Praça D. Luiz I apinhada de populares que mal os viram irromperam batendo as palmas, fazendo-se ouvir em cantos, gritos e assobios quadrados.
Silenciosos, fitando o vazio, os visados passaram por entre os apupos e ao entrarem no hotel, uma saraivada de pedras caíu-lhes em cima.
Estavam reunidos todos os requisitos para que a noite fosse de tensão e os desmandos acontecessem: muita gente na rua, muita vinhaça e uma vontade incontida de protestar contra o amordaçamento do cante.
Como resposta, de Beja veio a tropa em socorro do Novo Regulamento e a vila de Almodôvar esteve militarmente ocupada durante três dias.
De então para cá, ainda durante muitas décadas, o cante continuou proibido nas ruas e nas praças e em virtude disso, as mulheres quase que o esqueceram, entristecidas, receosas ou desalentadas.
A tradição do cante em feminino quase sucumbiu nesta terra (Almodôvar), como no tempo se deixam perder as memórias, como na vida se diluem os encantos.”

José Francisco Colaço Guerreiro

In: “Memória Alentejana”. Edição de CEDA (Centro de Estudos Documentais do Alentejo – Memória Colectiva e Cidadania). Nºs. 31/32. 20/2/2013. Caderno Temático “Cante”. Págs. 36/38.

terça-feira, outubro 18, 2016

TRATADO DO CANTE - Crónicas:

O Cante do Ladrão em Rio de Moinhos, Alcácer do Sal


Alcácer do Sal estava como sempre azul e branca, reflectida na água sadia do que nasce na serra do Caldeirão - talvez o mágico dos druidas e dele se evolando! - e a esperança  era anunciada nos campos e nos lugares mais altos por voluptuosas cegonhas, tendo-nos suscitado cantar a moda “Senhora Cegonha” com alguns dos gerontes do Grupo Coral da Damaia “Os Alentejanos” com quem nos cruzámos ali. A paragem nesta cidade tinha por fim confirmar o encontro de cantadores do cante do ladrão e poetas em Rio de Moinhos com o Doutor Lacerda e cumprimentar o senhor Presidente da Câmara.
Em Rio de Moinhos, dirigi-mo-nos à Escola onde nos esperava a Professora Catarina Cabaceira e o poeta Ananias, a quem as crianças fizeram uma entrevista  publicada num “Boletim Informativo” com o título: “A História de uma Aldeia”. Ali iniciámos o encontro, pois à medida que os cantadores iam chegando iam-se sentando à volta das mesas em rectângulo, feitos de novo meninos, rodeados das belas criações infantis que ornavam as paredes. Aquela escola, apesar do seu isolamento ou talvez por isso mesmo, é sem dúvida nenhuma factor de desenvolvimento e fulcro de dinamização da comunidade em que se insere.
O encontro tinha sido pedido pelo Secretariado do Cante Alentejano. O Dr. Lacerda  no início deu um valioso contributo, chamando a atenção para o facto de haver registos de população de há mais de cinco mil anos, como foi provado pelos exames feitos aos concheiros existentes ao longo da ribeira, e, bastante mais próximo de nós no tempo, do cruzamento de pessoas do Norte e do Sul que para ali se deslocavam para trabalhar, factores que certamente influenciaram as formas musicais que nos chegaram. Recordou ainda um pormenor que ouvira a Giacometti. Este descobrira modas que só se cantavam ali e em Figueira de Cavaleiros. Alguns dos presentes desta última zona corroboraram a ideia, por terem ainda na memória registos de deslocação por questões de trabalho desta população para aquela onde nos encontrávamos. Enfim, ficaram no ar muitas pistas para investigação de uma região de Além-Tejo riquíssima a todos os níveis.
Passou-se a uma discussão sobre os diversos cantes ao despique: as gralhas, que se concluiu não eram próprias daquela zona, a barrenha, cantada na taberna, o despique propriamente dito e o cante do ladrão que era cantado no trabalho. Foram lembrados cantadores do cante do ladrão como o Grades que se tornara famoso. Quando um cantador era sublime nesta arte, punha toda a gente calada e era dif'cil acompanhá-lo. A princípio, o ladrão tinha baile e era acompanhado a concertina. Depois deixou-se o baile e passou-se somente a cantar. Nesta zona cantava-se, além do ladrão, o despique e a barrenha. Foram destacados três nomes de cantadores da barrenha: Manuel Páscoa, José Bicho e António Páscoa. Foi referida uma festa, a de Carvalheira, religiosa e profana, que arrastava muita gente doutros lados e onde se podiam apreciar grupos a cantar o ladrão e outros a cantar a barrenha. Com os copos, havia o aparecimento dos valentes que provocavam cenas de pancadaria, perpetuando assim a sua memória nos presentes.
Houve uma pausa no nosso encontro, o tempo necessário para nos deslocarmos até ao Centro Social onde nos presentearam com um lauto jantar com uns belíssimos pastéis de bacalhau como aperitivo ao caldo verde e ao arroz de pato bem regado por delicioso vinho, seguido de uma excelente salada de fruta. Notava-se neste jantar a inteligência e bom senso da sua organizadora, a professora Catarina Cabaceira!
Depois de bem comidos, acentuou-se o tom do convívio. Começou a concertina e reiniciou-se o cante do ladrão. Até houve quem dançasse! A seguir, houve um momento poético de alta qualidade em que vários poetas, de idade respeitável,  obedeceram a  Calíope. Reflexões sobre a vida fizeram-se ouvir como, a título de exemplo: “pelas ladeiras da vida/fui subindo enquanto pude” (...) “tudo o que tenho subido/ é p'ra descer a seguir.”
Mas, como não podia deixar de acontecer quando se juntam alentejanos, não abandonámos o Centro Social sem cantarmos todos juntos uma moda: “Alentejo, és nossa terra”.
Porém, como o  cante é mágico e dele custa a despegar, fomos para o café onde ele continuou a ressoar noite fora ao som da concertina.
Era noite de lua nova, anunciadora de novas criações. Com a alma cheia, apetecia cantar a quadra popular:

         Noite escura, noite escura
         Senhor Deus que até faz dó
         Nem que as noites todas juntas
         Se unissem numa só.


De regresso, ladeando a estrada, viam-se erectos na sua dignidade pinheiros e sobreiros, estendendo-se pela planície em misteriosa sombra. A imaginação poderia vislumbrar uma noiva aceitando o nubente em secreta cerimónia de núpcias, tendo apenas, por testemunhas, os luzeiros do céu.
De novo Alcácer, parada na noite branca da cal, reflectindo-se na água do rio, assim a ninfa Salácia, sorrindo ao deus Neptuno que, derretido pelo amor, até deixava o tridente.
No coração palpitava ainda a melodia do ladrão e dos versos ouvidos à voz da sabedoria alentejana."

Rosa Pereira
26 de Maio de 1998