quinta-feira, fevereiro 11, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

“ÀS CAVALITAS DO TEMPO – mini-crónicas”, De Eduardo Olímpio. Coleção Cacto. Edição de Prelo Editora, SARL. De Maio de 1974.


 “(…) Na planície, a gente vê o horizonte no seu tamanho natural. Não admira que amemos as pequenas coisas – o orvalho na erva, um botão de rosa num craveiro de monte, as papoilas enfeitando rastos de cobras e abetardas. E embora não tenhamos aqui, nas nossas faces, o sol radioso do Alentejo, a gente alimenta-se muito do espírito de saudade, pois se não fosse ela não aguentaríamos a noite de pesadume que climatiza o nosso desterro involuntário…
(…)
Do prefácio (pág. 12) de Antunes da Silva


“O sofá-coma

quando o homem abalou, lá para as alemanhas, alguma coisa a avisava desgraça. era a modos que uma pessoa cá dentro, no coração a falar, a falar, lenga-lenga de mau agoiro. embora isso, não chorou. já se esquecera da cor das lágrimas, tantas secara nas costas da mão, filhos mortos, filhos idos, animais caindo de doença. por isso ali estava, cinco anos passados desde o dia da abalada do seu homem, a olhar a casa vazia de tudo: filhos, marido, trastes e mobílias.

apenas o velho baú forrado a pele, pele roçada e o velho sofá-cama, que a filha trouxera numa das poucas visitas, lá de lisboa. – para eu ficar quando cá estiver, dissera. – quando cá estiver: metera-se naquilo das danças e perdera-se por sabe-se lá que marrocos, diziam.

- resolveu-se. uma voz gritava-lhe que ainda tinha direito a viver (viver ou qualquer coisa parecida) mais uns dias. e a voz insistia: venda o sofá: coma!”

In: pág. 39.

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