segunda-feira, novembro 25, 2013


BOLETIM DO CANTE ALENTEJANO Nº. 2 - OUTUBRO DE 1997

O “Cante“ de Armando Leça.


 

"Da conferência realizada na Casa do Alentejo em Lisboa na noite de 30 de Novembro de 1940, durante a qual se exibiu um “ Rancho Misto de cantadores de Vila Verde de Ficalho”, permitimo-nos transcrever algumas frases curiosas do prof. Armando Leça:

“ Que se dança no Baixo Alentejo ?

Nem o Vira, o Malhão, a Vareira, a Tirana, Verdegaio ou a Farrapeira, porque as fases coreográficas de tais bailios regionais, o desembaraço dos pares, o mexido dos pés, os saltos, o rodopiar ágil, não se adaptam à sobriedade da gente do Baixo Alentejo. Dançam, sim, balham, mas à sua maneira. Uma das suas quadras, o explica:

Para tocar o algarvio,
Para fandango o Ribatejo,
Para campinos, Borda-de-Água,
P’ra cantar o Alentejo.

No Baixo-Alentejo as romarias não se sucedem de Maio a Outubro, como no Norte. Ao S. Gonçalo de Amarante ou à Senhora da Abadia há as promessas de romeirinhas que, palmilhando léguas, cantam em côro quadras em louvor dos Santos milagrosos; no Baixo-Alentejo ouvireis apenas no último domingo de Setembro, o côro dos que vão à Senhora de Aires, - imagem tão pequena e senhora de tão grande templo - ; vão mais pela feira famosa do que em promessas.

(...)

No Baixo-Alentejo também balharam o Fandango e mais danças desusadas. No terreiro da Senhora d’Aires- no seu dia - ainda talvez vejais os pares folgando com a contradança, se aparecer algum tocador de flaita, a gaita de bêço no dizer dos estremenhos.

(...)

OUTONO! À tarde acinzam-se as serranias de Espanha e algarvias, os cabeços de Ficalho e Mértola.

Quem se lembrará do tamborileiro no dia da Senhora das Pazes e dos florescentes eloendros abeberados no Chança?

A manta e a samarra já os maiorais do gado as não dispensam.

Lavrar. Semear.

Queimadas nas herdades.

Nas oliveiras - tantas esculturas de corpos decepados, braços implorativos, silhuetas eróticas - ; nos olivais amadurece a azeitona.

Chegado é tempo dos alqueives; a charrua, puxada pelas muares com guizos nos cabrestos, desagrega a terra, retalha-a para que ela fecunde as sementeiras e nos dê: - “ O pão nosso de cada dia”.

Ouve-se então, pelas campinas, ao trabalhador, a moda da lavoira, descansadamente, rematando cada verso com interjeições improvisadas.

Ouvi! Entoa a moda da lavoira, o ficalhense Bento Sargento Pereira:


Cantar há muito quem cante,
Preceito é de quem no tem.
Hoje em dia não se sabe,
Quais são os que cantam bem.

 
No Baixo-Alentejo cantam-se os coros em atitudes e respeito, de concentração, quer seja na arruada, nos trabalhos ou nas Vendas à volta das mesas, bebendo, bebendo..., com as mãos enconchadas às bocas.

Quadros de Malhôa !

Cada grupo ou cada moda têm os seus pontos, isto é, vozes escolhidas que começam, sós, os coros.

O ponto canta as letras, quadras variáveis; o alto - requinta - sobrepõem-lhe a voz harmónica, floreando-a na moda - estribilho - e os baixos completam a harmonização dêstes excelentes orgãos humanos. Há variantes na entrada do côro e do alto. Êste, por exemplo, ataca na primeira sílaba um verso ou antecede-a com um- ai ou a conjugação e... como guia dos baixos que entoam logo, até cortando os vocábulos.

(...)

Em recolhimento místico ouvem-se corais dum BACH!  Com os olhos postos na majestosa planície do Baixo-Alentejo ou evocando-a, é que compreenderemos, sentiremos a étnica dos seus coros.

Predominam as vozes de homens, como no Minho as das Mulheres.

Aqui a carreteira, estirando-se por entre sobreirais e clareiras, é quási rectilínea aos caidos montes.

(...)

Se, agora, cantando horas e horas, perguntássemos aos componentes dêste afamado grupo ficalhense como de outras terras alentejanas, quantas modas ainda ouviríamos de novo, responderiam: “em calhando”, até ao aclarar do dia..."