quinta-feira, novembro 24, 2016

TRATADO DO CANTE - Almanaque:

MINHA MÃE AMASSA O PÃO


‎Minha mãe amassa o pão,
E porque é mãe e mulher,
Guarda-o no coração
Para meu pai quando vier.

Minha mãe amassa um beijo
Pra meu pai que vem depois,
Eu viro a cara, não vejo -
São coisas lá entre os dois.

Minha mãe amassa a vida,
E a vida cabe-lhe inteira
Na farinha desmedida,
No infinito da peneira.

Minha mãe amassa as flores,
As que no campo se dão-
E há mil cheiros, mil sabores
Numa fatia de pão.

Minha mãe amassa e diz
Pra dentro do coração,
Que só pode ser feliz
Quando os outros também são.

Minha mãe amassa o medo:
Pode adoecer meu pai! -
Vai amassando em segredo,
Até que o medo se vai.

Minha mãe amassa, amassa
Prá farinha sair pão -
E põe, se a água lhe falta,
Lágrimas do coração.



Poema de António Simões, Natural de Beringel, e professor em Estremoz, in "Minha mãe amassa o pão", Câmara Municipal de Beja, 2001.

Sem comentários: