sexta-feira, novembro 09, 2018

TRATADO DO CANTE - Almanaque:


NAMOROU-SE O DEUS MENINO DE UMA CIGANA EM BELÉM

"(…)
Guedelha veio ao postigo e ao encarar Adelina deu-lhe um impulso. Antes da cigana arengar o pão, já ele lhe abria a porta:
- Entra, Adelina… - insistiu puxando-a por um braço.
A mulher entrou meia arrastada. O velho fechou a porta, encostou o postigo e abraçou-a sem lhe dar tempo a reagir. (…)
Entretanto, uma mão empurrou o postigo: era Mariana.
(…)
- Já viste, desgraçado… se ela nos rouba alguma coisa?!…
Guedelha ainda conseguiu responder, voltando as costas:
- Achas que pode roubar alguma coisa?…
000
Namorou-se o Deus Menino de uma cigana em Belém
(…)
Foi então que o cante irrompeu. Como era vésperas de Natal, cantou-se ao Menino. A filha começou o salmo, em toada lenta e cristalina, secundada pela neta, a que se juntou a voz grave do velho. Parecia um céu aberto: “Namorou-se o Deus Menino/ De uma cigana, em Belém/ Olha a dita da cigana/ Tão lindo amor que tem...
Quando mais tarde o casal de velhos saiu, uma sensação especial de conforto ia dançando na cabeça de Guedelha: - Afinal… também o Deus Menino… tão santo… tão honrado… se perdia por ciganas…
Mariana, logo que entrou em casa, foi buscar a tesoura e pendurou-a aberta detrás da porta. Contra os maus agouros.
(...)”




in: “O velho ainda canta!”, de João Mário Caldeira. Edições Colibri. Outubro de 2006. Pág.s 104 a 108.