sexta-feira, janeiro 17, 2014

TRATADO DO CANTE:
........................Congresso do "Cante" Alentejano
Beja, 8 e 9 de Novembro de 1997
 
PAINEL A                RAÍZES E ESTUDO DO CANTE ALENTEJANO

"Muito obrigada! e vou ser breve e vou falar mais do futuro do que do passado. Gostaria de começar por manifestar o meu regozijo pela iniciativa do I Congresso do Cante Alentejano que, seguramente irá proporcionar uma importante oportunidade para debater questões em torno de uma das tradições mais dinâmicas em Portugal. Quero aproveitar, esta oportunidade, para agradecer aos organizadores o convite que me dirigiram para participar neste evento".

A minha relação com o cante começou em meados dos anos 80, quando tive o privilégio de conhecer de perto a vila de Cuba e os seus grupos corais, onde tenho lá muitos amigos. Seguidamente tomei contacto com grande número de grupos, quer no Alentejo quer na área Metropolitana de Lisboa. Este contacto com o cante do Alentejo e os seus portadores, iniciada há mais de 10 anos, marcou-me pessoal e profissionalmente e continuará a constituir um dos focos do meu interesse no futuro. A grande dinâmica do cante alentejano, quer no Alentejo quer no seio das comunidades alentejanas na cintura industrial de Lisboa e Setúbal está patente nas actividades na cerca de 100 grupos corais activos, que o livro do Sr. José Francisco Pereira identifica.

Apesar da literatura sobre o cante alentejano ser uma das mais extensas no panorama de estudos sobre a música tradicional portuguesa, julgo que há ainda muito trabalho a realizar, quer na documentação e na inventariação do reportório, quer no estudo das múltiplas facetas musicais, históricas, sociais e políticas do cante, o que representa um grande desafio para Etnomusicólogos e outros cientistas sociais. Nesta ocasião limitar-me-ei a sugerir algumas áreas de actividade e questões que me parecem prioritárias. A primeira prende-se com a criação de um arquivo audiovisual para o Alentejo. Como sabem não existe em Portugal nenhum arquivo sonoro nacional e a fundação de uma instituição que garanta a preservação da memória musical do Povo Português, não parece constituir uma prioridade para o governo o que constitui uma grave lacuna para um país com um legado musical extremamente rico. Existem gravações que foram realizadas por vários investigadores e entusiastas/coleccionadores, em todo o País, pelo menos desde meados do nosso século que se encontram dispersas em várias instituições publicas e colecções particulares sem haver as condições que possam garantir a sua preservação, inventariação e acesso aos estudiosos aos grupos e ao público. A salvaguarda das gravações existentes, utilizando meios digitais, actuais, de modo a garantir a sua preservação, para as próximas gerações é uma tarefa extremamente urgente. Por outro lado o reportório gravado deve ser inventariado e a sua documentação sistematizada e completada. Muitas vezes existem colecções muito extensas com uma documentação anexa extremamente breve indicando apenas o local, a data e talvez o título, mais nada. Penso que ainda estamos a tempo para completar esta documentação. Além disso a produção fonográfica, actual, quer pelos próprios grupos, quer pelas empresas discográficas, em Portugal e no estrangeiro, deve ser sistematicamente recolhida, inventariada e preservada. Parece-me que há imenso material disponível, disperso, no mercado, que é possível comprar, que foi publicado, não para fins de estudo propriamente dito, mas que constitui de facto uma fonte extremamente importante.

 
Dada a inexistência de um arquivo sonoro, a nível nacional, parece-me urgente a criação de um arquivo fonográfico, regional ou distrital, tendo os seguintes objectivos:

1. Reunir e salvaguardar todas as gravações de campo e de arquivo, existentes do cante e das outras tradições musicais do Alentejo.

2. Complementar as gravações sonoras com a documentação escrita e iconográfica disponível.

3. Inventariar os reportórios documentados, incluindo textos e melodias.

4. Recolher, arquivar e documentar, sistematicamente a produção fonográfica actual: CDs e cassetes. Tanto dos próprios grupos, como das empresas discográficas.

5 Promover projectos de documentação audiovisual do cante e das outras práticas musicais actuais do Alentejo que poderão ser levadas a cabo em colaboração com a Universidade que disponibilizará Etnomusicólogos qualificados para colaborar com estudiosos alentejanos: os próprios portadores das tradições. Estes projectos deverão documentar não só o desempenho do cante, mas também a memória dos seus cantores, compositores e poetas. É muito importante falar extensamente com estas pessoas que são portadores da nossa história recente e registar as suas memórias porque através dessas memórias podemos reconstituir um passado extremamente rico onde o cante fazia e tem um lugar importante.

O arquivo regional com o perfil, acima delineado, deverá ser aberto a consulta dos grupos dos investigadores e do público em geral. A importância para os investigadores é óbvia, mas talvez nós não pensemos na importância que tem para um jovem de 14 ou 15 anos que queira ouvir, como é que os seus avós cantavam, há 50 ou 60 anos e ir a um arquivo e de facto ter acesso a isso. Eu tive um bocado esta experiência, nos Estados Unidos, onde os arquivos, de facto, desempenharam um papel extremamente importante na revitalização de tradições que já tinham desaparecido. Por outro lado os próprios grupos de facto, muitos tem em seu poder gravações antigas, de 20 ou 30 anos, que serviram como fonte importantíssima. Se não houver um arquivo estas gravações vão-se perder. Vão ficar dispersas. Portanto é mesmo extremamente urgente reuni-las, disponibilizá-las, sistematizá-las e facultá-las para consulta geral.

Também pensando no futuro gostaria de dizer algumas palavras de tópicos e questões que ma parecem importantes estudar no futuro e antes disso gostaria de falar do que é a etnomusicologia, hoje. A moderna etnomusicologia é uma disciplina que visa o estudo da música enquanto fenómeno cultural, social, económico e político dinâmico. O trabalho do etnomusicólogo ou da etnomusicóloga não se limita a recolha, a recolha é importante mas não é a única coisa que fazemos. Abrange um estudo mais vasto de processos e comportamentos sociais em que a música desempenha um papel central. Segundo esta perspectiva, da moderna etnomusicologia, a noção de música não se limita à componente acústica mas abrange um leque mais vasto de comportamentos e processos, incluindo os gestos, os movimentos, a palavra.

O cante é uma das tradições, musicais, mais documentadas e estudadas em Portugal o que não quer dizer que o seu estudo está feito à exaustão, de maneira nenhuma, as obras de algumas das pessoas que foram referidas aqui. Por exemplo o padre António Marvão; o padre António Cartageno; Prof. Manuel Joaquim Delgado; Prof. João Ranita da Nazaré, entre outros, são referências imprescindíveis. Por outro lado as gravações publicadas pelos próprios grupos ou de empresas discográficas e por estudiosos são documentos valiosos que fornecem uma perspectiva histórica sobre a prática musical.

O trabalho realizado em torno do cante alentejano focou, sobretudo, a sua origem (apesar do facto como referiu o Dr. Henriques Pinheiro, continue a ser uma questão em aberto e talvez nunca se consiga resolver), as suas características musicais, a sua estrutura, etc. a classificação do reportório e as suas mudanças (refiro-me ao trabalho do Prof. Ranita da Nazaré, nesta questão). A documentação e a investigação realizada, fornecem um excelente ponto de partida para futuros trabalhos que deverão dar prioridade, sobretudo, às questões que se prendem com a realidade actual do cante e com a sua história contemporânea. História essa que podemos ainda documentar devidamente.

Parece-me importante desenvolver projectos de investigação que explorem os seguintes aspectos da prática do cante. E vou mencionar apenas alguns que me parecem muito importantes:

1. O Historial da transplantação do cante para a Cintura Industrial de Lisboa e Setúbal e o seu impacto sobre a prática do cante, quer no Alentejo, quer na área Metropolitana de Lisboa (estão presentes entre nós algumas pessoas, aqui e outras pessoas que vamos ver mais tarde. Algumas das pessoas mais importantes nesse processo). Temos que documentá-lo de facto.

2. O papel do cante na vida das comunidades quer no Alentejo quer na Cintura Industrial de Lisboa e Setúbal. (Porque é que as pessoas fazem esse esforço de ir aos ensaios, de reunir as pessoas, de fazer as suas saídas. É um esforço muito grande. Repetidamente os meus amigos em Cuba, no Barreiro e em outros sítios onde tive o privilégio de contactar de perto com esta tradição sempre me referiam a dificuldade que tinham de continuar. Mas olhamos para eles e alguns estão no grupo há 40 ou 50 anos. É de facto notável. E na minha perspectiva a pergunta que se põe: porquê? porque é que as pessoas se reúnem e continuam a cantar desta maneira?).

3. A relação do cante e as outras práticas musicais no Alentejo, no passado e na actualidade (tem se ideia que o cante é uma coisa separada do resto, muito distinta, mas parece-me que se olharmos um pouco mais, profundamente, podemos descobrir algumas relações. Acho que é uma questão importante a desenvolver).

4. Por outro lado parece-me importante, também, desenvolver-mos trabalho sobre o papel dos indivíduos, na criação e na divulgação do cante. Concretamente precisamos de identificar e elaborar histórias de vida e identificar a obra dos poetas dos compositores dos estudiosos e dos dinamizadores do cante. Alguns estão ainda vivos, felizmente, outros já não estão entre nós, mas existem entre nós pessoas que os conheceram bem e que aprenderam com eles e que poderão nos guiar para de facto reconstituir essa história.

5. A relação entre o cante e a organização social e política do Alentejo. As mudanças actuais do cante: o que está a mudar, de facto? (penso que neste Congresso vamos aprender muito sobre isso) como ocorreram? quando? porquê? o que significam?

Estas são, apenas, algumas das questões que me parecem fundamentais abordar.

Para terminar gostaria de afirmar a abertura do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, de que sou presidente, para colaborar com indivíduos, grupos e entidades no desenvolvimento de trabalhos de comutação e investigação sobre o cante e as outras tradições musicais do Alentejo.

Muito obrigada!."
Drª. Salwa Castelo-Branco

 

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